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Educação Física: esporte, jogos, ginástica, lutas e danças

Educação Física = PDF DOWNLOAD

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este livro é público – está autorizada a sua reprodução total ou parcial.

 

 

 

Governo do Estado do Paraná

Roberto Requião

 

Secretaria de Estado da Educação

Mauricio Requião de Mello e Silva

 

Diretoria Geral

Ricardo Fernandes Bezerra

 

Superintendência da Educação

Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde

 

Departamento de Ensino Médio

Mary Lane Hutner

 

Coordenação do Livro Didático Público

Jairo Marçal

 

 

 

Depósito legal na Fundação Biblioteca Nacional, conforme Decreto Federal n.1825/1907, de 20 de Dezembro de 1907.

 

É permitida a reprodução total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO

Avenida Água Verde, 2140 – Telefone: (0XX) 41 3340-1500 e-mail: [email protected]

80240-900 CURITIBA – PARANÁ

 

 

Catalogação no Centro de Editoração, Documentação e Informação Técnica da SEED-PR

 

 

 

 

2ª. Edição IMPRESSO NO BRASIL

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

 

 

 

Autores

Claudia Sueli Litz Fugikawa Cristiane Pereira Brito Fabiano Antonio dos Santos Felipe Sobczynski Gonçalves Gilson José Caetano

Mauro José Guasti Neusa Maria Domingues Rita de Cássia Wielewski Sergio Rodrigues da Silva Rodrigo Tramutolo Navarro

Mario Cerdeira Fidalgo Cíntia Müller Angulski

Equipe técnico-pedagógica Claudia Sueli Litz Fugikawa Cristiane Pereira Brito

Fabiano Antonio dos Santos Felipe Sobczynski Gonçalves Rodrigo Tramutolo Navarro Mario Cerdeira Fidalgo Cíntia Müller Angulski

Assessora do Departamento de Ensino Médio

Agnes Cordeiro de Carvalho

Coordenadora Administrativa do Livro Didático Público

Edna Amancio de Souza

Equipe Administrativa

Mariema Ribeiro Sueli Tereza Szymanek

Técnicos Administrativos Alexandre Oliveira Cristovam Viviane Machado

Consultor

Alexandre França Salomão – UNICENP

Leitura Crítica

Alda Lúcia Pirolo

Consultor de direitos autorais

Alex Sander Hostyn Branchier

Revisão Textual

Renata de Oliveira

Projeto Gráfico e Capa

Eder Lima / Ícone Audiovisual Ltda

Editoração Eletrônica

Ícone Audiovisual Ltda

2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

z Carta do Secretário

Este Livro Didático Público chega às escolas da rede como resultado do trabalho coletivo de nossos educadores. Foi elaborado para atender à carência histórica de material didático no Ensino Médio, como uma iniciativa sem precedentes de valorização da prática pedagógica e dos saberes da professora e do professor, para criar um livro público, acessível, uma fonte densa e credenciada de acesso ao conhecimento.

 

A motivação dominante dessa experiência democrática teve origem na leitura justa das necessidades e anseios de nossos estudantes. Caminhamos fortalecidos pelo compromisso com a qualidade da educação pública e pelo reconhecimento do direito fundamental de todos os cidadãos de acesso à cultura, à informação e ao conhecimento.

 

Nesta caminhada, aprendemos e ensinamos que o livro didático não é mercadoria e o conhecimento produzido pela humanidade não pode ser apropriado particularmente, mediante exibição  de  títulos  privados,  leis de papel mal-escritas, feitas para proteger os vendilhões de um mercado editorial absurdamente concentrado e elitista.

 

Desafiados a abrir uma trilha própria para o estudo e a pesquisa, entregamos a vocês, professores e estudantes do Paraná, este material de ensino-aprendizagem, para suas consultas, reflexões e formação contínua. Comemoramos com vocês esta feliz e acertada realização, propondo, com este Livro Didático Público, a socialização do conhecimento e dos saberes.

 

Apropriem-se deste livro público, transformem e multipliquem as suas leituras.

 

 

Mauricio Requião de Mello e Silva

Secretário de Estado da Educação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

z Aos Estudantes

Agir no sentido mais geral do termo significa tomar ini- ciativa, iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. Por constituírem um initium, por serem recém-chegados e ini- ciadores, em virtude do fato de terem nascido, os homens tomam iniciativa, são impelidos a agir. (…) O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar de- le o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável. E isto, por sua vez, só é possível porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo. Desse alguém que é singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele não havia ninguém. Se a ação, como início, corresponde ao fa- to do nascimento, se é a efetivação da condição humana da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distinção e é a efetivação da condição humana da pluralidade, isto é, do viver como ser distinto e singular entre iguais.

 

Hannah Arendt

A condição humana

 

 

 

Este é o seu livro didático público. Ele participará de sua trajetória pelo Ensino Médio e deverá ser um importante recurso para a sua formação.

 

Se fosse apenas um simples livro já seria valioso, pois, os livros re- gistram e perpetuam nossas conquistas, conhecimentos, descobertas, so- nhos. Os livros, documentam as mudanças históricas, são arquivos dos acertos e dos erros, materializam palavras em textos que exprimem, questionam e projetam a própria humanidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas este é um livro didático e isto o caracteriza como um livro de en- sinar e aprender. Pelo menos esta é a idéia mais comum que se tem a res- peito de um livro didático. Porém, este livro é diferente. Ele foi escrito a partir de um conceito inovador de ensinar e de aprender. Com ele, como apoio didático, seu professor e você farão muito mais do que “seguir o li- vro”. Vocês ultrapassarão o livro. Serão convidados a interagir com ele e desafiados a estudar além do que ele traz em suas páginas.

 

Neste livro há uma preocupação em escrever textos que valorizem o conhecimento científico, filosófico e artístico, bem como a dimensão his- tórica das disciplinas de maneira contextualizada, ou seja, numa lingua- gem que aproxime esses saberes da sua realidade. É um livro diferente porque não tem a pretensão de esgotar conteúdos, mas discutir a realida- de em diferentes perspectivas de análise;   não quer apresentar dogmas, mas questionar para  compreender. Além disso, os conteúdos abordados são alguns recortes possíveis dos conteúdos mais amplos que estruturam e identificam as disciplinas escolares. O conjunto desses elementos que constituem o processo de escrita  deste livro denomina cada um dos tex- tos que o compõem de “Folhas”.

 

Em cada Folhas vocês, estudantes, e seus professores poderão cons- truir, reconstruir e atualizar conhecimentos das disciplinas e, nas veredas das outras disciplinas, entender melhor os conteúdos sobre os quais se debruçam em cada momento do aprendizado. Essa relação entre as dis- ciplinas, que está em aprimoramento, assim como deve ser todo o pro- cesso de conhecimento, mostra que os saberes específicos de cada uma delas se aproximam, e navegam por todas, ainda que com concepções e recortes diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro aspecto diferenciador deste livro é a presença, ao longo do tex- to, de atividades que configuram a construção do conhecimento por meio do diálogo e da pesquisa, rompendo com a tradição de separar o espaço de aprendizado do espaço de fixação que, aliás, raramente é um espaço de discussão, pois, estando separado do discurso, desarticula o pensamento.

 

Este livro também é diferente porque seu processo de elaboração e distribuição foi concretizado integralmente na esfera pública: os Folhas que o compõem foram escritos por professores da rede estadual de en- sino, que trabalharam em interação constante com os professores do De- partamento de Ensino Médio, que também escreveram Folhas para o li- vro, e com a consultoria dos professores da rede de ensino superior que acreditaram nesse projeto.

 

Agora o livro está pronto. Você o tem nas mãos e ele é prova do valor e da capacidade de realização de uma política comprometida com o pú- blico. Use-o com intensidade, participe, procure respostas e arrisque-se a elaborar novas perguntas.

 

A qualidade de sua formação começa aí, na sua sala de aula, no traba- lho coletivo que envolve você, seus colegas e seus professores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sumário

 

 

Apresentação…………………………………… 10

Conteúdo Estruturante: Esporte

Introdução………………………………………. 12

  • O futebol para além das quatro linhas……………….. 17
  • A relação entre a televisão e o voleibol

no estabelecimento de suas regras…………………… 33

  • Eu faço esporte ou sou usado pelo esporte?…………. 49

Conteúdo Estruturante: Jogos

Introdução………………………………………. 60

  • Competir ou cooperar: eis a questão…………………… 65
  • O jogo é jogado e a cidadania é negada………………. 79

 

 

 

 

Conteúdo Estruturante: Ginástica

Introdução…………………………………………………… 90

  • O circo como componente da ginástica     93
  • Ginástica: um modelo antigo com roupagem nova?

Ou uma nova maneira de aprisionar os corpos?…………………………………………………… 111

  • Saúde é o que interessa? O resto não tem pressa!     127
  • Os segredos do corpo     141

Conteúdo Estruturante: Lutas

Introdução…………………………………………………… 154

  • Capoeira: jogo, luta ou dança?     157
  • Judô: a prática do caminho suave     171

Conteúdo Estruturante: Dança

Introdução…………………………………………………… 186

  • Quem dança seus      191
  • Influência da Mídia sobre o Corpo do Adolescente     213
  • Hip Hop – movimento de resistência ou de consumo?     227

 

 

 

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Apresentação

Para a Educação Física, este livro didático tem dupla importância:

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primeiro, por constituir-se em um material produzido por professores da rede pública de ensino e distribuído gratuitamente; segundo, por representar um momento histórico para a disciplina, pois, pela primei- ra vez, um livro didático subsidia a prática docente, trazendo reflexões sobre diversos assuntos que constituem o corpo teórico-prático desta área de conhecimento.

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Refletir sobre as práticas corporais significa buscar a superação de uma visão que vinculou, por muito tempo, a Educação Física a uma perspectiva tecnicista voltada para o desenvolvimento de aptidões físi- cas, o que priorizou, historicamente, na escola, a simples execução de exercícios físicos destituídos de uma reflexão sobre o fazer corporal.

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O Livro Didático Público de Educação Física tem por objetivo prin- cipal desenvolver uma abordagem histórica de como, por que e a par- tir de que interesses o conhecimento que compõe o campo de estudos desta disciplina foi produzido e validado. Os Folhas presentes no livro propõem a desnaturalização das práticas que compõem o desenvolvi- mento teórico-prático do ensino da Educação Física na escola.

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Ao analisarmos a constituição histórica da Cultura Corporal – funda- mento dos estudos e do ensino da Educação Física escolar – compre- endemos que suas raízes estão na relação homem-natureza, na ação humana de transformar a natureza para retirar dela sua subsistência. As primeiras ações humanas sobre a natureza constituiriam as sociedades e seus diferentes modos de produção. A relação homem-natureza pos- sibilitou a constituição da materialidade corpórea humana.

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Não nascemos pulando, saltando ou até mesmo manuseando obje- tos (ESCOBAR, 1995), mas fomos nos adequando às necessidades que o meio impunha. Para uma criança que acaba de nascer é impossível andar, pois sua constituição corporal não lhe permite realizar tal movimento. Esta mesma criança dará seus primeiros passos somente quando sua materialidade corpórea estiver preparada, impulsionada pelas necessi- dades que o meio imprimir, seja para alcançar um objeto fora do seu alcance ou para locomover-se até determinado local de seu interesse.

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No trabalho pedagógico, o ensino da constituição histórica da ma- terialidade corporal está organizado pelos fundamentos teóricos da Cultura Corporal e pelos Conteúdos Estruturantes – Jogos, Esportes, Danças, Lutas e Ginástica – que, tradicionalmente, compõem os cur- rículos escolares da Educação Física e identificam a disciplina como campo do conhecimento.

 

 

 

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Os Conteúdos Estruturantes possibilitam a abordagem pedagógica das diversas manifestações corporais que foram se constituindo ao lon- go do desenvolvimento histórico da humanidade.

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As discussões e as práticas fundamentadas na Cultura Corporal pos- sibilitam a problematização de questões importantes para o desen- volvimento crítico do aluno e a desnaturalização de alguns conceitos como, por exemplo, o de que a competitividade individualista, dos tempos atuais, é inata ao ser humano.

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O ser humano é entendido, aqui, como social, histórico, inacabado e, portanto, em constante transformação. Essa compreensão exige da Educação Física uma abordagem teórica que contextualize as práticas corporais, relacionando-as aos interesses políticos, econômicos, sociais e culturais que as constituíram.

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Na sociedade capitalista, as práticas corporais têm a função de pre- parar o futuro trabalhador para o mercado de trabalho. Assim, a com- petição e superação de dificuldades baseiam-se no princípio da indivi- dualidade. A organização coletiva e solidária é relegada a um segundo plano.

A Cultura Corporal, como fundamento para o estudo e o ensino da Educação Física, possibilita a análise crítica das mais diversas práticas corporais, não restringindo o conhecimento da disciplina somente aos aspectos técnicos e táticos dos Conteúdos Estruturantes.

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Assim, julgamos necessário que você conheça os conteúdos estru- turantes apresentados neste livro, considerando seus  aspectos  técni- cos, táticos, históricos, sociais, políticos, culturais, possibilitando uma compreensão mais ampla e crítica das práticas corporais propostas pe- la Educação Física. O Livro Didático Público de Educação Física con- fere um grande desafio, a saber: construir possibilidades diversas de análise e (re)criação das práticas corporais, por meio das variadas ma- nifestações da Cultura Corporal, aprofundando a reflexão crítica dos alunos acerca dos conhecimentos próprios desta disciplina escolar.

 

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z Esporte

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Falar sobre o esporte, enquanto manifestação da Cultura Corporal, sig-

nifica discutir o que este Conteúdo Estruturante foi, desde sua origem

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histórica até a atualidade. Esta abordagem permitirá reflexões sobre as possibilidades de recriar o conceito de esporte, por meio de uma in- tervenção consciente.

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No início do século XIX, o desenvolvimento da sociedade capitalista tornava cada vez mais profunda a divisão do trabalho – funções bra- çais, ligadas ao esforço físico e atividades intelectuais, ligadas ao inte- lecto. Essa divisão separava as pessoas em classes sociais, ou seja, clas- se dirigente/elite e trabalhadores.

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Configurou-se um quadro em que a separação entre elite (econômica, política e intelectual) e trabalhadores se refletia nos costumes e formas de viver de ambas as classes. As classes sociais realizavam atividades que as distinguiam entre si, e uma dessas atividades era o esporte.

 

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Os objetivos e significados da prática esportiva eram diferentes para cada classe social. Para a elite, o esporte distraía seus filhos, que ocu- pavam o tempo somente com o estudo. Para a classe trabalhadora, os chamados jogos populares estavam ligados às suas raízes culturais. A elite considerava vulgar o esporte realizado pelos trabalhadores, por essa razão, impôs outra forma de prática esportiva mais adequada aos costumes criados e valorizados pela elite.

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Você pode se imaginar vivendo naquela época? Tudo ainda era novo, as grandes indústrias estavam crescendo virtuosamente, e com tal cres- cimento havia também uma maior evidência das desigualdades que se instauravam. Essas desigualdades se evidenciavam e eram, potencial- mente, fontes de revoltas, resistências e manifestações político-econô- micas, ou seja, fontes de desestabilização da ordem vigente.

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A padronização das práticas esportivas e o estabelecimento de suas re- gras de maneira rígida, sem possibilidades de qualquer contestação e/ ou reflexão, contribuíam para a desmobilização de resistências, para o desenvolvimento da idéia de que questionar e quebrar regras são ati- tudes que impedem a organização e estabilidade social. Utilizou-se o esporte como estratégia educativa para o ocultamento e/ou mascara- mento das lutas sociais.

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A difusão mundial da prática desportiva, porém, não foi imediata. A di- mensão social alcançada pelo esporte, atualmente, contou com impor- tantes fatores, tais como: o surgimento de novas escolas para a classe média e redução da jornada de trabalho; formação de clubes esporti- vos; esporte como fator de contenção da classe trabalhadora; os jogos olímpicos como expressão máxima do fenômeno esportivo (ASSIS, 2001).

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Diante desta breve abordagem histórica, pode-se questionar: será que o esporte atual ainda está vinculado aos interesses da classe que o constituiu? Como identificar os vínculos políticos e sociais da prática esportiva na sua escola ou na sua comunidade? Essas perguntas não possuem respostas imediatas e serão debatidas ao longo deste livro.

Certamente você já deve ter assistido, na televisão, a uma partida de

qualquer modalidade esportiva. O que está contido nessa forma de la-                                                                                                                                   I

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zer, além da sua diversão? Se analisarmos o contexto social em que vi-

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vemos e seus meios de comunicação, não será difícil observarmos que o esporte se transformou em mercadoria, sendo divulgado por meio da espetacularização. Mas, que objetivo tem a espetacularização esporti- va? Sobre essa questão, veja o Folhas: “A relação entre a televisão e o voleibol no estabelecimento de suas regras.” Outra questão importan- te: o esporte foi utilizado de forma ideológica no Brasil? Sobre a possí- vel utilização do esporte como instrumento ideológico, veja o Folhas: “O futebol para além das quatro linhas”.

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A inserção da prática esportiva nas escolas e a sua legitimação, en- quanto manifestação cultural e educacional, estão ligadas ao desenvol- vimento político e econômico da sociedade. No entanto, a abordagem pedagógica do esporte não reelaborou os preceitos e objetivos que de- ram origem ao fenômeno esportivo, o que trouxe sérias implicações para o contexto escolar.

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Quantos jogadores de alto rendimento existem no nosso país? Essa per- gunta pode levar você a outro questionamento relacionado ao acesso à prática desportiva na sua escola. Será que os alunos que não domi- nam perfeitamente a técnica para praticarem uma modalidade espor- tiva têm a oportunidade de participar ativamente das aulas de Educa- ção Física? Não seria a prática esportiva escolar, tal qual se apresenta atualmente, uma forma de exclusão, igual a que se vincula ao espor- te de alto rendimento?

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A partir destas questões, você deve se perguntar sobre possibilidades de modificar as formas de atuação e vinculação do esporte no interior

 

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da escola. Seria possível pensar formas de recriar determinadas mo- dalidades, sob aspectos ligados à competição, cooperação, prazer em jogar, sem considerar a técnica como fator decisivo? Algumas das res- postas para essa última questão você poderá encontrar no Folhas inti- tulado “Eu faço uso do esporte, ou sou usado pelo esporte?”.

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Você já pensou como seria jogar com todos os colegas, sem excluir aqueles que não tiveram a mesma oportunidade de praticar uma mo- dalidade? É realmente necessário jogar contra o seu colega? Não seria interessante que você jogasse com ele, respeitando as limitações e pos- sibilidades de cada um?

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Todas essas alternativas compõem uma nova forma de pensar o espor- te, que não descarta a idéia de competição, mas tem como fundamento o prazer, sem vinculação à lógica do individualismo egoísta e exacer- bado, sem que você seja usado pelo esporte como forma de adequa- ção às normas e regras sociais estabelecidas.

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É com esse objetivo que o convidamos a mergulhar no mundo espor- tivo, jogando, tanto na teoria como na prática, o esporte da escola, aquele realizado para você, para suas necessidades, para que você se divirta juntamente com sua turma, recriando outras formas de praticar e discutir o esporte, sem a estereotipação de movimentos, tampouco ideologias tidas como verdadeiras.

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Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16     Esporte

 

Educação Física

 

 

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O FUTEBOL PARA ALÉM DAS QUATRO LINHAS

  • Fabiano Antonio dos Santos1, Rita de Cássia2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Padre João Wilinski. Curitiba – PR

2Lindaura R. Lucas – São José dos Pinhais – PR

Procure imaginar a situação: você está sen- tado na platéia para assistir a uma apre- sentação em sua escola. Certamente não há a preocupação, de sua parte, sobre o que possa estar ocorrendo por trás das cortinas fechadas, prontas para serem abertas e re- velarem as mais diversas possibilidades e sensações. Até porque você foi ao espetá- culo na condição de espectador, e como tal, seu interesse estava nas sensações propor- cionadas, sejam elas de satisfação, alegria, tristeza, indignação. E se o futebol  fosse esta apresentação e você tivesse a oportu- nidade de olhar por trás das cortinas, o que lhe chamaria a atenção? O que enxergaria? Com certeza, coisas que o deixariam intri- gado, curioso, ou até decepcionado.

 

O futebol para além das quatro linhas                      17

 

 

 

O que poderemos descobrir se olharmos por trás da cortina de um espetáculo de futebol? O aluno cauteloso ao olhar diria: o futebol é um jogo, um esporte e não possui cortinas para olhar-se por trás. Outro aluno, mais audacioso, poderia ainda responder: eu sei o que acontece por trás, até porque, eu vivo no “país do futebol”, nasci com esta mani- festação corporal impregnada em mim. E você, o que responderia?

O futebol alcança importância gigantesca em nosso país, a ponto de se afirmar ser este o país do futebol. Por isso, você está convidado a espiar, através da cortina, e descobrir os ensaios e ajustes desta apre- sentação, bem como, aprofundar seus conhecimentos sobre o que po- de vir a ser o futebol, para além das quatro linhas que circunscrevem o campo de jogo.

 

z Fecharam-se as cortinas! Vamos “espiar”?

 

As sensações em assistir a um jogo de futebol são as mais variadas possíveis: raiva, apreensão, sofrimento, alegria. Tudo depende do de-

sencadeamento dos fatos ao lon- go da partida, depende do de- sempenho de seu time, depende da perspectiva com que se assiste a um jogo. Para alguns, a derrota de seu time é motivo de insatis- fação, brigas, verdadeiras guer- ras. Outras pessoas, ao assistirem ao jogo do time do coração, sa- em felizes, respeitam os torcedo- res adversários, sentem satisfação independente do que possa vir acontecer ao longo da disputa.

Um jogo de futebol pode re- servar lances mágicos, seguidos

 

de encantamento, próprios do futebol. Pelé, Garrincha, Ronaldo e Ro- naldinho Gaúcho, todos jogadores espetaculares, que saíram da misé- ria, e talvez da criminalidade, para ganharem o mundo, com um fute- bol de encher nossos olhos, e conquistarem milhões de fãs pelos clubes que passaram.

 

“Há um jogo que se passa no campo, jogado pelos jogadores como atividade profissional e esporti- va. Há um outro jogo que se passa na vida real, jogado pela população brasileira, na sua constante bus- ca de mudança para seu destino. E um terceiro jogo jogado no “outro mundo”, onde entidades são cha- madas para influenciar no evento e, assim fazendo, promover transformações nas diferentes posições sociais envolvidas no evento esportivo. Tudo isso revela como uma dada instituição, no caso o Football Association, inventado pelos ingleses, pode ser diferencialmente apropriada.” (DAMATTA 1982, p.107).

 

Bem, mas você deve estar cansado de saber que existem brigas, que o futebol é um espetáculo muito raro aos nossos olhos, que existem jo- gadores muito bem pagos e que saíram da mais completa miséria.

O que pretendemos aqui é fazê-lo pensar um pouco sobre tudo que acabamos de falar, de uma forma diferente daquela que está acos- tumado a ver e a ouvir. Convidamos você a assistir ao espetáculo do futebol atrás das cortinas, a espiar algumas supostas verdades e a des- construir muitas outras, oportunizando uma viagem aos camarotes do mundo da bola.

Iniciamos apresentando um pouco do que alguns estudiosos têm escrito e pensado sobre este esporte, jogo, espetáculo; para discutir- mos onde se passa o jogo – na vida ou no campo – e como nos são retransmitidas estas disputas.

 

z Futebol, ópio do povo: A ideologia das massas

 

“Esporte é Saúde”, “Esporte é Energia”, Esporte é Integração Nacional”. Tudo verdade e tudo men- tira. (…) Claro que o esporte ajuda a integração nacional, mas a atenção demasiada aos pés do joga- dor e do couro da vaca dá desintegração nacional, pois o homem se aposenta de ser consciente e li- vre (…)”. (NADAL, 1978).

O autor da citação acima está falando de que tipo de consciência? Será que da consciência social, aquela que diferencia o homem de um animal? O que significa ter consciência? Como é formada nossa cons- ciência?

É a partir desta última pergunta que iniciaremos nossa discussão so- bre o futebol como ópio do povo. Ópio é um analgésico muito poten- te, e faz nosso cérebro funcionar mais devagar. Disto é possível supor o porquê da expressão que relaciona o futebol a uma espécie de con- taminação da consciência crítica do ser humano.

A consciência é formada a partir de inúmeras questões de ordem política, econômica e ideológica, que assumem importância em deter-

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Karl Marx (1818-1883).

minados períodos históricos na conformação ou efervescência da po- pulação. A ideologia, conceito do qual tanto ouvimos falar, tem, na maioria das vezes, seu real significado pouco discutido. Você já deve ter ouvido falar que cada um tem uma ideologia, ou que devemos ter nossas próprias ideologias. Será que ideologia é, então, a mesma coi- sa que ideais a serem alcançados por cada um de nós?

Karl Marx (1818-1883), importante pensador na história da humani- dade, conceituou ideologia a partir da dinâmica da luta de classes. Ou seja, para ele, a ideologia está colocada na luta entre aqueles que do- minam e aqueles que são dominados. Veja um trecho que Marx escre- veu sobre ideologia:

Assim, os dominantes apresentam suas idéias como únicas válidas e verdadeiras e perseguem, excluem ou exterminam aqueles que as con- testam. A ditadura militar vivida pelo Brasil, entre os anos 60 e 80 do século XX, é um bom exemplo disso. Você já ouviu falar das torturas aplicadas àqueles que não “seguiam a ordem” estabelecida, ou contes- tavam o governo? Do exílio de autoridades e pessoas comuns que fu- giam do país para não serem mortas, permitindo que o governo auto- ritário mantivesse a sua “ordem”? Enfim, nossa história está repleta de acontecimentos em que a ideologia das classes dominantes era impos- ta como doutrina, impossível de ser contestada.

Mas como a ideologia pode ser transmitida à população? Por meio de vários canais, tais como: a mídia televisiva, os jornais, revistas, dis- cursos, ou até mesmo as leis de censura próprias dos governos autori- tários, como foi o caso do Brasil no período do regime militar.

Os defensores do futebol, como ópio do povo, entendiam este es- porte como uma das possibilidades de veiculação ideológica do pen- samento da classe dominante.

 

 

 

 

Na década de 70, para neutralizar a oposição ao regime, o governo fez uso de vários instrumentos de coerção. Da censura aos meios de comunicação, às manifestações artísticas, às prisões, torturas, assassi- natos, cassação de mandatos, banimento do país e aposentadorias for- çadas, espalhou-se o medo e a violência. Os setores organizados da sociedade passaram a viver sob um clima de terrorismo, principalmen- te após o fechamento do Congresso Nacional, em 1966.

Para amenizar essas crises, o governo do presidente Médici (1969- 1974) lançou mão do futebol como possibilidade de desviar a aten- ção da população dos conflitos políticos da época. O objetivo era que, ao invés das pessoas saírem às ruas para participar de manifestações políticas, ficariam em suas casas torcendo pela seleção brasileira nu- ma “corrente pra frente”, como diz a música de Miguel Gustavo, “Pra frente Brasil”. O governo militar utilizou-se da vitória da seleção, no mundial de 1970, para desviar a atenção da crise econômica, dos pro- blemas sociais e políticos e, principalmente, das atitudes autoritárias relacionadas às torturas, perseguições e mortes, freqüentes naquele período triste de nossa história.

Mais recentemente, em 2004, a visita do fute- bol brasileiro ao Haiti foi o evento que voltou a vincular, ostensivamente, o futebol à função de “ópio do povo”. Muito se falou na mídia a respei- to desta visita. Você se lembra das notícias que cir- cularam nesta época?

Procurando realizar nosso exercício, aquele de “espiar” o que estaria escondido atrás das corti- nas deste episódio, acompanhemos uma reporta- gem apresentada ao jornal Folha de São Paulo, re- alizada em função da visita da seleção brasileira ao Haiti.

 

 

 

 

 

 

temerosa que o 1,5 milhão de escravos do país se inspirasse nos haitianos. “Haitianismo” virou nome de crime e pesadelo no Brasil. Os dois séculos de lá até aqui não parecem ter mudado essencialmen- te essa relação.

No documentário, a seleção brasileira aparece como representante do que há de mais significativo da cultura nacional, coisa capaz de enlouquecer os países por onde passa, sobretudo os mais pobres. Na véspera do amistoso contra o Haiti, soldados brasileiros distribuíram nas ruas camisetas amarelas, disputadas como se fossem sacos de comida. Um jornalista haitiano sugere que esse é o autêntico “soft power”, isto é, o poder de conquistar corações e mentes por meios persuasivos.

Mas os astros dessa poderosa trupe são endinheirados exilados na fria Europa, e seu traço negro é só uma pálida lembrança dos 400 anos de escravidão no Brasil. Em cima de carros blindados da ONU, desfilaram pelas ruas de Porto Príncipe como imperadores em meio a uma inacreditável multidão de mi- seráveis súditos que se empilharam para ter o privilégio de ver seus deuses por uma fração de segun- do, se tanto.

A seleção, símbolo de um Brasil cuja identidade foi construída no passado recente em cima da len- da da democracia racial, manteve um prudente distanciamento dessa massa negra informe. Sob forte proteção, o time chegou, entrou em campo, goleou e foi embora, sem maior envolvimento, o que cau- sou uma mal disfarçada frustração entre os haitianos.

O comando militar brasileiro alegou que a visita da seleção foi rápida para evitar tumultos que po- deriam converter-se em violência. Mas, no limite, talvez tenha sido medo de contaminação, o velho pa- vor da elite brasileira.

Ao final do documentário, o que se impõe não é a força do futebol nem o acerto da iniciativa brasi- leira, e sim uma incômoda pergunta: quanto falta para sermos o Haiti?

 

Nota: O documentário que trata a matéria é dirigido por Caíto Ortiz e João Dornelas, e denomina-se “O Dia em que o Brasil Esteve Aqui”.

 

 

Tanto em 1970 como em 2004, o futebol funcionou como válvu- la de escape para os problemas sociais, ora para o povo brasileiro, de maneira direta; ora indiretamente para o povo haitiano. O interesse do governo Médici e do governo haitiano, nestes dois eventos, foi distrair a população, “aliviar” conseqüências da instabilidade política do país em questão com o uso do papel simbólico que o futebol assumiu his- toricamente.

 

z Futebol: a formação da identidade nacional

A nossa discussão a respeito do futebol apresentará, também, o

pensamento de outro autor, para quem esse esporte é manifestação da cultura do povo e constituidor da identidade da nação brasileira.

Você deve pensar: como um esporte, ou jogo, pode se constituir num objeto que identifica uma nação? Identidade estranha quando se pensa em um esporte que veio de fora do país e hoje anunciamos aos quatro cantos, como se fosse nossa invenção.

 

 

 

Segundo o antropólogo Roberto DaMatta,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É necessário pensar o futebol como algo ainda mais complexo e poderoso do que um instrumento de ideologia das massas e do mer- cado. Propomos pensá-lo como possibilidade de desenvolver formas solidárias e cooperativas de organização da sociedade. Neste sentido, o futebol seria um esporte, uma prática corporal capaz de fazer refletir sobre diferentes maneiras de organização política e social.

Nesta perspectiva, o futebol organizado nas ruas, pelas comunida- des locais, pode se tornar a vitrine de nossa identidade nacional. Esses times que se constituem nas relações sociais democráticas e solidárias, que objetivam a diversão e a integração da comunidade, surgem como exemplos de possíveis organizações políticas alternativas.

O futebol de várzea, de pelada, aquele que você organiza na sua comunidade, na sua rua, cumpre um papel importante na caminhada rumo à superação de dificuldades e, principalmente, da personaliza- ção singular do brasileiro como povo característico e criador de uma cultura própria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • CÂNDIDO Futebol, 1935. Óleo sobre tela, 97 x 130 cm. Coleção particular.

 

 

Quando nos colocamos como atores deste espetáculo, muitos pro- blemas podem surgir, principalmente, se você analisar qual o grande público que participa dos jogos organizados nas ruas. Os homens ain- da representam a maioria dos praticantes de futebol, embora isso ve- nha mudando com uma freqüência cada vez maior. As mulheres têm conquistado seus espaços, o que pode demonstrar o que dissemos an- teriormente, sobre a importância do futebol na discussão de proble- mas sociais. Nunca é demais lembrá-lo que o futebol deve ser pratica- do por toda a turma, e isso inclui todos e todas, meninos e meninas, sem distinção.

Vamos tentar organizar algumas atividades que propiciem a vivên- cia do futebol praticado na rua, no qual você é o protagonista e, assim sendo, responsável por discutir e solucionar os problemas que pos- sam surgir.

DEBATE

 

 

  1. Elabore com a turma um júri Dividam-se em duas equipes, elejam 5 pessoas que compo- rão o júri. Cada uma das equipes fará a defesa das duas visões apresentadas anteriormente sobre o futebol, isto é, ópio e identidade nacional. É importante que o júri não julgue quem será o vence- dor, mas sim, quais foram os melhores argumentos de uma equipe, bem como da outra.

 

 

 

z Futebol: “Um negócio da China”

 

Agora que você conhece um pouco mais sobre as possibilidades de compreensão do futebol, vamos problematizar algumas questões, prin-

 

 

cipalmente no que se refere à importância desta prática corporal, no cenário social e esportivo, bem como no desenvolvimento dos negó- cios de maneira em geral.

O cenário esportivo e dos negócios andam juntos, constituem o ce- nário nacional? Acompanhe-nos em mais esta “espiadinha”!

O futebol, tanto como prática de lazer quanto prática esportiva de alto rendimento, tem sofrido um processo de mercadorização em nossa sociedade.

A venda dos direitos de imagem dos jogadores ou o uso e venda das  marcas  de  patrocinadores, bem como a venda dos direitos de transmissões de jogos pela TV e, até mesmo, a venda de jogadores em altas transações formam um complexo  e  ren- doso mercado (AZEVEDO e REBELO, 2001).

Você sabe o que significa mercado? Deve ter ouvido, em telejornais, expressões como: “o mer- cado está nervoso”, ou ainda, “o mercado de ações caiu”. A palavra mercadoria é derivada de mercado.

O que ela significa? Se, vivemos numa sociedade produ- tora de mercadoria, o que o futebol tem a ver com es- sas terminologias?

 

z Vivemos numa sociedade que visa o lucro

 

Digamos que você está em um passeio e, porventura, lhe dá fome, você vai até sua mala e percebe que esqueceu o lanche que havia pre- parado para comer. Mas não pode esperar até chegar em casa, pois es- tá faminto e sai à procura de algum lugar que tenha algo para satisfa- zer sua fome. Chegando neste local, escolhe o alimento que deseja e se dirige ao caixa. Neste momento, é preciso pagar pela mercadoria que irá consumir. Mesmo que você não tenha esquecido o lanche que havia preparado, a procedência do mesmo pode ser da vendinha perto de sua casa e, portanto, também foi comprado. Ainda em nosso exer- cício de imaginação, agora você quer comprar uma bola, um rádio, ou algo que o agrade, que o distraia em momentos de lazer.

Pois bem, aqui gostaríamos de dialogar com você sobre nossa so- ciedade, a sociedade capitalista, e como as mercadorias assumem pa- pel central na produção de toda a riqueza existente. No futebol não é diferente. Como esporte espetáculo, suas mercadorias são vendidas aos torcedores e, entre elas, o jogador é uma mercadoria que pode es- tar à venda por um determinado preço.

A riqueza de nossa sociedade baseia-se na acumulação de capital e dos lucros obtidos pela venda das mercadorias – feitas pelas mãos dos trabalhadores.

 

 

Estas mercadorias são criadas para suprirem as necessidades huma- nas, sejam necessidades básicas ou necessidades criadas culturalmente.

A mercadoria possui dois valores: o de uso e o de troca. O valor de uso diz respeito a sua utilidade, ou seja, a partir da necessidade é que se produz determinada mercadoria. Digamos que você necessita de roupa, então o produto “roupa” é criado para atender a sua necessidade, pa- ra que não passe frio em dias gelados, para que possa vestir roupas le- ves em dias quentes. O valor de troca da mercadoria serve para cumprir a necessidade da sociedade capitalista de acumular riqueza, aumentan- do o poço das desigualdades sociais entre ricos e pobres, grandes e pe- quenos consumidores. Essas desigualdades assolam, inclusive, o meio futebolístico.

Assim como na sociedade, no futebol as desigualdades são enormes. Há jogadores cujo salário é superior a 5 milhões de reais por mês, co- mo é o caso de Ronaldinho Gaúcho, enquanto outros ganham o salário mínimo em pequenos times sem nenhuma expressão, nem mesmo lo- cal ou regional.

Os miseráveis do futebol também engordam as estatísticas do mun- do da bola, as desigualdades e a injustiça são generalizadas, tanto no fu- tebol, quanto na sociedade.

Em reportagem que retrata estas desigualdades sociais no mundo do futebol, bem como o processo transformação do futebol em mercado- ria, o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria em 29 de feverei- ro de 2000. Leia atentamente:

 

 

Com tanta riqueza por aí cadê sua fração?

Escrito por Sérgio Rangel

 

 

Com tanta riqueza por aí, cadê sua fração?

Enquanto a parcela que ganha até dois salários mínimos cresce, o grupo composto pelos milionários do esporte vem diminuindo a cada temporada

 

Ao mesmo tempo em que o futebol brasileiro recebe investimentos nunca antes vistos, com os prin- cipais clubes firmando parcerias com multinacionais milionárias, os jogadores do país estão cada vez mais pobres.

Segundo documentos oficiais do Departamento de Registro e Transferência da CBF (Confedera- ção Brasileira de Futebol) obtidos pela Folha, os ‘’boleiros ricos’’ integram uma parcela cada vez menor no futebol brasileiro.

De acordo com o levantamento, apenas 3,7% dos jogadores profissionais relacionados na entidade receberam mais de 20 salários mínimos no ano passado. Ou seja, 765 dos 20.496 jogadores registra- dos na CBF ganharam mais de R$ 2.720 mensais em 1999.

Em 1998, a porcentagem de jogadores que integravam a elite do futebol nacional era de 4,3 %.

 

 

Analisando as estatísticas dos últimos quatro anos, descobre-se que, enquanto o grupo que ganha até dois salários mínimos mostra uma tendência de crescimento, a parcela daqueles que recebem de duas a mais de 20 vezes esse valor apresenta inclinação contrária

Em 1996, 81% dos profissionais do país recebiam até dois salários mínimos, número que pulou pa- ra 84,8% no ano passado (crescimento de 4,7%).

Ocorre que a categoria dos miseráveis do futebol nacional foi engordada em 20% por atletas que, em 1996, estavam no grupo dos que ganhavam mais de dois salários mínimos (naquele ano, eles eram 19%, ao passo que hoje representam 14,7%).

O fenômeno contrasta com a injeção de dinheiro observada recentemente no futebol do país, es- pecialmente no ano passado.

Em 1999, o Flamengo firmou contrato com a ISL pelo qual receberá cerca de R$ 145 milhões em 15 anos (a maior parte para o futebol), enquanto o Corinthians fechou acordo com o HMTF recebendo aproximadamente R$ 55 milhões por dez anos.

Cruzeiro, Grêmio, Santos e Atlético-MG também acertaram recentemente parcerias milionárias com multinacionais.

A CBF fechou, em 1996, contrato com a Nike para receber US$ 160 milhões (cerca de R$ 285 mi- lhões) em dez anos.

O levantamento da pirâmide salarial do futebol brasileiro é feito anualmente pela CBF, com base na palavra dos clubes. Todos os contratos são registrados, obrigatoriamente, na entidade.

Mas a estatística tem distorções provocadas por clubes que não declaram o valor verdadeiro dos vencimentos. Muitos dirigentes obrigam os jogadores a assinar contratos no valor de um salário míni- mo, mas pagam por fora até R$ 1.000 – o conhecido “caixa dois” (contabilidade paralela para recolher menos imposto).

Mas como isso também ocorria em anos anteriores, os dados da CBF evidenciam o empobreci- mento dos jogadores e voltam a exibir o enorme fosso que separa a minoria rica da maioria pobre.

 

 

 

z Futebol brasileiro: Celeiro de craques, ou mão-de-obra barata?

 

Quem nunca viu seu time vender aquele jogador que era destaque? Quem nunca ficou enfurecido por esta venda acontecer bem no meio do campeonato?

O jogador é um trabalhador como outro qualquer e, como tal, ven- de sua força de trabalho em troca de salário. O clube, como um ótimo capitalista, vê nesta mercadoria a oportunidade de obter lucro com a possível venda para outra equipe. Assim, está armada a cena para mais uma “espiada”, a venda de jogadores, (mercadoria) que atuam no Bra- sil, para clubes internacionais.

O jogador, tratado como mercadoria por seu clube, vê, nesta trans- ferência, a oportunidade de “mudar sua vida”, ganhar um ótimo salá- rio e visibilidade mundial.

O preço destes jogadores-mercadorias brasileiros é baixo em rela- ção aos do mercado europeu, por uma série de fatores. Um deles é, sem dúvida, a péssima administração que cerca o esporte. O outro é a dificuldade financeira atravessada pelos clubes brasileiros. A crise eco- nômica, que assolou o Brasil, causa impacto, também, nas possibilida- des econômicas dos clubes. Estes não têm muitas escolhas, a não ser vender seu jogador a preços estipulados pelos clubes interessados.

Outro provável motivo, que pode ser  atribuído  ao  barateamento dos jogadores transferidos ao mercado internacional, diz respeito ao valor agregado à suposta profissionalização internacional.

Um exemplo pode ser a transferência do jogador Kaká, atuando na época pelo São Paulo Futebol Clube, para o clube italiano Milan. Ao transferir-se para a Itália, Kaká tratou logo de “ajustar” sua imagem, e vendê-la junto com seu produto. O futebol europeu, através das gran- des parcerias entre empresas interessadas em mostrar sua marca no ce- nário mundial, tem como forma de trabalho a vinculação de seus jo- gadores à imagem de uma profissionalização que rende aos clubes milhões de dólares, e agrega ao valor do jogador quantias bem maio- res que as pagas na compra de um jogador daqui do Brasil.

 

 

Nossos clubes não conseguem manter contratos milionários com as empresas mais ricas do mundo por um motivo muito claro, nossa po- pulação é pobre, temos milhões de problemas financeiros e, principal- mente, ninguém confiaria neste mercado, levando em conta o jogo ca- pitalista. As relações de mercado têm forçado os clubes brasileiros a se enquadrarem na lógica competitiva, da venda de mercadorias, assim como as demais estruturas da sociedade. Ficamos nós, torcedores (es- pectadores), “a ver navios”, com as mãos atadas pelo chamado mundo da bola, cada vez mais profissionalizado.

Finalizada nossa caminhada pelos bastidores do futebol, muitas questões ainda ficaram para “espiarmos”. Questões que não caberiam neste texto, ficando como tarefa a serem pensadas, posteriormente re- lacionando-as com as características da região onde você mora e, me- lhor que ninguém, saberá discuti-las e problematizá-las “dentro” e “fo- ra” das quatro linhas.

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

  1. Vamos vivenciar o que vimos até agora? Organize equipes com 8 pessoas: 5 serão jogadores, 1 se- rá o presidente ( a função do presidente é resolver a compra e venda de um jogador dependendo do dinheiro que tiver em caixa), 1 será olheiro (sua função é observar outros jogadores), e o outro o técnico (a função do técnico é dirigir o time nas partidas).

O objetivo com esta atividade é que possamos vivenciar como são processadas as vendas e trocas de jogadores, no mercado da bola profissional. Para tanto, você deverá instituir uma moeda corren- te para a transação.

Após um sorteio, cada equipe receberá quantias diferenciadas de dinheiro: uma equipe será a mais rica, enquanto haverá uma equipe com menos dinheiro, e outras intermediárias. O processo de es- colha das equipes será por sorteio, já o preço de cada jogador e jogadora será estipulado por con- venção de toda a turma.

Atenção: esta atividade trará para a aula algumas discussões importantes, principalmente quando começar a compra dos jogadores, já que poderão ocorrer exclusões. É importante que discutamos se isso deve ocorrer em sua aula de Educação Física, assim como ocorre no mundo profissional.

Discuta com a turma quantos “Ronaldos” nós temos? Ou Robinhos? Será que a aula de Educação Física não deve ser espaço para a diversificação, oportunidade de todos e todas jogarem, pratica- rem as manifestações da cultura corporal?

Dica: a venda ou troca de jogadores pode ocorrer ao final de cada aula, ou como a turma achar conveniente.

 

 

z Referências Bibliográficas:

AZEVEDO, C.; REBELO, A. A corrupção no futebol brasileiro. In: Revista Motrivivência. Florianópo- lis: Editora da UFSC, 2001.

DAMATTA, R. Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro. In: Universo do futebol: es- porte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

GALEANO, E. Futebol ao sol e à sombra. 3. ed. Porto Alegre: L&PM, 2004.

LUCENA, R.; PRONI, M. (orgs.). Da Matta: o futebol como drama e mitologia. In: Esporte e Socie- dade. Campinas: Autores Associados, 2002.

MARX, K. O Capital: Crítica da economia política. 18. ed. Trad. Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

MARX, K.; ENGELS, F. A Ideologia Alemã. 6. ed. Trad. José Carlos Bruni e Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Hucitech, 1987.

NADAL, T. de. Futebol alienação das massas. In: Revista mundo jovem, Porto Alegre, ano 16, no 107, março de 1978.

 

z Documentos consultados ONLINE

GUTERMAN, M. Futebol não afasta pavor do Haiti. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ folha/ilustrada/ult90u54863.shtml> Acesso em: 03 nov. 2005.

RANGEL, S. Com tanta riqueza por aí, cadê sua fração? Disponível em: <http://www1.folha.uol. com.br/fsp/esporte/fk2902200001.htm> Acesso em: 04 nov. 2005.

 

 

ANOTAÇÕES

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BRUEGEL, Pieter. Jogos infantis. Óleo sobre painel de madeira, 118 x 160,9 cm. 1560. Museu de História da Arte, Viena

32     Esporte

 

Educação Física

 

 

2

A RELAÇÃO ENTRE A TELEVISÃO E O VOLEIBOL NO ESTABELECIMENTO DE

SUAS REGRAS

  • Fabiano Antonio dos Santos1, Neusa Maria Domingues2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que antes era inimaginável, atualmente tornou-se reali- dade. Conversar com pessoas do outro lado do mundo, ir ao espaço, ou até mesmo voar são conquistas humanas que necessitaram de um grande acúmulo de conhecimentos ad- quiridos ao longo da história.

Quais seriam estas conquistas? Você poderia localizá-las na história? Quais destas conquistas tornaram-se amplamente divulgadas, e quais permaneceram inacessíveis à popula- ção em geral? De que forma este acúmulo de conhecimen- to contribui para o desenvolvimento  da  humanidade?  E, em que ela atravancou o desenvolvimento social do

ser humano? Onde a televisão entra neste processo de inovações? Em que ela auxilia e influencia a

 

1Colégio Estadual Padre João Wilinski. Curitiba – PR

2Colégio Estadual Soldado Constantino Marochi – Santa Cruz de Monte Castelo – PR

conduta cultural humana em suas práticas, especificamente, na do voleibol?

 

A relação entre a televisão e o voleibol no estabelecimento de suas regras                                                                   33

 

 

z O “boom” tecnológico

 

Não poderíamos deixar de comentar a importância que a tecnolo- gia apresentou para as melhorias das condições de vida no último sé- culo. Hobsbawm (1995) traz uma importante visão das transformações tecnológicas provindas do avanço da sociedade capitalista. Podemos enumerar algumas das vantagens que a tecnologia oferece para nós, que vivemos no século XXI: facilidade na comunicação, possibilida- de de dar a volta ao mundo em poucas horas, viver em conexão dire- ta com o mundo, recebendo informações instantâneas, enfim, seriam inúmeras as questões que poderíamos citar aqui como vantagens para nossas vidas atualmente.

O autor citado continua alertando para o avanço da tecnologia, principalmente a partir da primeira metade do século XX.

 

A “Era de Ouro” constitui um período que, segundo Hobsbawm, significou um avanço ligado ao atraso. Isso mesmo, duas coisas juntas, porém com intensidade e intenções diferenciadas. Logo após a Segun- da Guerra Mundial (1945), os Estados Unidos atravessavam um mo- mento fantástico em sua economia, tudo graças ao triunfo na guerra. Por outro lado, países europeus, muito arrasados, ou em franca deca- dência, tentavam se reerguer, principalmente, para se equiparar à eco- nomia norte americana. Configurou-se uma disputa intensificada nos dois anos seguintes, ao fim da 2ª Guerra Mundial, que apresentava duas potências confrontando-se em diferentes projetos de sociedade, antagônicos em suas finalidades sociais e políticas: Estados Unidos X União Soviética.

Os Estados Unidos tentavam conter o avanço econômico, militar e territorial do regime comunista adotado pela União Soviética e países de sua área de influência. O período compreendido entre 1945 e 1947 serviu como preparação para a Guerra Fria, ou seja, movimentos po- líticos e militares e produção de tecnologia de guerra foram utilizados para a contenção da expansão das áreas de influências de cada super- potência.

Uma questão importante, e que nos diz respeito mais especifica- mente, refere-se às formas de “competição” estabelecidas entre as du- as superpotências, e seus respectivos aliados. O esporte foi uma destas formas, figurando num importante elemento de disputa, na tentati-

 

 

va de superação de um país sobre o outro, principalmente nos jogos olímpicos.

A constante batalha, entre os países capitalistas e os chamados co- munistas, durou décadas, mas apesar de todas as conseqüências eco- nômicas, sociais e políticas da Guerra Fria, algumas inovações tecno- lógicas ocorreram e foram aprimoradas.

Com o fim da Guerra Fria e a expansão territorial do mundo capi- talista, o comércio reativou atividades e tornou-se um fator decisivo na distribuição e divulgação dos novos bens de consumo.

Como você já deve estar imaginando, em meio a todas essas ino- vações tecnológicas provenientes do período de disputas políticas e econômicas, os meios de comunicação tiveram papel decisivo, prin- cipalmente por cumprir a função de intermediários na divulgação de novos produtos, e na criação da idéia de consumo. Para que você te- nha uma idéia da grandeza do boom tecnológico, veja o Folhas “Nós da rede”, no Livro Didático Público de Geografia.

 

z Como as imagens de uma partida de voleibol chegam até nossas casas pela TV

 

A facilidade que os meios de comunicação têm para levar informação ao mundo é decorrente de grandes descobertas. Como é possível que vo- cê assista a uma partida de voleibol ao vivo, ocorra ela em qualquer parte do mundo? Sabe qual é o processo de transmissão das imagens?

As partidas de voleibol são transmitidas, via satélite, através das mi- cro-ondas que se propagam na camada ionosférica da atmosfera, onde os sinais transmitidos sofrem menos interferências. Os canais abertos, ou pagos de TV, usam antenas com comprimentos de onda da ordem de centímetros, sendo necessário, para a captação do sinal das micro- ondas, o formato de parábolas vindas de satélites artificiais.

Os satélites artificiais são equipamentos colocados, por meio de fo- guetes, em uma órbita elíptica, tendo, como um dos focos, o centro da Terra. Os primeiros satélites postos em órbita foram o Sputnik I (4 out. 1957) e o Sputnik II (3 nov. 1957), lançados pelos soviéticos, e segui- dos pelo Explorer I (31 jan. 1958), lançado pelos norte-americanos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os satélites são de grande importância para o mundo atual, sendo que somente os países desenvolvidos dominam a tecnologia de seus lançamentos. A maioria dos meios de comunicação utiliza os satélites como meio de propagação de sinais de rádio e televisão. As ondas ele- tromagnéticas são provenientes de uma estação geradora e lançadas para a órbita da terra, onde são recebidas por um satélite. Este, por sua vez, retransmite o sinal para uma segunda estação na terra, cha- mada receptora, muitas vezes, a milhares de quilômetros de distância da primeira.

Estas inovações tecnológicas contribuíram muito para o que alguns historiadores chamaram de uma nova era. A televisão, ao levar as ima- gens instantaneamente a grandes distâncias, combina com os interes- ses do modo de produção capitalista, baseado no lucro, no consumo e na acumulação de capital.

Mas você sabe o que são ondas magnéticas?

Em 1865, o físico escocês Maxwell (1831-1879), apresentou qua- tro equações, conhecidas como ”Equações de Maxwell”. Essas equa- ções produziam a unificação de tudo que era conhecido sobre eletri- cidade e óptica.

A partir dessas equações, Maxwell previu a existência das ondas eletromagnéticas, imaginando que elas combinavam tanto os campos elétricos como os campos magnéticos. Uma onda eletromagnética con- siste de duas ondas: uma elétrica e outra magnética. As duas ondas os- cilam perpendicularmente, uma em relação à outra, na mesma direção de propagação.

 

 

Experimente encher uma banheira ou uma bacia. Com a mão, em- purre a água para cima e para baixo. Da mesma maneira uma carga elétrica em movimento cria uma onda eletromagnética, conforme fi- gura abaixo:

 

No vácuo, todas as ondas eletromagnéticas têm a velocidade da luz, ou seja, 300 mil quilômetros por segundo.

As ondas eletromagnéticas são classificadas segundo a sua freqüên- cia e comprimento de onda em: ondas de rádio, microondas, infra vermelho, luz visível, raios ultra violetas, raios x e raios gama. Esse conjunto de ondas constitui o que chamamos de espetro de onda ele- tromagnética.

 

z Televisão: um meio de comunicação de massa

 

Ao referirmo-nos aos meios de comunicação de massa, é impor- tante saber que estamos tratando daquelas formas mais populares de divulgação das informações. A televisão, em especial, tornou-se um meio de comunicação de massa  a  partir  do  momento  que  o  domí- nio da nova tecnologia possibilitou à maioria das pessoas acesso aos aparelhos de TV.

 

 

A televisão é uma destas formas de transmissão que atinge grande parte dos lares brasileiros, divulgando uma série de informações ideo- logicamente determinadas por seus programadores e/ou patrocinado- res. Existe, por trás destas escolhas, uma série de critérios, que visam atingir às exigências de telespectadores e patrocinadores, além de in- teresses políticos e ideológicos como você pôde discutir, anteriormen- te, quanto à utilização do esporte para a disputa hegemônica entre Es- tados Unidos e União Soviética.

Nessa adequação da programação a ser exibida, o esporte ocupa lo- cal central, por vários fatores que contribuem aos objetivos da televi- são. Que objetivos seriam estes? Por que o voleibol ocupa local de des- taque? O que teria de proximidades com tais objetivos?

A mídia televisiva diversifica suas programações, objetivando adqui- rir sempre maior público. Para isso, cada emissora de televisão procura transformar as transmissões esportivas em atrações que beiram ao es- petáculo. Um exemplo disso é a transmissão das Olimpíadas e da Co- pa do Mundo.

Estes eventos esportivos apresentam o confronto de culturas, com atletas de diversas partes do universo, representando um momento es- pecial marcado por cores, movimentos, músicas, enfim, um prato cheio para o espetáculo, não acha?

Essa forma moderna de transmissão tem feito o telespectador ter a impressão de estar acompanhando o espetáculo no local onde está sen- do realizado, dada a gama de possibilidades de visualização dos lan- ces, sendo que, às vezes, em melhores condições do que aqueles que estão no local.

A televisão destina, ao esporte, horários diversificados de transmis- são, procurando atender, quase sempre, a lógica mercadológica impos-

 

 

 

ta às transmissões. Essas transmissões compõem um quadro de pro- gramação, em que existem infinidades de atrações, desde filmes até telenovelas.

Se observar a qualidade dessas transmissões, você verá que a televi- são tem como aspecto principal a informação já bastante simplificada. Isso significa reportagens curtas, de fácil entendimento, e que propor- cionem ao público uma sensação de agradabilidade ao assistir. Mas o que essas características têm em comum com o esporte em geral e, es- pecificamente, com o voleibol?

Vejamos: a programação da televisão não deve ser maçante ou en- tediante. Deve proporcionar ao público novas emoções e sensações a todo instante. O voleibol, assim como qualquer esporte, não possui en- redo pré-definido, ou seja, não se sabe qual será o desenvolvimento completo do jogo (ainda que os resultados possam ser manipulados, mas aí só se saberia a priori o resultado dos acontecimentos por um pequeno grupo de “interessados”). Isso já atinge o objetivo voltado pa- ra a criação de novas sensações a todo momento, uma espécie de im- previsibilidade.

Outra questão interessante, que você pode perceber no voleibol e atinge as perspectivas da televisão, é a previsibilidade de tempo do jo- go. Perceba na programação da televisão, tudo tem tempo estipulado, devendo seguir as determinações. Neste sentido, esportes que possu- am uma previsibilidade são interessantes para a televisão. Já imaginou uma partida de tênis? Chega a durar 4 horas, como ficariam os quadros de programação geral da emissora?

Aqui inserimos apenas alguns comentários, que levem você a pen- sar conosco sobre este mundo, complexo, dirigido por um forte jogo de interesses que chega a determinar as regras do esporte, sem que os torcedores possam opinar.

Você se lembra de como eram as antigas regras do voleibol? Faça a comparação com as regras atuais, e acompanhe os reais interesses por trás das modificações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Foto: IconeAudiovisual

 

 

 

 

PESQUISA

 

 

  1. Consulte, nos meios de comunicação (jornal, rádio e televisão), a grade horária da programação e ob- serve o percentual que cada emissora destina ao Em seguida, some o resultado total de to- dos os meios de comunicação que encontrou, transforme em minutos. Pesquise ainda quanto tem- po custa um minuto de propaganda na televisão.

Depois reflita e responda: por que tanto tempo é destinado ao esporte? Terá esse fato alguma rela- ção com os problemas sociais que o nosso país possui? Que papel teria o esporte neste contexto? O de propaganda comercial ou ideológica?

 

 

 

z Voleibol à moda antiga

 

A principal característica do voleibol prati- cado antes das principais modificações de suas regras era sua dinamicidade. As partidas eram muito demoradas, o que ocasionava, ao espor- te, uma certa dificuldade de expansão, já que sua popularidade dependia também de sua es- petacularização através de um maior dinamis- mo.

As regras deste esporte  modificaram-se com o passar dos anos, refletindo inclusive às necessidades de seus  participantes,  bem  co- mo do conjunto da sociedade. A seguir, acom-

panhe atento algumas regras que vigoraram por muito tempo no vo- leibol e que atingiram os objetivos, de acordo com as necessidades da época.

  • O sistema de vantagens aplicado ao voleibol era o principal proble- ma aos interesses da televisão. O ponto era marcado somente quan- do a equipe recuperasse a vantagem e, logo em seguida, confirmasse a vantagem Se você perceber, isso se tornava um grande problema, pois partidas chegavam a durar de 3 a 4 horas.
  • Outra característica importante da constituição das regras neste mo- mento é a possibilidade de tocar a bola com outras partes do cor- Era permitido o contato com partes do corpo que fossem aci- ma da cintura.
  • O local destinado para o saque era restrito, a um espaço pré-esti- pulado, não sendo possível sua transposição.
  • No saque, antes de 1984, era possível o seu bloqueio, sendo extinto já a partir das olimpíadas realizadas naquele ano em Los
  • Para a chamada recepção da primeira bola, não era permitido o contato com as mãos separadas umas das outras, caracterizando 2
  • O saque, ao tocar a rede, era imediatamente anulado, dando a van- tagem à equipe adversária.

 

 

Este conjunto de regras sofreu transformações que possibilitaram ao jogo uma maior dinamicidade e previsão temporal. Isso teve, na mí- dia, uma grande aliada.

 

z A transição: o papel da mídia

 

O voleibol teve a oportunidade de ampliar sua “popularidade” por meio da espetacularização efetuada na televisão, e, com isso, divulgar os produtos dos novos patrocinadores que começavam a se interessar pelo esporte.

Vale questionar alguns pontos controversos a respeito da populariza- ção do voleibol como segundo esporte mais praticado no Brasil: como explicar o fato de que alguns jogadores se mantêm por vários anos jo- gando pela seleção? Se este esporte é tão praticado em nosso país, não haveria outros jogadores de talento para renovar o time da seleção? O que contribui para essa lenta renovação?

De outra perspectiva, como explicar a pouca expressividade de nos- so país nas olimpíadas? Será mesmo a falta de incentivo ao esporte? Co- mo explicar um país como Cuba, arrasado pelos embargos econômicos impostos pelos Estados Unidos, ser superior ao Brasil no quadro de me- dalhas em uma olimpíada e ainda, mais recentemente, em julho de 2007, foi segundo colocado nos XV Jogos Pan-Americanos, realizados no Rio de Janeiro?

Mas voltemos à nossa intenção principal: analisar a mídia como ele- mento importante na transição do voleibol a um formato voltado ao es- petáculo. Retomemos as discussões com estes quadros:

 

 

Nos textos acima, alguns termos são importantes  para  entender- mos o processo de transição do esporte transformado em espetáculo por meio das mudanças de suas regras para “garantir o público con- sumidor”.

 

DEBATE

 

 

Em que termos a popularidade do voleibol o levou a garantir um público que consumisse seus pro- dutos?

 

Para que o negócio fosse completo, havia a necessidade de organizar o esporte, a partir de campeonatos e eventos, cuja finalidade era colocar o voleibol no mercado como espetáculo rentável para os investidores e agradável, dinâmico aos espectadores.

Assim, o voleibol seguia suas transformações, atendendo às perspectivas do mercado e às exi- gências de ampliação e retorno financeiro.

A partir das relações entre os clubes, confederações e organizadores de torneios vinculados aos interesses das emissoras de TV, o voleibol se transformou em esporte espetáculo, cujo ob- jetivo tem por trás da diversão, e simples competição, o incentivo ao consumo de grandes mar- cas esportivas, produtos variados, formas e estilos de vida, modismos e idéias.

Nesse contexto, o voleibol, com a ajuda da televisão e o interesse de outros agentes envolvi- dos (dirigentes, técnicos, jogadores, etc.) passou de um esporte pouco conhecido, voltado para as classes mais abastadas, a um esporte “popular”, conhecido e praticado por pessoas de todas as classes sociais e de todas as regiões do Brasil. Tornou-se um empreendimento, marca regis- trada que rende milhões anualmente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

z O voleibol sob uma nova roupagem

 

Quando compramos uma nova roupa significa que aquela que tí- nhamos não nos serve mais, ou simplesmente, queremos inovar nos- so vestuário. Quando tratamos da roupagem do voleibol, essa analo- gia torna-se um pouco mais complexa, porém, segue a mesma lógica. Se há uma nova roupagem, é porque a antiga foi substituída por não servir mais, ou porque se fez necessário uma inovação?

A trajetória do voleibol realmente tomou novos rumos quando fo- ram iniciadas as parcerias com empresas. Uma nova roupagem foi ela- borada, iniciaram-se as associações esportivas que proporcionam uma nova caminhada para essa modalidade esportiva.

De acordo com essa nova realidade, muitas mudanças aconteceram no contexto do voleibol. Os dirigentes trabalharam sob novas pers- pectivas, obtendo novas visões sob a forma de dirigir suas equipes em comparação aos primeiros campeonatos brasileiros. Fica evidente que a estrutura profissionalizante do voleibol não se estruturou de imedia- to, mas a maioria dos clubes se esforçou para isso. A criação do volei- bol como forma de lazer dá lugar ao negócio, os empresários enxer- gam neste esporte possibilidades da divulgação de seus produtos.

A década de 80 foi primordial nessa passagem do voleibol ao mun- do dos negócios. É o período de grandes contratos publicitários e da grande cobertura da mídia, assim como, de grandes premiações nos torneios internacionais. Foi uma época de adequação ao formato tele- visivo (MARCHI JR., 2001).

No conjunto das adequações, o tempo de partida deveria ser dimi- nuído, para compor, de forma previsível, a programação da televisão.

 

 

Assim foi introduzido um novo sistema de pontuação, no qual a vantagem é elimina- da e passa a prevalecer a pontuação direta, ou seja, no sistema único de “tie-break”. As partidas teriam um maior número de pon- tos para que não terminassem tão rapida- mente. Subiu para 25 o número de pontos necessários para a vitória de um “set”.

O voleibol foi, então, adequado à pre- visibilidade de tempo de partida, condi- ção para tornar-se espetáculo televisivo. Is- so não aconteceu ainda com o tênis, por

exemplo! É freqüente a exibição de partidas de tênis em TV “aberta”? O tênis é um típico esporte que não interessa à televisão, por não pos- suir uma previsibilidade, o tempo pode variar de uma, até quatro ho- ras.

Cabe um questionamento sobre a divisão existente entre televisão aberta e a televisão fechada. Você saberia dizer qual o motivo desta di- visão? Quem pode hoje, no país, ter em suas casas a televisão fechada (paga)? É evidente que o processo de elitização não ocorre somente no esporte de modo geral, ocorre principalmente na sociedade como um todo. O acesso às televisões fechadas é restrito àqueles que podem pa- gar por este entretenimento. Aos demais, resta a TV aberta e suas ofer- tas de diversão massificadas.

Outra exigência para que a espetacularização do voleibol se efeti- vasse, foi a necessidade de evolução técnica e tática dos jogadores, pa- ra que a bola não caísse rapidamente e a partida terminasse em pou- co tempo. As regras neste momento foram alteradas com o objetivo de ajustar o jogo, de forma que o espetáculo fosse mais “belo” e suficien- temente duradouro aos olhos do telespectador.

Ainda atendendo as necessidades de espetacularizar o voleibol, houve a inserção de bola colorida. Isso objetivava tanto facilitar a mar- cação do árbitro quanto a visualização e o acompanhamento do te- lespectador.

Outra alteração significativa, inserida para impor uma forma ainda mais espetacularizada, e que mexeu de forma direta no tempo de bo- la em jogo, foi a criação de um jogador com função específica, defen- der. O líbero foi criado para que a bola não tocasse o chão com tan- ta facilidade.

Com as novas regras, o saque pode tocar a fita, aumentando a ex- pectativa. O técnico teve sua área ampliada para toda a extensão de seu lado da quadra, o que aumentou a interatividade entre público, técnico e jogadores.

 

O tempo destinado às equipes também sofreu alterações. O motivo pelo qual foi instituído o chamado tempo “técnico”, no oitavo e déci- mo sexto ponto, foi oportunizar o anúncio dos produtos dos patroci- nadores para que possam vender suas imagens ao grande público. Es- sa alteração, provavelmente, tenha passado despercebida ao conjunto de espectadores, porém coloca, de maneira definitiva, o voleibol como um negócio muito interessante para os diversos investidores.

Assim, não houve uma preocupação com o esporte em si. Os ca- pitalistas, donos dos meios de comunicação, imprimiram as novas re- gras ao voleibol para torná-lo mercadoria, de acordo com a exigência do mercado, sem levar em conta as opiniões dos espectadores, e mui- to menos dos antigos e atuais praticantes.

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

  1. Agora, organize um novo festival de voleibol em sua aula de Educação Física, mas, desta vez, se- guindo a regra Depois, elabore um relatório em seu caderno observando as seguintes ques- tões:
    1. Quanto tempo durou a aula?
    2. Que dificuldade foi encontrada durante o jogo?
    3. Quais foram as principais semelhanças e as principais diferenças da partida com as regras “an- tigas”, e da partida com as “novas” regras?

 

 

 

DEBATE

 

 

  1. Utilizando-se das anotações do festival com as antigas regras, promova uma discussão em mesa redonda comparando as observações feitas entre os dois Você pode discutir, entre outras questões: quais regras facilitam mais o jogo? No que o jogo ficou mais dinâmico? Por quê?

 

 

A importância da crítica que estabelecemos aqui recai na análise que você pode fazer do voleibol como fenômeno social, e, como esta- belecemos em todo o texto, vale não só para o esporte, mas para toda a sociedade. Reflita sobre todas essas questões, e retire daqui aquelas que o deixaram mais intrigado. Vá em busca de novos questionamentos, de soluções para as dúvidas que este texto deixou. Fica o desafio.

 

 

z Referências Bibliográficas:

BORDIEU, P. Sobre a televisão. Tradução. Maria Lucia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zarar, 1997.

CHESMAM, C.; ANDRÉ, C.; MACEDO, A. Física moderna: experimental e aplicada. São Paulo: Livra- ria da física, 2004.

Confederação Brasileira de Voleibol, Regras oficiais de voleibol. Rio de Janeiro: Ed.Sprint, 2005.

CRUZ, G. de C. Classe especial e regular no contexto da educação física: segregar ou inte- grar? Londrina: UEL, 1997.

HOBSBAWN, E. A era dos extremos: O breve século XX: 1914-1991. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MARCHI J. W. “Sacando” o voleibol: do amadorismo à espetacularização da modalidade no Brasil (1970 – 2000). 2001. Tese (Doutorado em Educação Física) – Universidade Estadual de Campinas, Fa- culdade de Educação Física, Campinas, São Paulo, 2001.

Regras oficiais de voleibol 1995 -1997. Rio de Janeiro: Sprint, s/d.

 

z Documentos consultados ONLINE:

www.diaadiaeducacao/educacaofisica/esportes Acesso em: 20 ago. 2005. www.trabajadores.co.cu/…/ noticias/28/color.htm Acesso em: 08 nov. 2005. www.vivercidades.org.br/publique/media/energiasolar1.jpg Acesso em: 08 nov. 2005.

 

 

ANOTAÇÕES

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

48     Esporte

 

Educação Física

 

 

3

EU FAÇO ESPORTE OU SOU USADO PELO

ESPORTE?

  • Gilson José Caetano1

 

O esporte escolar, muitas vezes, é um reflexo do es- porte competitivo. Este divulgado e incentivado pe- los meios de comunicação, que atendem anseios do mercado consumidor, fortemente ligado ao ideário do sistema capitalista.

Devemos entender tais propósitos – que estão postos de forma oculta, o que nos torna passivos e legiti- madores desse sistema – para que possamos sair da condição de consumidores passivos e nos tornarmos entendedores da situação.

Dessa forma, como podemos  observar  as  intenções da mídia, presentes nas transmissões do esporte? E como entender o que está por trás de tal discurso? Você seria capaz de diferenciar o esporte dito “esco- lar” daquele esporte veiculado pelos meios de comu- nicação?

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Edite Cordeiro Marques. Turvo – PR Escola Joanna Lechiw Thomé. Turvo – PR

 

Eu faço esporte ou sou usado pelo esporte?                             49

 

 

 

 

Quando pensamos em esporte na escola, pensamos diretamente na Educação Física. Esta disciplina tem-se apoiado na prática es- portiva como forma de legitimar-se nos currí- culos escolares. O esporte praticado no meio escolar serve,  principalmente,  como  forma de socialização, mas não é explorado em to- da sua potencialidade transformadora.

Neste trabalho, procuraremos, por meio de diversos questionamentos,  proporcio- nar maior entendimento a respeito do espor- te competitivo: sua origem, evolução, identi- ficação com o sistema capitalista, intenções da mídia presentes nas transmissões, e dife- renciá-lo do esporte escolar para ampliar as perspectivas de uma prática pedagógica cons- ciente. Queremos também que você entenda o que está por trás do discurso da mídia e sua real intenção quando o assunto é esporte.

 

 

z Evolução do Esporte até a Profissionalização:

 

“O esporte que conhecemos hoje é fruto de profundas transforma- ções sociais ocorridas com o advento da chamada Revolução Indus- trial na Europa dos séculos XVIII e XIX, com origens, sobretudo, ingle- sas.” (BETTI, 2004, p.17)

Para entender o processo histórico em que surgiu o esporte, tão apreciado pela sociedade contemporânea, é necessário compreender algumas das transformações sociais que ocorreram naquele contexto.

Entre os séculos XVI e XVIII, a sociedade européia era organiza- da em estamentos, ou seja, a posição dos sujeitos na hierarquia social era definida pelo seu nascimento. As pessoas que descendiam da no- breza tinham direitos e privilégios sociais muito maiores que o povo. Mesmo a burguesia, grupo social que se desenvolveu aos poucos, ao longo daquele período até conquistar o poder econômico, não gozava dos mesmos direitos que os nobres.

 

 

 

Essa situação passou a ser questionada mais intensamente, no sécu- lo XVIII, pelos filósofos franceses do movimento iluminista. Estes filó- sofos opunham-se ao poder absolutista do rei, à intervenção deste na economia, aos privilégios do clero e da nobreza e defendiam a igual- dade jurídica, a separação dos poderes e a liberdade econômica. As idéias desses pensadores influenciaram as revoluções que levaram a burguesia a conquistar o poder político, como a Revolução Francesa, ao final do século XVIII, e a organização política contemporânea. Veja o que Jean-Jacques Rousseau pensava a respeito da desigualdade en- tre os homens:

  • Jean Jacques Rousseau

 

 

A burguesia, classe que passou a ter forte influência sobre as de- mais, utilizava-se da pratica esportiva como forma de normatizar e dis- ciplinar seus próprios filhos, a fim de prepará-los para saber controlar as tensões sociais. Ao mesmo tempo em que essa classe social buscava conquistar o poder político, consolidava-se seu poder econômico por meio da Revolução Industrial.

No século XIX, com as reivindicações da classe operária para redu- ção das jornadas de trabalho, os trabalhadores obtiveram acesso a um tempo destinado ao lazer. Mas o que fazer nas horas vagas? Junto a is- so, intensificou-se o processo de urbanização que criava espaços pú- blicos. Mas como utilizar esses espaços de forma correta?

A classe trabalhadora conquistou, após inúmeros enfrentamentos, a redução da jornada de trabalho e alguns direitos como o sufrágio uni- versal. Estas conquistas preocuparam a burguesia em relação à forma como os trabalhadores poderiam aproveitar o tempo de folga. Isso se- ria uma poderosa arma a ser utilizada contra ela mesma (burguesia), uma vez que com esse tempo de folga e com os espaços públicos dis- poníveis para os momentos de lazer, seria fácil a criação de movimen- tos sociais contra a classe dirigente.

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesse sentido, surgiu a importância de incentivar a classe trabalha- dora a aderir à prática esportiva, como forma de ocupação do tempo livre, diminuindo as possibilidades de tensões sociais. “No entanto, o significado dessa prática para essas classes sociais era outro, o corpo foi o meio, caracterizando-se uma prática mais viril” (RODRIGUES, 2004).

Dentro dessa perspectiva, o esporte assumiu diferentes papéis e um deles foi de elemento de socialização (para a elite), tendendo a uma prática amadora. Já para a classe trabalhadora, o esporte era pratica- do de uma forma mais combativa, aproximando-se do que viria a ser, mais tarde, o esporte “profissional”. Você está entendendo como o es- porte originou-se? Então vamos ver se é capaz de responder as ques- tões abaixo:

 

PESQUISA

 

 

  • Você e seus colegas deverão dividir-se em grupos encarregados de pesquisar determinada moda- lidade esportiva (aquela que for de interesse do grupo) quanto a: sua origem e evolução, ressaltan- do quando passou a ser uma modalidade praticada profissionalmente (criação de sua federação); e, se for o caso, quando a modalidade passou a ser um esporte olímpico.
  • Ainda em equipes, pesquisem diferentes instituições sociais, como a escola, igreja, estado, clubes, associações, partidos políticos, entre outras, para saber de que forma essas instituições influenciam ou sofrem influências do fenômeno

 

 

 

z Surgimento do Esporte Espetáculo

 

A evolução do esporte até tornar-se “espetáculo” aconteceu de for- ma “natural”, pois, no sistema capitalista, um fenômeno aceito e in- corporado tanto pela classe trabalhadora quanto pela classe dominan- te não poderia passar despercebido. Assim, o esporte, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, passou a ter conotações merca- dológicas.

O esporte, na segunda metade do século XX, assumiu grande re- levância social. Para muitos praticantes, esse fenômeno representava uma forma de status e, principalmente para as classes menos favoreci- das, era o meio mais rápido de ascensão social.

Os meios de comunicação de massa contribuíram para a divulgação e ajudaram a criar essas “falsas ilusões”, valorizando o esporte e tor- nando-o uma mercadoria de consumo. Mas você sabe por que acon- teceu isto? Para atender aos interesses de quem? Redija suas conside- rações.

Alguns pesquisadores escrevem sobre este tipo de desvirtuamento que o esporte foi submetido. Proni (1998, p. 93), com base nos estu- dos de sociólogos, argumenta que “(…) antes do domínio da televisão,

 

 

mudanças nas regras, estrutura e calendário foram introduzidos para aperfeiçoar o esporte ou incrementar a assistência das partidas. A par- tir do momento que o controle econômico se deslocou para a televi- são, mudanças foram introduzidas para agradar os telespectadores ou gerar mais receita com propagandas”.

Um dos exemplos mais claros seria a questão da exploração da mí- dia sobre o voleibol, o qual teve suas regras alteradas em favor de in- teresses da televisão, como no caso da exclusão da “vantagem”, e tam- bém a inserção do “tempo da TV” que acontece sempre no oitavo e décimo sexto ponto de cada set. Para maiores esclarecimentos consul- te o folhas: A relação entre a televisão e o voleibol no estabelecimento de suas regras. Será que isto também acontece com outros esportes?

 

ATIVIDADE

 

 

  • Você concorda com a profissionalização do esporte?
  • E com a influência dos meios de comunicação no esporte?

 

z O Esporte como forma de Lazer Passivo

 

O lazer, inicialmente, tinha por objetivo diminuir as tensões presen- tes nas longas jornadas de trabalho.

Neste contexto, referimo-nos a uma forma de lazer denominado de “lazer passivo”, do qual os meios de comunicação, em especial a tele- visão, fazem uso com bastante propriedade, tornando os espectadores em potenciais consumidores da “indústria do lazer”.

“O espectador conecta a televisão para desconectar-se…” (ENZENSBERGER 1991, apud LOVISOLO, 2003, p. 247). A televisão utilizada como forma de lazer faz com que o ser humano se desconecte da realidade que o cerca, de seus problemas e viva intensamente esse tempo, o qual expressa um senti- mento de “prazer”. Mas que prazer é esse?

Será que a televisão proporciona uma forma de alienação? E o te- lespectador que, nesses casos, encontra-se solitário, participando passi- vamente, não podendo tecer uma crítica ou reflexão ao que lhe é ofe- recido? Você toma por verdadeiro tudo que é transmitido nos meios midiáticos? O que terá acontecido no incidente com o Brasil na final da copa da França em 1998?

O esporte, dentro desse conceito de lazer, influencia os espectado- res para a compra do “espetáculo-esportivo”. Essa relação entre o es- porte e o consumismo pode se refletir de diversas formas, tais como:

 

 

 

 

 

A televisão e os meios de comunicação em geral, por influenciarem um grande público com proporções, muitas vezes incalculáveis, tor- nam-se produtores de verdades, criando crenças, ídolos e divulgando informações pertinentes aos seus interesses. Essa produção de idéias e valores é interpretada pelas pessoas como verdades absolutas, sem que haja uma reflexão crítica a respeito de tais modelos, contribuindo, assim, na formação de uma massa consumidora. Para aprofundar es- sa discussão, consulte o Folhas “Saúde é o que interessa! O resto não tem pressa!”.

 

z O Esporte na Escola:

 

O processo de implantação da prática esportiva no ambiente escolar aconteceu, principalmente, na década de 1970, pois alguns anos antes desse perío- do, poucas equipes nacionais conseguiram resulta- dos expressivos no cenário esportivo internacional. Nesse aspecto, Betti (1991) aponta que:

 

 

 

O esporte pareceu também ir ao encontro da ideologia propagada pelos condutores da Revolução de 1964: aptidão física como sustentá- culo do desenvolvimento, espírito de competição, coesão nacional e social, promoção externa do país, senso moral e cívico, senso de or- dem e disciplina. (BETTI, 1991, p. 161)

Entendia-se, na época, que para um país destacar-se mundialmen- te, tanto política como economicamente, era necessário destacar-se também nos esportes. Desse período advém, até os dias de hoje, a im- plantação do fenômeno esportivo associado à Educação Física escolar. O quadro a seguir retrata, em parte, o que se pensava a respeito do futebol no período da ditadura no Brasil e em outros países da Amé- rica do Sul:

 

Atualmente, a razão de a Educação Física escolar apoiar-se em tal fenômeno está relacionada com a “crença comum de que a participa- ção é um elemento de socialização que contribui para o desenvolvi- mento mental e social.” (LOY et al, 1978 citado por BRACHT, 1997, p.75). Os resultados obtidos pela política esportiva da ditadura podem ser considerados um desastre quase social.

Ao utilizar-se do esporte nas aulas de Educação Física, muitas vezes a “(…) escola tende a reproduzir os discursos e soluções apontadas pe- la mídia. Não promove um diálogo. Apenas reforça a obtenção de in- formação compacta e fácil em detrimento de uma reflexão crítica. Essa situação gera uma ausência de significados (…)” (GOMES, 2001).

 

 

O esporte escolar deve estar caracterizado como “Esporte Educação” e não como “Esporte na Escola”. Do ponto de vis- ta prático, o esporte não pode ser negado, mas sim utilizado de forma que desperte no aluno interesse e prazer e tenha uma intencionalidade  educativa,  nunca  o  jogo  pelo  próprio  jo- go. Você não acha mais interessante jogar “com” do que jo- gar “contra”? Obtenha mais informações sobre esta propos-

ta no Folhas de jogos intitulado “Competir ou cooperar: eis a questão”.

A prática esportiva deve propiciar a você uma com- preensão mais ampla sobre as relações sociais, às quais, constantemente, somos submetidos. Para que, por meio do esporte, possamos entendê-las de forma mais crítica e autô- noma, tornando-nos donos de nosso próprio entendi- mento.

 

 

E então? Você já é capaz de responder ao problema inicial: “Você faz uso do esporte ou é usado pelo esporte”?

 

 

 

 

 

z Referências Bibliográficas:

BETTI, M. Educação física e sociedade. São Paulo: Movimento, 1991.

         . Violência em campo: dinheiro, mídia e transgressão às regras no futebol espetáculo. Ijuí: Unijuí, 2004.

BOUDONN, R.; BOURRICAUD, F. Dicionário crítico de sociologia. 2. ed. São Paulo: Editora Ática, 2004.

BRACHT, V. Educação física e aprendizagem social. Porto Alegre: Ma- gister, 1997.

GALEANO, E. Futebol ao sol e a sombra. Porto Alegre: L&PM, 2004.

GOMES, P. B. M. B. Mídia, imaginário de consumo e educação. In: Revista Educação e Sociedade, Campinas/SP, v.22, n.74, 2001.

LOVISOLO, H. Tédio e espetáculo esportivo. In: ALABARCES, P. (org.). Fu- tbologías-fútbol, idetidad y violencia em América Latina. Buenos Ai- res: E. CLACSO, 2003.

PINSKY, J., PINSKY, C.B. (orgs). História da cidadania. 2. ed. São Pau- lo: Contexto, 2003.

PRONI, M. W. Esporte-espetáculo e futebol-empresa. 1998. Te- se (Doutorado em Educação Física). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1998.

RODRIGUES, E.F.; MONTAGNER, P. C. Esporte-espetáculo e socieda- de: estudos preliminares sobre a influência no âmbito escolar. Campinas: Unicamp, 2004.

 

z Documentos consultados ONLINE

ROUSSEAU, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da de- sigualdade. 1755, p. 12-13.

Disponível em: <http://www.comunismo.com.br/desigualdades.pdf>. Aces- so em: 20 jul. 2005.

 

 

 

 

 

 

I      z Jogos

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  • Calcio fiorentino – Fußball in Florenz im Jahrhundert

 

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Falar sobre o jogo, enquanto manifestação da cultura corporal, sig- nifica traçar o que tal Conteúdo Estruturante foi desde sua constituição até a atualidade, para refletir sobre as possibilidades de recriá-lo por meio de uma intervenção consciente.

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Os jogos existem desde a pré-história e seus registros indicam as mais variadas formas de jogar, nas diversas partes do mundo. Como forma de manifestação da cultura de povos na Ásia, na América pré- colombiana, na África, na Austrália e entre os indígenas das ilhas mais longínquas do Oceano Pacífico, foram encontrados jogos de expressão utilitária, recreativa e religiosa (RAMOS, 1982, p.56). Alguns jogos passaram por alterações e muitos deles vieram compor um elenco de modalida- des que mais tarde foram disputadas nos Jogos Olímpicos da Grécia antiga. Este último evento tinha, em sua origem, como um dos princí- pios, a finalidade de aclamar os deuses do Olimpo.

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Porém, muito anterior a este evento, desde o surgimento do ho- mem, há registros de jogos, encontrados em paredes de cavernas espa- lhadas pelo mundo. Este fato retrata a necessidade que já se apresen- tava de dar aos momentos de luta pela sobrevivência (atividades como a caça e pesca) um caráter lúdico.

O jogo, analisado a partir dos fundamentos teóricos da Cultura Cor- poral, caracteriza-se pela espontaneidade, flexibilidade, descompro-

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misso, criatividade, fantasia e expressividade, representadas de diver- sas formas, próprias de cada cultura. As regras existem sem a rigidez aplicada aos esportes, mas são previamente discutidas e combinadas pelos participantes, que poderão modificá-las ou não, de acordo com o interesse do grupo.

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O jogo é uma atividade livre que deve ser realizada sem o caráter da obrigatoriedade. Possibilita a liberdade e a criação, permitindo o surgimento de outras formas de jogar, implica um sentido e um signifi- cado que, com o tempo, passam a fazer parte da cultura do grupo, co- munidade, povo ou nação que o inventou. Você pode perceber isto se buscar um jogo que é típico em sua região, mas que poderá ter carac- terísticas diferentes ou nem existir em outra região do país.

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Sua importância, enquanto Conteúdo Estruturante da disciplina de Educação Física, está na representação das raízes históricas e culturais de diversos povos, bem como as transformações ocorridas ao longo do tempo que possam ter causado modificações no modo como se joga determinado jogo em várias partes do mundo. É importante, também, considerar o jogo em seu processo de criação, recriação e readapta- ção, levando-se em conta as possíveis influências políticas, econômi- cas e sociais pelas quais tenha passado, dando-lhe uma nova configu- ração e uma compreensão crítica. Enfim, é uma produção humana que tem um “(…) significado dentro da produção coletiva dos homens vi- vendo em sociedade” (BRUHNS, 1996, p.29).

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O jogo, enquanto fenômeno social, está relacionado aos processos de produção que aconteceram desde sua invenção. A integração entre as atividades relacionadas ao trabalho e o jogo se manifestavam possi- bilitando perpetuação de hábitos transmitidos de geração em geração. Você percebe o quanto os jogos tinham e têm um significado impor- tante na vida dos seres humanos?

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Com as novas possibilidades de desenvolvimento da economia, desde o final do século XVIII, e com a intensificação da produção in- dustrial, os valores se modificaram, impondo alterações no modo e nas condições de vida. A classe dominante condenava as atividades popu- lares, como os jogos, pois viam nelas uma ameaça à ordem imposta pelo modo de produção capitalista. Para a elite (econômica, política e

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intelectual), o jogo, além de provocar “desvio de atenção sobre a vida santificada”, não contribuía para o restabelecimento das forças neces- sárias para a retomada do trabalho.

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Percebendo as potencialidades desse caráter de insubordinação e de criação inerentes ao jogo, a classe dirigente procurou dar destaque ao esporte e minimizar a importância social do jogo. Nesse contexto, surgiu a padronização do esporte que objetivava disciplinar por meio da aceitação da idéia de que regras rígidas devem ser seguidas por to- dos, para o bem e a ordem social. Sobre esporte, você pode buscar in- formações interessantes no texto de apresentação desse conteúdo es- truturante e seus respectivos Folhas.

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Apesar das interferências históricas, políticas e econômicas, o jogo praticado atualmente ainda apresenta algumas características originais, especialmente quanto ao seu caráter lúdico e espontâneo.

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Você já observou com que prazer as crianças, adolescentes e adul- tos jogam futebol na rua ou num espaço improvisado qualquer? Você e seus colegas jogam vôlei, basquete ou qualquer outra modalidade apenas para se divertir, criando regras próprias acordadas por todos? Será que, mesmo de maneira descontraída e sem regras rígidas, vo- cê não estaria jogando para competir? E com quem você estaria com- petindo: consigo mesmo para superar-se ou com o outro para provar quem é o melhor?

 

 

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A competitividade se desenvolve ao longo da vida, de acordo com as experiências e a forma como somos estimulados a competir? Como era a competição antes do modo de produção capitalista? Até que pon- to a competição que se estabeleceu na sociedade capitalista – em que a disputa pelas melhores posições sociais, econômicas e culturais – po- de nos tornar individualistas, sem a preocupação com interesses coleti- vos? Será que a escola tornou-se um ambiente que também promove a competição egoísta, valorizando apenas aqueles que se sobressaem?

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Uma forma de oportunizar a participação coletiva nas aulas, sem que a competição torne-se o principal objetivo, pode se dar através dos jogos cooperativos. Assim como outras formas de jogo, os jogos cooperativos também apresentam registros em vários continentes. Vo- cê poderá obter outras informações interessantes sobre esse assunto ao ler o Folhas: “Competir ou cooperar: eis a questão!”.

O

O jogo jogado e o jogo jogante, o que isso significa? Como pensar tal prática, relacionando-a a outros conceitos, sem perder o prazer de forma lúdica? Para entender a relação entre o jogo jogado e o jogo jo- gante, confira o Folhas: “O jogo é jogado e a cidadania é negada.”

Então, mãos à obra! Boa leitura e divirta-se realizando as atividades propostas! Lembre-se que as leituras do Livro Didático Público das de- mais disciplinas escolares certamente poderão ajudar você e seus co- legas na compreensão dos vários problemas levantados nesses e em

outros Folhas.                                                                                                                                   F

Í S I C A

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

64     Jogos

 

Educação Física

 

 

4

COMPETIR OU COOPERAR: EIS A

QUESTÃO!

  • Cristiane Pereira Brito1

 

 

Seria o ser humano naturalmente competitivo ou o meio o influencia para que se torne assim?

As relações sociais nos conduzem à competição, fazendo-nos provar, o tempo todo, que somos os melhores em alguma coisa?

Será que a escola tornou-se um ambiente que também promove a competição valorizando ape- nas aqueles que se sobressaem?

Os esportes e os jogos só se aplicam de maneira competitiva? É possível diferenciar o esporte do jogo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual André Andreatta. Quatro Barras – PR

 

Competir ou cooperar: eis a questão!                     65

 

 

Analise a seguinte situação:

 

O exemplo dado retrata a forma como o mecanismo da competi- ção se desenvolveu nas empresas, com a intenção de obter lucros ca- da vez maiores.

O capitalismo apresenta algumas características, sobre as quais vo- cê, possivelmente, já ouviu falar. Uma delas é a competição desenfrea- da pela conquista de mercado cada vez mais amplo no mundo globali- zado. Outra característica é a exploração do trabalho com o objetivo

de aumentar os lucros da empresa capitalista.

Podemos verificar tal exploração no salário recebido pelos trabalhadores. Os produtos do trabalho dos empregados ge- ram, para a  empresa,  lucros  cujo  montante  ultrapassa  mui- to o valor dos salários que recebem. Para que continuem produzindo, cada vez mais, alguns patrões estimulam a competição  entre  seus  empregados.  Trata-se,   então,   de uma sociedade onde poucos ganham muito e muitos ga-

nham pouco.

Esta mesma relação pode ser percebida no esporte. O esporte beneficia poucos oferecendo um espetáculo de entretenimento e diversão para muitos que lotam estádios e ginásios e pagam por isso. Os mandantes do mundo es- portivo enriquecem ao explorar suas equipes subordinadas em competições municipais, estaduais, nacionais e inter- nacionais. Delas são cobrados resultados, além imporem extensas jornadas de treinamentos.

Treinar e jogar são deveres do atleta, portanto, o tem- po que ele gasta fazendo isso deve ser cada vez maior, para que o time seja sempre vitorioso – esta é a explo- ração sofrida por ele.

 

 

O jogo tem se transformado numa atividade competitiva institucio- nalizada, regida por um conjunto de normas e controlada por orga- nizações que promovem o desenvolvimento das modalidades, aten- dendo aos interesses do modo capitalista de produção. Nos grandes eventos esportivos internacionais, pode-se dizer que a confraterniza- ção entre os povos acontece, mas a competição é um dos seus princi- pais objetivos. Porém, quem são os maiores beneficiados com toda es- ta situação? Reflita sobre esta questão.

Para que a competição seja possível, é necessário que haja compe- tidores. Tomando o esporte e a sociedade capitalista como referência para compreendermos um pouco da natureza humana quanto sua ten- dência à competição, veremos o que pensam alguns autores a respei- to. Antes, realizem as atividades propostas:

 

 

 

 

z Seria o ser humano competitivo por natureza?

 

A resposta a essa questão demanda, necessariamente, o esclareci- mento prévio do conceito de natureza e, ainda, do conceito de cultura.

Marx ocupou-se da relação existente entre natureza e cultura na constituição do ser humano, argumentando, por exemplo, que os cin- co sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão) são naturais, bioló- gicos, mas são também culturais e sociais, em outras palavras, mesmo os sentidos ditos naturais são humanizados.

 

 

 

Marilena Chaui também problematiza as noções de natureza e cul- tura aceitas de forma irrefletida pelo senso comum, a partir do questio- namento da idéia de natureza humana. Existe uma natureza humana? A natureza humana é universal, é a mesma para todos nós? É possível

 

 

compreender nossos comportamentos e ações a partir de determina- ções de ordem natural? Se isso é possível, qual seria, então, o funda- mento da natureza humana?

Segundo Chaui, a natureza:

 

O problema das tentativas de naturalização dos sentidos, dos va- lores, dos comportamentos e das ações humanas é que elas anulam a dimensão cultural e política da existência humana. Assim, na medida em que aceitamos essa ordem de determinações como sendo naturais e necessárias, portanto, independentes de nós, das nossas vontades e ações, geralmente nos submetemos a processos de dominação engen- drados pela própria sociedade. É preciso compreender que a humani- dade caracteriza-se pela natureza e pela humanização dessa natureza através da cultura e da história.

A partir dessa rápida análise dos conceitos de natureza e cultura, podemos retomar o nosso problema: o ser humano é naturalmente competitivo ou o meio o influencia para que se torne assim?

Segundo Huizinga (1996), espontaneamente as crianças re- alizam atividades lúdicas que, de caráter competitivo ou não, acontecem no ato de jogar. Sendo assim, parece natural o fato de que a competição, manifestada na ação do jogo, revele a ne- cessidade do homem perpetuar sua cultura.

Para esse autor, desde as mais remotas civilizações, o jogo era utilizado em celebrações com os mais diversos fins. A importância de vencer está intimamente relacionada à sensação de superiori- dade, resultante do esforço conquistado. “O homem compete, es- sencialmente, pelas honras posteriores que a conquista lhe con- cede.” “[Entre os homens] a competição não se estabelece apenas ‘por’ alguma coisa, mas também ‘em’ e ‘com’ alguma coisa. Os homens entram em competição para serem os primeiros em for- ça ou destreza, em conhecimentos ou riqueza, em esplendor, ge- nerosidade ou ascendência (…)” (HUIZINGA, 1996, p.59)

 

 

A influência cultural que se apresenta nas competi- ções tem suas raízes manifestadas em países como a Chi- na, onde “na fase mais primitiva os clãs rurais celebravam as festas das estações por meio de competições destinadas a favorecer a fertilidade e o amadurecimento das colheitas. Quase todas as atividades assumiam a forma de competição ritual: atravessar um rio, escalar uma montanha, cortar ár-

vores ou colher flores”. (ibidem, p. 62-63)

Por outro lado, a positividade  da  competição  está em alguns motivos  que  movem  os  competidores,  tais  co- mo: a necessidade de reconhecimento, a demonstração de superioridade de uns diante de outros e a superação dos li-

mites individuais.

Você já passou por algumas discussões sobre competição e deve tentar evitar que este seja o único objetivo nas aulas de Educação Física. O jogo é parte da cultura e a competição é um dos elementos que o constituem, das civilizações mais antigas às mais modernas.

 

E em nossa escola, como se configuram estas questões relaciona- das à competitividade e natureza humana? Será que ela tornou-se um ambiente que também promove a competição sem limites? Vamos pes- quisar sobre essas questões, para que não se tenham dúvidas sobre o assunto?

 

 

 

z Jogo e esporte: tão diferentes assim?

 

 

Em que termos o esporte se diferencia do jogo? Será mesmo que são tão distintos quanto possa parecer? Ou são tão parecidos que os confundimos, tratando-os como sinônimos?

Pode-se dizer que o jogo se diferencia do esporte quando ao pri- meiro imprimimos um caráter lúdico, realizado por meio de uma ati- vidade voluntária que pode ser modificada a qualquer tempo, inter- rompida a qualquer instante e transferida a qualquer hora. O jogo não deve estar sujeito a ordens ou regras rígidas, a não ser nos casos em que represente uma atividade cultural com a finalidade de perpetua- ção de hábitos dos mais diversos povos. Ou seja, o jogo tem como ca- racterísticas marcantes a liberdade e o prazer.

Ao mencionarmos o lúdico como elemento diferencial entre espor- te e jogo, cabe uma simples pergunta: o que é lúdico?

Vejamos o que alguns autores apontam sobre este conceito que em muito diferencia o jogo do esporte. É importante que você perceba o que aproxima estes autores sobre a profundidade deste conceito e o que os afasta, podendo assim, formar seus próprios conceitos.

  • diaadiaeducação.pr.gov.br

 

 

 

 

Lúdico ou atividade lúdica:

  • Identifica-se o lúdico em diferentes esferas da vida social, considerando-o, fundamental- mente, como o jogo, uma atividade não sé- ria, mas absorvente para o jogador, desligada de interesses materiais e praticada de acordo com regras de ordem (organização), tempo e espaço, e cuja essência repousa no diver- Sendo parte integrante da vida em geral, possui um caráter desinteressado, gra- tuito e provoca evasão do real (HUIZINGA, in: FENS- TERSEIFER, P. E. e G.; Fernando J. (orgs). Dicionário crítico de educa- ção física. Ijuí: Editora Unijuí, 2005., p. 270).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Atividade lúdica: voleibol de praia Fonte: wikipedia (This file has been relea- sed into the public domain by the copyright holder, its copyright has expired, or it is ineligible for This applies worldwide).

 

 

 

Diferente do esporte, o jogo não deve estar vinculado à necessida- de física ou ao dever moral de representar alguma instituição ou gru- po. Nunca constitui uma tarefa, sendo praticado nas horas vagas. Al- gumas características poderão auxiliá-lo a compreender melhor o que coloca o jogo em situação distinta do esporte. Segundo Huizinga:

 

Distingue-se do esporte pelo simples fato de que, ao se iniciar o jogo, pode ser finalizado a qualquer tempo;

É construído de maneira coletiva e na medida em que é incorporado aos hábitos de determinado grupo, po- vo ou população, torna-se fenômeno cultural;

Deve ser livre;

O caráter social do jogo torna-o uma necessidade re- gular como se fosse um complemento, um hábito ne- cessário na vida do jogador;

É uma atividade desligada de todo e qualquer interes- se material, com o qual não se objetiva obter lucro.

Você deve estar se perguntando: mas o que é o es- porte, então? Veja o quadro abaixo e faça uma compa- ração com as origens do jogo e com o que você leu nas primeiras páginas deste trabalho em relação aos conflitos de classes e ao capitalismo, observando as relações que daí decorrem:

 

 

Esporte: entendido como uma prática motora/corporal:

  1. orientada a comparar um determinado desempenho entre indivíduos ou grupos;
  2. regido por um conjunto de regras que procuram dar aos adversários iguais condições de oportuni- dade para vencer a contenda e, dessa forma, manter a incerteza do resultado;
  3. com regras institucionalizadas por organizações que assumem (exigem) a responsabilidade de defi- nir e homogeneizar as normas de disputa e promover o desenvolvimento da modalidade, tem o intui- to de comparar o desempenho entre diferentes atores esportivos (por exemplo, em nível mundial).

O esporte pode ser entendido como a transformação das atividades da cultura corporal das classes populares e da nobreza inglesa em práticas corporais pautadas pelas características do esporte ante- riormente citadas. Esse processo iniciou-se no século XVIII, desenvolvendo-se mais intensamente no fi- nal do século XIX. Foi contemporâneo dos processos de industrialização e urbanização da Inglaterra, e nele tiveram papel fundamental as escolas públicas. A sua origem na Inglaterra é interpretada como um produto da ascensão da nova forma de organização social capitalista daquela época.

O processo de transformação de práticas corporais originadas em contextos não competitivos e, particularmente, não institucionalizadas em modalidades esportivas, assumindo os códigos do esporte de rendimento (comparação objetiva de desempenho, regras oficiais únicas, institucionalização, racio- nalização das práticas/treinamento na busca da maximização do desempenho), possibilita um grande referencial comparativo do que possa diferenciar o jogo do esporte.

  • FENSTERSEIFER, E. e G.; Fernando J. (orgs). Dicionário crítico de educação física. Ijuí: Editora Unijuí, 2005. p.170-173.

 

 

Já é possível, para você, diferenciar jogo de esporte? Entremos, en- tão, no último questionamento apresentado.

 

z Os esportes e os jogos só se aplicam de maneira competitiva?

 

 

Você compreendeu que em nosso cotidiano várias situações se ma- nifestam de modo que temos que assumir papéis  diferenciados,  os quais nos conduzem, ou não, à competição? Em determinados mo- mentos não temos como evitá-las, mas em outros, é possível trabalhar de maneira conjunta, buscando resultados benéficos a uma coletivida- de a partir da soma de forças (cooperação).

Se não podemos afirmar que o homem é naturalmente competiti- vo, podemos afirmar então que é naturalmente cooperativo? Mas seria também o jogo cooperativo, competitivo? Vamos discutir essas ques- tões a seguir.

  • diaadiaeducação.pr.gov.br

 

 

z Jogos cooperativos: um exercício de convívio social

 

O jogo cooperativo é um contraponto ao espírito competitivo exa- cerbado pela sociedade capitalista. Nela, o fenômeno da competição

 

 

se reproduz em vários setores da vida social e, segundo Brotto (2002), evidencia-se em lugares e momentos em que não seria necessária a busca desenfreada por sermos os melhores, como se esta fosse nossa única opção.

No jogo cooperativo, em contrapartida, há o favorecimento à pro- moção da auto-estima e a potencialização de valores e atitudes que melhoram o desenvolvimento da sociedade, tais como a solidariedade, a confiança e o respeito mútuo.

Os jogos cooperativos surgiram “há milhares de anos quando mem- bros das comunidades tribais se uniam para celebrar a vida” (ORLICK, cita- do por BROTTO, 2002, p. 47). Povos de várias regiões do mundo – Tasaday/Áfri- ca, Arapesh/Nova Guiné, Aborígenes/Austrália e índios Kanela/Brasil, entre outros – vivem ainda nos dias de hoje de maneira cooperativa, realizando tarefas conjuntas, distribuídas a todos os membros da co- munidade. Cada membro destas comunidades trabalha em prol da co- letividade em que vivem.

Os jogos cooperativos começaram a ser difundidos, no Brasil, na década de 80, quando foi fundada, em Brasília, a Escola das Nações. Nela, os embaixadores de outros países matriculavam seus filhos. A fi- losofia desta escola baseava-se na solidariedade, respeito mútuo e co- operação.

Nos anos seguintes, várias instituições passaram a trabalhar com es- ta concepção de jogo. Em 2001, aconteceu o 2o Festival de Jogos Coo- perativos cujo tema foi “Construindo um Mundo Onde Todos Podem

VenSer” , sendo que o primeiro contanto ocorreu em 1999, no Sesc- Taubaté, com participantes do Brasil e da América do Sul.

 

Características dos Jogos Cooperativos

A principal característica do jogo cooperativo é sua forma de parti- cipação. As atividades são realizadas com o objetivo de proporcionar aos seus participantes a máxima diversão, sem preocupação em com- petir exclusivamente.

O jogo cooperativo proporciona, ainda, o trabalho com valores in- comuns à atual sociedade, cujo objetivo é a competição exacerbada, a

individualidade como única possibilidade. Tra- balha, portanto, a diversidade e reconhecimen- to que uma disputa só é possível se considerar- mos a coletividade.

Pode-se dizer que nos Jogos Cooperativos cada indivíduo representa, com suas caracterís- ticas, uma força que contribui para que todos se sintam contemplados com o resultado final?

Vamos exercitar esta nova forma de viven- ciar o jogo?

 

Vamos exercitar esta nova forma de vivenciar o jogo?

 

 

ATIVIDADE

 

 

Pessoa Para Pessoa

*Para cooperar é preciso aproximar-se mais uns dos outros e da gente mesmo. Que tal jogarmos para diminuir a distância e desfazer as barreiras que nos distanciam?

  • Participação: joga-se com um único grupo e com a participação
  • Espaço: aberto ou fechado, compatível com o número de participantes e livre de obstáculos.
  • Como fazer: reúnam toda a turma e comecem sugerindo a um colega que, em voz alta, diga como as ações devem ser Sugerimos chamá-lo de focalizador.
  • O focalizador deve pedir que todos explorem suas possibilidades de movimentar-se de maneiras va- riadas pelo ambiente (passos largos, passos curtos, saltando em um pé só, rastejando, ou seja, use sua criatividade).
  • Depois de alguns minutos, o focalizador deverá falar em voz alta duas partes do corpo (mão na tes- ta, dedo no nariz, orelha com orelha, cotovelo na barriga, ).
  • A este estímulo, todos deverão formar uma dupla e tocar, um no outro, as partes do corpo faladas pelo focalizador, o mais rápido possível, lembrando que você tocará em uma pessoa no local indi- cado e ela tocará você também no local
  • Quando todos estiverem em duplas e tocando as partes faladas, o focalizador reinicia o processo, propondo a caminhada livre e
  • Após 2 ou 3 dessas combinações, que devem variar, o focalizador pode dizer em voz alta o nome do jogo: “Pessoa para pessoa”.
  • Nesse momento, todos – inclusive o focalizador – devem formar uma nova dupla e abraçar um ao outro, para garantir o
  • Com a entrada do focalizador diretamente no jogo, poderá haver um desequilíbrio numérico: alguém poderá ficar sem par. Como resolver o problema? Uma possibilidade é trabalhar em duplas, trios, quartetos ou conforme o grupo sugerir, desde que não fique ninguém de fora. Outra sugestão é que aquele que não tiver dupla seja, por um curto período de tempo, o focalizador que irá reiniciar o jo- go servindo ao grupo, ao invés de ser servido por ele, evitando-se o castigo ou a exclusão.

(*Esta atividade foi retirada do livro: Jogos Cooperativos de Fábio Otuzi Brotto, 2002, p. 131-132.)

Para você refletir e conversar com seus colegas:

  1. Que dificuldades surgiram ao longo da atividade?
  2. Estas dificuldades foram solucionadas? Como?
  3. Quem participou com sugestões para a solução das dificuldades?
  4. A maioria de nós tem dificuldades para tocar nas Isso aconteceu? Por quê?
  5. Como o grupo ajudou as pessoas tímidas a entrarem na brincadeira?
  6. Faça uma comparação entre as diferenças desta atividade em relação à primeira que você

 

Para que você perceba o quanto pode ser prazeroso fazer uma ati- vidade que envolva ações cooperativas, aqui vai mais uma atividade que possibilita a interação com este tipo de jogo, fazendo com que vo- cê e seus colegas reflitam, um pouco mais, sobre o assunto:

 

ATIVIDADE

 

 

O Barco Cooperativo.

  • Para realizar esta atividade, você e seus colegas irão precisar de canetas coloridas, papéis, ven- das e algo para imobilizar os membros
  • Para iniciar a atividade, divida sua turma em grupos formados por cinco pessoas que deverão posicionar-se sentadas no chão. Caso alguém fique sem grupo deverá participar auxiliando uma pessoa que irá conduzir as ações. Esta pessoa poderá ser seu professor ou sua professora de Educação Física.
  • A tarefa é simples: desenhar um barco num tempo de 5
  • Cada participante fará uma ação de cada vez, passando em seguida o desenho para o outro participante e assim por Cada um, na sua vez, poderá fazer apenas um traço no papel, até que o desenho esteja concluído ou o tempo tenha acabado. Simples, não é?
  • Além de poder fazer apenas um traço por vez, os participantes também deverão ter as seguin- tes características individuais: o participante 1 é cego e só tem o braço direito; o participante 2 é cego e só tem o braço esquerdo; o participante 3 é cego e surdo; o participante 4 é cego e mudo e o participante 5 não tem os braços.

 

  1. Para desempenhar estes papéis, o focalizador pede que os grupos escolham quem será 1, 2, 3, 4 e 5, entregando as vendas para os olhos e tiras de pano para amarrar os braços de quem for esco- lhido como número
  2. Quando os grupos estiverem prontos, o focalizador iniciará a contagem do tempo, deixando que os grupos façam a atividade sem interrupção, permanecendo em silêncio até que o tempo se
  3. Todas as dúvidas que surgirem devem ser esclarecidas pelo próprio grupo e poderão ser retoma- das posteriormente em discussão com o grande
  4. Após o jogo, cada grupo deverá apontar quais foram as dificuldades encontradas, os desafios su- perados e as formas de cooperação colocadas em prática.

Dica: inicialmente, vocês podem fazer esta atividade sem que ninguém represente os papéis pro- postos com as necessidades especiais apresentadas. Depois de se familiarizar com a atividade, num segundo momento, daí sim seria interessante distribuir os papéis que cada um deverá desempenhar.

Lembre-se de que usar a criatividade é fundamental em todos os momentos da atividade.

(**Esta atividade foi enviada para a Revista dos Jogos Cooperativos, 3 ed., 2003, p.21, por Ana Paula Perón e passou por algumas alterações.)

 

 

Nosso objetivo, nesse Folhas, foi lhe possibilitar a análise e a reflexão sobre o problema que levantamos inicialmente. Encerramos provocando-lhe, mais uma vez, com o texto abaixo, de Fábio Otuzi Brotto:

 

z Referências Bibliográficas:

BROTTO, F. O. Jogos cooperativos: o jogo e o esporte como exercício de convivência. Santos: Projeto Cooperação, 2001.

                . Jogos cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar. São Paulo: Cepeusp, 1995 / Santos: Projeto Cooperação, 1997 (ed. Renovada).

BROWN, G. Jogos cooperativos: teoria e prática. São Leopoldo: Sinodal, 1994.

BRUHNS, H. T. O jogo nas diferentes perspectivas teóricas. In: Revista Motrivivência, Florianópolis, ano VIII, nº 9 , Dezembro/1996.

CHAUI, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2003.

FENSTERSEIFER, P. E. e G.; Fernando, J. (orgs). Dicionário crítico de educação física. Ijuí: Editora Unijuí, 2005.

HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.

IWAYA, M. Instituição escolar. In.: Livro Didático Público de Sociologia. Curitiba/PR: Secretaria de Estado de Educação do Paraná, 2006.

LOVISOLO, H. O princípio da cooperação. In: Conferencia Brasileira do Esporte Educacional. Rio de Janeiro, 1996.

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução (do alemão) Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.

PINTO, L. M. S. de M. Sentidos do jogo na educação física escolar. In: Revista Motrivivência, Florianópolis, ano VIII, nº 9 Dezembro/1996.

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

78     Jogos

 

Educação Física

 

 

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O JOGO É JOGADO E A CIDADANIA É

NEGADA

  • Fabiano Antonio dos Santos1

Se você fosse convidado a participar de um filme cujo roteiro fosse buscar um tesouro perdido, topa- ria o desafio?

E se a história girasse em torno da busca da chama- da cidadania, e, ao invés de um filme, você protago- nizasse um jogo: “Em busca da cidadania perdida”? E se esse jogo fosse diferente de tudo que já tenha visto ou praticado, constituído de estações referen- tes a elementos relacionados à cidadania?

Você saberia dizer, prontamente, de onde vem o ter- mo cidadania? E mais, saberia identificar quem são os atuais cidadãos de sua cidade? O que significa ser cidadão? Quais questões estão ocultas no conceito de cidadania?

É justamente a partir dessas questões que o convida- mos a fazer parte do elenco desse jogo bastante dife- rente e intrigante. No entanto, algumas informações são fundamentais para sua participação efetiva.

 

 

 

 

1Colégio Estadual Padre João Wislinski. Curitiba – PR

 

 

O jogo é jogado e a cidadania é negada                        79

 

Ensino Médio

 

 

 

 

z O grande jogo

 

O jogo será constituído por três estações que você percorrerá com seus colegas com a finalidade de realizar os desafios propostos. A ca- da estação realizada, você deverá dirigir-se à próxima, até que tenha transcorrido todas as três. A turma deverá ser divida em três equipes e cada uma deverá ter um nome.

O enredo da nossa história começa numa região onde viviam mui- tas pessoas advindas de diversas localidades, unidas por um único ide- al: descobrir o paradeiro da cidadania. As pessoas que ali viviam es- tavam bastante desorientadas, cansadas das ordens absurdas do chefe daquela região e decididas a retirá-lo do poder. Para tanto, era preci- so que a cidadania fosse recuperada, conforme alertou o grande mes- tre da região: “Somente quando o povo descobrir sua identidade, terá condições de reconquistar o poder. E isso só ocorrerá quando encon- trarem a cidadania”.

As leis criadas pelo poderoso chefe não consideravam a po- pulação, mas atendiam somente os interesses de algumas pessoas importantes. A população mais pobre era obrigada a cumprir as ordens sem questionar, sob a justificativa de que todos eram res- ponsáveis pelo bom desempenho da região por meio do cum- primento dos deveres impostos pelo grande chefe, os quais en-

volviam leis e regras visando à ordem.

É importante ressaltar que essas medidas eram tomadas por um grupo de pessoas que se reuniam em locais fecha- dos, quase sempre sem a participação do povo e que as leis e regras visavam aos interesses da elite. Era costumeiro, na- quela região, que o salário da população pobre fosse deci-

dido pela elite, o que fortalecia as desigualdades.

Para que nossa história continue, é preciso que você destaque da turma alguns personagens: o mestre, que se- rá o condutor da atividade e dará as orientações para as equipes. Sugerimos que este personagem seja seu professor

ou sua professora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mestre

80     Jogos

 

Educação Física

 

 

 

 

 

 

O chefe: deverá impedir que o obje- tivo do jogo seja atingido. Para tanto, deverá elaborar leis que  confundam os participantes dos outros grupos.

 

 

 

 

 

 

O/A Homem/Mulher do tempo: terá o papel de ficar na estação da História da cidadania. Será o responsável por julgar as equipes quando cumprirem a prova determinada para tal estação.

 

 

 

 

 

Aluno/a de Educação Física: será o res- ponsável para julgar as equipes que pas- sarem pela segunda estação com o obje- tivo de cumprir a prova.

 

 

 

 

 

 

 

 

O grande Cidadão: Será responsável por julgar as equipes que passarem pela estação referente aos direitos e deveres.

 

 

 

 

 

 

Agora que você já sabe como será nossa história, que personagens serão necessários para que o jogo se realize, é hora de conhecer um pouco sobre a cidadania, e alguns dos elemen- tos que a constitui. Iniciamos nossa viagem no tempo, da Grécia Antiga até o período Contem- porâneo, passando pela Idade Média e ainda pela Revolução Francesa. Antes disso, o convida- mos a conhecer o jogo jogado e o jogo jogante.

 

 

 

O jogo é jogado e a cidadania é negada                        81

 

 

z O Jogo jogado e o jogo “jogante”

Talvez você se pergunte o que um jogo teria a ver com a cidadania.

Façamos uma comparação pensando num jogo que envolva muitos jo- gadores. Podemos compará-lo com as relações que se estabelecem en- tre os grupos e as classes de uma sociedade. Tanto para os participan- tes do jogo quanto os das diferentes classes sociais há regras a serem seguidas, lógicas pré-estabelecidas, valores considerados importantes, etc. Essas coisas já estabelecidas organizam o “jogo jogado” (FALCÃO, 2006). Quando queremos mudar as regras, as lógicas, e propor novos valo- res, temos que criar o “jogo jogante”, aquele que pressupõe uma trans- formação no jogo jogado ou na organização social dada.

Tendo como perspectiva mecanismos que possibilitem a transfor- mação do jogo jogado, propomos que se elabore, aos poucos, o jogo jogante – aquele que ainda está em construção e transformação.

Discutir sobre o conceito de cidadania e suas faces tem estreita rela- ção com o jogo jogado, porém é fundamental, se quisermos jogar o jo- go jogante, visualizar formas alternativas de viver na atual sociedade.

Se você estabelecer a relação do jogo jogado com a prática corporal, terá como visualizar o que estamos falando. Pense num jogo que, por princípio, tenha como características a exclusão e o individualismo (va- lores bastante difundidos no jogo jogado pela atual sociedade). Tal jogo, ou brincadeira, poderia ser a simples dança da cadeira. Quem não senta a tempo na cadeira, sai do jogo, certo? No entanto, se procurarmos intro- duzir, nesta brincadeira, valores que possam se manifestar no jogo jogan- te – aquele que ainda está por vir –, teremos condições de torná-lo mais interessante, possibilitando a participação de todos, sem que nenhum jo- gador fique à margem das ações tomadas. Poderia, portanto, tirar uma cadeira, ao invés de um jogador, fazendo com que as pessoas chegassem a um acordo a fim de que todos continuassem na brincadeira.

Este exemplo deixa mais clara a relação entre o jogo jogante e o jo- go jogado? Qual seria a nova lógica do jogo/dança das cadeiras? Qual seria o sentido da dança? O que se pretende com tais formas de se jo- gar, e o que isso representa na atual sociedade?

A partir de agora, o jogo começa para valer, esperamos que você esteja preparado para essa aventura, aproveite, corra bastante, divirta- se e aprenda um pouco mais sobre “a cidadania perdida”!

z Primeira estação: Que História é essa de Cidadania?

O conceito de cidadania possui amplo significado, abrangendo vá-

rias dimensões, as quais vêm se constituindo ao longo dos anos. Você sabia que é possível distinguir uma cidadania para o indivíduo e ou- tra para a coletividade?

 

 

 

A cidadania individualizada trata dos di- reitos e dos deveres de cada indivíduo, reme- tendo aos direitos civis e políticos. Seu surgi- mento se deu nos séculos XVII e XVIII, com a ascensão da burguesia  ao  poder,  na  Euro- pa Ocidental, e com a Revolução Francesa de 1789. Surgiu graças à nova organização social, voltada para a valorização do indivíduo em de- trimento da antiga organização social que im- possibilitava um processo de singularidade. A cidadania individual pressupõe liberdade e au- tonomia dos indivíduos, impera a livre compe- tição, havendo “respeito” por parte de todos à livre expressão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Pólis Grega

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pólis Grega: “Ela pode ser definida como uma ‘comuni-

 

Esse tipo de cidadania precisa de um árbitro que faça mediação na sociedade. Tal função é, segundo os liberais, ocupada pelo Estado. O que se destaca é a luta por direitos civis expressada, principalmente, pela conquista do direito de voto. Então, o que você pensa sobre es- se conceito de cidadania? Qual a relação desse conceito com o perío- do histórico que ele surgiu?

Outro conceito apontado para a cidadania trata de sua perspectiva coletiva. Seu surgimento remonta às origens do cidadão da pólis gre- ga, principalmente em Atenas nos séculos VI a IV a.C. Para ser consi- derado cidadão, era necessário ser descendente, até a 3a geração, de homem e mulher ateniense. Outra exigência era ser homem. Ao se- rem considerados cidadãos, os homens podiam participar diretamen- te da formulação de projetos, leis, bem como gestar a pólis por tem- po determinado.

Outra forma de se compreender a cidadania coletiva remonta a contemporaneidade, e está vinculada às classes sociais. No modo de produção capitalista, o conceito de cidadania vincula-se aos interesses de classe, tendo como grande objetivo, principalmente a partir do li- beralismo, organizar a sociedade de maneira que as desigualdades so- ciais sejam camufladas ou amenizadas. As concepções de liberdade e igualdade vêm servindo, historicamente, para que as desigualdades e as arbitrariedades da classe dirigente sejam encobertas.

dade autônoma politicamen-

te,’ uma cidade-estado, ain- da que estes conceitos não exprimam perfeitamente to- das as suas características, pois além de sua indepen- dência política, a pólis ide- al deveria ser auto-suficiente no plano econômico.” (FLO- RENZANO, 1982, p. 24)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • IV Congresso Nacional do MST

 

 

 

 

 

No Brasil Imperial (1822-1889), eram considerados cidadãos aque- les que possuíam número considerável de terras e de escravos e, pos- teriormente, aqueles que detinham propriedades. Há um ponto impor- tante que você deve se atentar: na história do conceito de cidadania, o termo em princípio, foi utilizado como forma de distinção entre cida- dãos e não-cidadãos.

Atualmente o discurso oficial fala de igualdade de oportunidades e da liberdade como valores importantes na busca da plena cidadania. Resta saber quem possui liberdade real para gozar das oportunidades, visto que tanto o número de favelas quanto o número de pessoas mi- seráveis aumentam a cada dia nas cidades e no campo.

Ser cidadão na atualidade, segundo o discurso oficial, parece es- tar ao alcance de qualquer um, pois, perante a lei, todos somos iguais. No entanto, essa igualdade deve ser buscada por meio do esforço in- dividual. Propagandas sobre a responsabilidade individual em busca da cidadania são anunciadas diariamente com objetivos bastante con- fusos a princípio.

 

z Segunda Estação – Cidadania: inclusão excludente?

A história oficial sempre foi aquela contada pelos vencedores. Assim, o discurso sobre o “descobri- mento” do Brasil (1500) ou as vitórias dos gran- des comandantes, como Alexandre (356-323 a.C.)

e Napoleão Bonaparte (1769-1821), têm destaque perante a versão dos vencidos e humilhados.

No Brasil, com a abolição da escravatura em 1888, ocorrida tanto por pressões dos próprios escravos, quanto do capitalismo inglês, estabe- leceram-se, aos poucos, relações tipicamente capitalista; entre elas, o trabalho assalariado.

Para que a posse da terra não saísse das mãos da elite, criaram-se mecanismos legais que dificultavam  ao  novo  cidadão  o  aces- so à  propriedade  privada.  Um  exemplo  foi a Lei de terras de 1850, que tornou a pos- se ilegal, exigindo, daqueles que ocupavam

 

 

 

as terras, o título registrado e elevando mui- to o valor das propriedade rurais. Assim, para se tornar proprietário de terras, era preciso ter muito dinheiro em mãos, o que impossibilita- va os pobres e os ex-escravos de tornarem-se donos de áreas rurais.

Vale lembrar de que a propriedade capita- lista, na época, estava sustentada por valores liberais, como: liberdade, fraternidade e igual- dade. Ora, se liberdade era um valor universal naquela época, como explicar que alguns te- riam possibilidades de possuir terras e outros não? Simples, pelo conceito liberal de cidada-

  • CÂNDIDO PORTINARI, Café, 1935, óleo sobre tela, 130×195 cm; Museu Nacional de Belas Artes; Rio de

 

nia. Somente possuiriam terras aqueles que se enquadrassem nas de- terminações necessárias ao que se entendia por cidadão. Dessa forma, ficavam de fora desse conceito os trabalhadores que possuíam tão so- mente seus braços para trabalhar. Devido a isso, ser cidadão naquele momento era um privilégio de alguns e não de outros.

Pode-se fazer um paralelo entre exclusão social e as práticas corpo- rais de suas aulas de Educação Física. Digamos que hoje sua aula é de qualquer esporte, seja futebol, voleibol, enfim, qualquer dos chama- dos “bols”. Se você é um grande praticante, teve uma vasta experiência motora nesta modalidade, logo fica entusiasmado, já que terá oportu- nidade de praticar o que mais gosta de fazer. Por outro lado, seu cole- ga, que não teve a mesma oportunidade de experimentar esta modali- dade, seja por falta de interesse ou qualquer outro motivo, não terá o mesmo entusiasmo, certo?

Imagine agora a cena da aula se construindo, você começa a jogar. Antes disso, logicamente escolhe os melhores colegas, aqueles que co- mo você tiveram oportunidade de praticar a mesma modalidade, ad- quirindo habilidades motoras condicionantes com sua prática. A aula começa, você joga por 40 minutos, chega a cansar, suar, e pede para descansar um pouco. Termina a aula e você pensa: “puxa vida, hoje eu joguei bem. Nossa, como joguei!”.

 

 

Parece-lhe uma cena normal, natural, sem maiores implicações, cor- reto? Ainda pode perguntar o que esta história tem a ver com o prin- cípio comentado acima sobre a exclusão, na concepção de cidadania elaborada no início do capitalismo em nosso país. Bem, vamos retroce- der um pouco a fita e lembrarmos dos personagens dessa história.

Havia você, um belo praticante da modalidade esportiva, mas havia também aquele/a seu/sua colega que não teve contato suficiente com a modalidade, lembra? Pois bem, agora preste atenção na versão dele/ a da aula de Educação Física:

Bem, ele/a chegou no local onde a Educação Física ocorreria, es- tava ao seu lado, observou você escolher os/as melhores/as jogado- res/as e, sabendo que não seria escolhido/a, dirigiu-se a um local para se sentar e observá-lo/a jogar. Ele/a ficou toda a aula sentado/a, sem oportunidade para jogar, excluído/a de toda a prática desenvolvida nos 40 minutos que você jogou.

Mas como você tem argumento para tudo, deve responder: “Sim, mas ele/a não jogou porque não quis, e tem mais, ele/a é ruim mesmo”. Ou “mulher não sabe jogar, só serve para assistir, torcer por nós”.

Contrariamente aos seus argumentos, acreditamos que este/a seu/ sua colega não domina os movimentos básicos do jogo por não ter oportunidade. As pessoas se constroem, ou seja, são o que são, em função das oportunidades que tiveram e têm.

Exclusão do cidadão, exclusão do aluno, será que a vida imita a ar- te? Será que são meras coincidências? Ou são fatos que estão coloca- dos na sociedade e na aula de Educação Física e não conseguimos vê- los com criticidade?

O discurso sobre exclusão/inclusão social tem, hoje, uma força de ilusão que acoberta as dificuldades que a humanidade tem encontra- do para sobreviver. Na maioria das políticas públicas implantadas no

 

 

Brasil, nas últimas décadas, a idéia de inclusão é tão somente um me- canismo para amenizar desigualdades e minimizar a força política dos discursos sobre exclusão. Exemplos podem ser retirados do desporto de rendimento e da prática corporal.

Tais manifestações são importantes para constatarmos as prioridades dadas às políticas desportivas, como, por exemplo: o significado de um pan-americano, de uma medalha olímpica ou uma copa de futebol per- to do estado de abandono de praças e escolas, em verdadeiro estado de miséria material, falta de equipamentos, de profissionais qualificados. Os elevados investimentos nos grandes eventos esportivos e a espeta- cularização dos mesmos fazem com que a população se “esqueça” das necessidades de sobrevivência e dedique-se às atividades de lazer.

 

z Terceira Estação: Direitos e deveres

 

Vincula-se, atualmente, o conceito de cidadania ao ato de corres- ponder às responsabilidades do indivíduo quanto à execução de de- veres e reivindicações de direitos. Você já ouviu dizer que um bom ci- dadão deve cumprir deveres e lutar por seus direitos? Mas se levarmos em conta quais deveres temos para cumprir ao longo de nossas vidas e com quais direitos podemos contar, veremos que as coisas não são tão simples nem tampouco eqüitativas.

A idéia e o discurso sobre direitos e deveres foram mecanismos criados para justificar práticas de cidadania e ocultar desigualdades. Es- se discurso dá a impressão de que todos estão em igualdade de condi- ções e, para se tornarem cidadãos, é preciso, apenas, que todos cum- pram seus deveres e usufruam de seus direitos.

Porém, como você já deve imaginar, nem sempre os direitos são ofertados de igual forma para as diferentes classes sociais, muito me- nos são exigidos, delas, os deveres.

 

O que, na verdade, aparece como forma de equivaler as desigual- dades, torna-as mais evidente, marcadas por profundas desigualdades sociais. Por exemplo, a famosa igualdade jurídica, baseada na consti- tuição de leis e regimentos, em muitos casos, amplia a dimensão da cidadania construída para poucos. Pesquise, em jornais e revistas, no- tícias de casos reais que exemplifiquem essa afirmação sobre a cida- dania jurídica.

 

 

ATIVIDADE

 

 

Agora que já conhece alguns dos aspectos que envolvem o conceito de cidadania, resta, ainda, ela- borar as provas que serão desenvolvidas pelo restante da turma. Lembre-se de que o jogo deve possi- bilitar uma (re)interpretação dos fatos, e a criatividade é fundamental. As estações precisam ter relação com as discussões feitas nesse Folhas. Deve-se:

contemplar as distintas maneiras de conceituar cidadania, e como este conceito serve na atualida- de para ocultar as visíveis desigualdades;

conter uma atividade que incentive a discussão sobre inclusão e exclusão e o que isso significa em nossa sociedade;

discutir criticamente as diversas armadilhas que os preceitos sobre os direitos e deveres apresentam. Como possibilidades de provas, você poderá verificar tais questões em sua escola, comunidade,

ou até mesmo na sua cidade. Poderá, também, realizar pesquisas, cumprir tarefas práticas, testar seus

amigos de escola, enfim, criar atividades que não se encerram em uma aula, mas envolvem uma série de pessoas, o que tornaria o jogo ainda mais interessante.

Ao final do jogo, terá condições de verificar que a chamada cidadania está muito próxima e, ao mes- mo tempo, distante de sua realidade e que sua busca pode estar ao alcance de todos, inclusive ao seu alcance.

Sugestão de provas

As provas propostas estão colocadas aqui apenas a título de exemplo. Cabe a você, junta- mente com seus colegas e professor, criar outras provas. Como poderá notar, as atividades de- vem ser dinâmicas, fazendo com que você mobilize sua equipe o mais rápido possível para que a prova seja cumprida.

 

Primeira estação

Como a proposta da primeira estação é discutir os aspectos históricos da cidadania, poderia ser realizada uma prova pautada nos jogos de interpretação. Poderia elaborar um roteiro de imagens, com objetivo de instrumentalizar a interpreta-

ção. Por exemplo, se o roteiro de ima- gens for sobre a cidadania coletiva, será interessante buscar aquelas que mos- trem movimentos sociais com reivindi- cações, seja de ordem econômica e/ou cultural. Você, de posse das imagens, se reunirá com sua equipe e as interpre- tará. O/A Homem/Mulher do tempo se- rá responsável por julgar o cumprimento ou não da prova.

 

 

 

 

 

z Referências Bibliográficas:

ARAÚJO, A. M. C. (org.) Trabalho, Cultura e Cidadania. São Paulo: Scritta, 1997.

BUFFA, E. Educação e cidadania burguesas. In: BUFFA, E.; ARROYO, M.; NOSELLA, P. (Orgs). Educação e a cidadania: quem educa o cidadão? 10 ed. São Paulo: Cortez, 2002. (Coleção Questões da nossa época) p. 11-30.

FALCÃO, J. L. C. O jogo da capoeira em jogo. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 27, n. 2, p. 59-74, janeiro, 2006.

FLORENZANO, M. B. O mundo antigo: economia e sociedade. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.

GOHN, M. G. História dos movimentos sociais e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. São Paulo: Loyola, 1995.

MORAES, R. C. Corrêa de. Liberalismo e Neoliberalismo: uma introdução comparativa. In: Revista Primeira Versão, Campinas-SP, nov/1997.

 

 

 

z Ginástica

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  • CÂNDIDO Me- ninos brincan- do, 1955. Óleo sobre tela; 60 X 72,5 cm; Cole- ção Particular; Rio de Janeiro.

 

Você sabia que a ginástica surgiu no século XIX como forma de

“educar o corpo”? É isso mesmo! Você está convidado a viajar na his-

o

tória da ginástica para conhecer um pouco mais sobre este Conteúdo Estruturante.

Então vamos viajar para a Europa e dar uma “paradinha” no século

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XIX. Neste período, a ginástica tinha finalidade de constituir um cor- po saudável, afastando-o das doenças que cresciam juntamente com a população dos grandes centros urbanos. A ginástica foi usada co- mo prática de poder das elites perante a nova classe pobre urbana, e sob a condição de ciência, buscou posicionar o corpo de forma retilí- nea, utilizando, para tanto, da anatomia, da fisiologia, da higiene, den- tre outras áreas desta natureza. Ela se constituía numa forma de educar gestos e comportamentos, tão necessários para a ordem social daque- la época.

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Foram criados os chamados métodos ginásticos em diferentes paí- ses. Para melhor compreender a importância destes métodos, veja os Folhas intitulados: “O circo como componente da ginástica” e “Ginásti- ca: um modelo antigo com roupagem nova? Ou uma nova maneira de aprisionar os corpos?”.

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Você saberia responder como a ginástica é apropriada pela socieda- de capitalista? E como chegou ao Brasil? Para isso, é necessário lembrar que o Brasil, no século XIX, sofria influência européia e também pas- sava por algumas transformações, como, por exemplo, o crescimento das cidades devido à ampliação da sociedade capitalista.

0     Ginástica

Havia, então, a necessidade de fazer com que as pessoas se ade- quassem ao novo modelo econômico vigente. Para isso, medidas fo- ram tomadas e a ginástica foi fundamental na aplicação dos preceitos de moralidade e para instaurar a ordem social naquele momento his- tórico.

 

 

 

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O principal responsável por implementar a ginástica aqui no Brasil foi Rui Barbosa. Importante figura na história brasileira, realizou estu- dos relacionados à saúde do povo brasileiro, empregando a ginástica como fator decisivo para tal objetivo. Desta forma, e com este objeti- vo, a ginástica chegou às escolas, da mesma forma que fora pensada para a saúde coletiva do povo brasileiro e com forte influência da ins- tituição militar.

Como as aulas de ginásticas começaram a ser desenvolvidas nas au- las de Educação Física? Como é atualmente a ginástica da escola?

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Da mesma forma que outros Conteúdos Estruturantes, a ginástica deve ser pensada de acordo com as necessidades da escola, para não ser reduzida e submetida aos modelos dos jogos olímpicos e das gran- des competições destinadas à modalidade. Mas será que a ginástica se resume a esta modalidade? Que outras formas a ginástica podem ser apresentadas?

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Se disséssemos que a ginástica está relacionada ao circo, você acre- ditaria? Pois é verdade, e para conferir esta possibilidade de praticar gi- nástica de forma divertida, leia o Folhas que discute o circo.

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E o seu corpo? Como você viu, a ginástica surge com objetivos de regular o corpo conforme padrões estabelecidos pela elite dominante, certo? Será que os modelos de ginástica do século XIX são diferentes daqueles que temos hoje? Vamos discutir esta e outras questões no Folhas: “Ginástica: um modelo antigo com roupagem nova? Ou uma nova maneira de aprisionar os corpos?”.

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E os atletas que praticam ginástica, como são seus corpos? Talvez você responda que são corpos perfeitos, “sarados”, porém, no fundo, são corpos que estão no limite de suas funções, suscetíveis a diversas contusões. Os benefícios da prática da ginástica para seu corpo po- dem ser muitos, desde que sejam respeitados seus limites. Para melhor compreender as relações entre a prática da ginástica e os segredos de seu corpo, consulte o Folhas: “Os segredos do corpo.”

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Como você deve ter percebido, a ginástica aqui apresentada deve estar relacionada com a realidade escolar, o que significa adequação de atividades e formas de encaminhamento que contemplem a diver- são e a importância de estarmos atentos às questões que se referem ao corpo.

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Esperamos, a partir de agora, que você incorpore cada uma das per- sonagens que serão apresentadas, sejam elas circenses ou não. Dessa forma, chegará ao final desses Folhas conhecendo um pouco mais so- bre história, sobre o corpo como mercadoria e sobre a ginástica.

 

 

O circo como componente da ginástica    9

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Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

92     Ginástica

 

Educação Física

 

 

6

O CIRCO COMO COMPONENTE DA

GINÁSTICA

  • Felipe Sobczynski Gonçalves1

 

 

 

Certamente você já ouviu falar sobre Ginástica, mas já se preocupou em refletir sobre: como ela se ori- ginou? Quais são suas diferentes vertentes? A quem ela interessava? Quais são suas influências em nos- sas atividades cotidianas?

Neste Folhas, discutiremos com você uma das pos- sibilidades da ginástica a ser desenvolvida nas aulas de Educação Física. Para que nossos diálogos sejam profícuos, mergulharemos numa história em que os personagens principais serão vocês, alunos.  Para que nosso espetáculo seja  divertido,  alegre,  mas, ao mesmo tempo, sério e reflexivo, precisaremos da dedicação de todos, de uma ação coletiva.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Departamento de Ensino Médio – SEED/PR

 

 

O circo como componente da ginástica                       93

 

 

z A ginástica entrando em cena

 

Antes de abrirmos as cortinas e acendermos as luzes para que o es- petáculo comece, necessitamos compreender como ocorreu o desen- volvimento da Ginástica, e que marcas ela imprime no corpo.

A ginástica veio tornar real e visível aquilo que Carmen Lúcia Soa- res chama de “corpo educado”. Compõe, também, o denso registro de saberes que se constituem a partir da tomada do corpo como objeto de cuidados. Vejamos quando e onde tudo isso começou.

 

“O ‘corpo educado’ é o resultado da paciente e lenta elaboração de formas distintas de intervenção dirigida do exterior com a intenção de atingir a alma humana”. (SOARES, 1997, p. 6)

No séc. XIX, na Europa, a Ginástica passou a ter um caráter de cien- tificidade, consolidando-se como um dos mais importantes novos códi- gos de civilidade. Essa atividade teve total influência na “educação do corpo”, pois reformava completamente o corpo, o qual passou a os- tentar uma simetria como nunca teve antes. Para aquele momento his- tórico, interessava o corpo disciplinado, educado e modelado para as novas necessidades sociais.

 

“O corpo reto e o porte rígido comparecem nas introduções dos estudos sobre a Ginástica no sé- culo XIX. Estes estudos, carregados de descrições detalhadas de exercícios físicos que podem moldar e adestrar o corpo imprimindo-lhe este porte, reivindicam com insistência seus vínculos com a ciência e se julgam capazes de instaurar uma ordem coletiva. Com esses indícios, a Ginástica assegura, nes- te momento, o seu lugar na sociedade burguesa” (SOARES, 1997, p. 8)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Circo Beverly Acrílico. Sara- tosa. High School, Flórida, EUA.

A prática da Ginástica realizada simultaneamente em vários países da Europa, especialmente na Alemanha, Suécia, Inglaterra e França, ao longo de todo o século XIX, fez nascer o chamado Movimento Ginás- tico Europeu. Esse movimento se constituiu a partir das relações coti- dianas, dos divertimentos e festas populares, dos espetáculos de rua, do circo, dos exercícios militares, bem como dos passatempos da aris- tocracia.

Para que esse movimento tivesse aceitação e passasse a fazer par- te da educação dos indivíduos, além de possuir o princípio de ordem e disciplina coletiva, deveria romper completamente com seu núcleo primordial que era o divertimento. A ginástica passou a se destacar nos círculos intelectuais, quando se tornou científica e despertou o in- teresse da burguesia. Essa classe social utilizaria a ginástica como um instrumento disciplinador de posturas, ações e gestos, que contribui- ria para que os indivíduos adquirissem noções de economia de tem- po, de gasto de energia e de cultivo à saúde. Como nesse período as indústrias ganhavam força, era preciso que fosse apresentada ao tra- balhador uma atividade de caráter ordenativo, disciplinador e metódi- co – a Ginástica.

 

Em contraposição aos interesses da burguesia européia do século XIX, mas contemporâneas a ela, os artistas realizavam práticas corpo- rais descompromissadas, simples espetáculos em feiras e circos, onde palhaços, acrobatas, gigantes e anões despertavam, na população, vá- rios sentimentos, entre eles, o assombro e o medo.

Antes de discutirmos essa contraposição, façamos o seguinte exer- cício:

 

 

 

PESQUISA

 

 

  1. Procure, em jornais ou revistas, qual é o modelo de padrão corporal apresentado hoje pelos meios de comunicação de massa (a televisão, o rádio, as revistas, os jornais). Observe se existem relações com o código de civilidade na Europa do século XIX no que diz respeito à ginástica. Discuta em gru- pos com seus colegas e monte um painel com as reportagens escolhidas. Em seguida, apresente para a turma.

 

z Circo!!! E isso é ginástica?

 

Ao entrarmos no mundo mágico do circo, precisamos entender um pouco melhor suas origens e desenvolvimento.

Não podemos datar com exatidão quando a atividade corporal cir- cense foi originada, no entanto, Torres, ao citar Ruiz, coloca que

 

“… o remoto ancestral do artista de circo deve ter sido aquele troglodita que, num dia de caça surpreendentemente farta, entrou na caverna dando pulos de alegria e despertando com suas caretas, o riso de seus companheiros de dificulda- des” (RUIZ, R. apud TORRES, A. O Circo no Brasil. Rio de Ja- neiro: Funarte, Editora Atrações, 1998, p.13)

 

De acordo com Castro (1997), os primeiros registros sobre artes circenses foram encontrados na China, em pinturas de quase 5.000 anos onde aparecem acrobatas, contorcionistas e equilibristas. A acrobacia, por exemplo, era uma forma de treinamento para os guerreiros, cuja função social exigia agilidade, flexibilidade e força.

No entanto, as raízes da arte circense se fazem presen- tes em toda antiguidade clássica, desde os hipódromos da Grécia antiga até o grande Império Egípcio. Nas pirâ- mides do Egito, os primeiros sinais dessa arte estão gra- vados em desenhos de domadores, equilibristas, malaba- ristas e contorcionistas.

 

 

Contudo, foi na Europa que o circo ganhou força e se desenvolveu. Os espetáculos tomaram impulso no Império Romano, em anfiteatros cujas apresentações mais tarde seriam classificadas como atividades circenses. A importância e a grandiosidade desses espetáculos podem ser demonstradas pelo Circo Máximo de Roma (40 a.C). No lugar em que esse Circo se instalava, foi criado, mais tarde, o Coliseu, que com- portava mais de 87 mil espectadores e apresentava excentricidades co- mo gladiadores, animais exóticos, engolidores de fogo, entre outros.

Porém, os espetáculos realizados no Coliseu tornaram-se sangren- tos, com cristãos jogados às feras e isso teve como conseqüência uma redução no interesse pelas artes circenses. No final do Império Roma- no, os artistas circenses passaram a se apresentar, então, em locais pú- blicos, como praças e feiras (CASTRO,1997).

De acordo com Soares (1998), o circo no Renascimento deslocava os habitantes das vilas e cidades de suas rotinas simples que envolviam apenas trabalho e descanso. O circo rompia com a ordem estabelecida ao proporcionar, sobretudo, diversão e encantamento ao público. Era uma arte do entretenimento.

O circo se apresentava como uma atividade de grande fascínio na sociedade européia do século XIX. O corpo era o centro do espetácu- lo das “variedades” apresentadas pela múltipla atuação de seus artis- tas. Pode-se dizer que o circo surgia como a encarnação do espetácu- lo moderno e seu sucesso era inegável nas diferentes classes sociais que assistiam ao mesmo espetáculo, embora em dias e horários dife- rentes.

 

z Mudanças no circo contemporâneo?

Para quê e para quem?

 

Hoje podemos dizer que além dos circos itinerantes e dos circos tradicionais ou circo família, temos o circo contemporâneo.

Diversos fatores levaram a mudanças na organização e administra- ção do circo. Inicialmente quem dirigia os circos eram as famílias de artistas. Pai, avô, tios, filhos e sobrinhos eram responsáveis por tudo, desde a infra-estrutura e montagem até o espetáculo. O mundo da fa- mília circense era circunscrito pela lona do circo.

Com o surgimento dos grandes centros urbanos e com o desen- volvimento tecnológico, apareceram novas formas de entretenimento, como a televisão, cinema, teatros, parques de diversão, e o circo foi perdendo espaço e público. Para Torres (1998, p.45), “na verdade o circo adaptou-se aos novos tempos do mass media” (aos meios de comuni- cação de massa). “Tornou-se performático”, mas sem esquecer a maio- ria das atrações de antigamente. É preciso destacar, no entanto, que os

 

 

circos pequenos que se apresentam principalmente nas cidades do in- terior ainda mantêm as antigas “tradições”.

Quanto aos que se adaptaram aos novos tempos, a primeira mu- dança que ocorreu foi na relação familiar. Os filhos dos proprietários dos circos passaram a se dedicar aos estudos e trabalhar como admi- nistradores do circo, não mais como artistas. O circo tornou-se uma grande empresa.

Duas conseqüências decorreram dessas mudanças: a primeira é que os novos “empresários” têm do circo uma visão menos sentimental. Pa- ra eles o circo é um negócio que tem que dar lucro. A segunda é que, para suprimir a demanda de artistas, já que as famílias circenses ago- ra cuidam da administração, surgiram as escolas de circo, que formam novos artistas. Estes não fazem parte da família e a relação que se es- tabelece é de patrão e empregado.

Da mesma forma que um funcionário que vende sua força de tra- balho, o artista de circo trabalha por um salário. Sua força de trabalho tornou-se, também, mercadoria.

Com essas mudanças, observamos uma perda das características culturais originais do circo, pois não se tem mais a transmissão familiar dos conhecimentos circenses, salvo em algumas exceções.

As mudanças ocorridas na administração do circo moderno ajuda- ram também a criar uma nova categoria de circo, conhecida como “no- vo circo”. Na opinião de Baroni (2006), o circo contemporâneo se ca- racteriza por uma mescla de práticas, das quais podemos destacar a dança, o teatro, a técnica, a estética e os elementos da tecnologia como luz e som. Trata-se de um modelo artístico de circo em que não basta ser hábil, mas é preciso que se conte algo. Para sua efetiva realização, os artistas precisam ser polivalentes. O modelo mais expressivo deste tipo de circo é o canadense Cirque du Soleil.

 

 

z Hoje tem circo? Tem sim senhor!

 

Reeeeeeeeeespeitável público!… A partir de agora, vocês não serão mais espectadores, mas farão parte do espetáculo. Não podemos esquecer que devemos re- fletir sobre aquilo que estamos realizando e relacionar com a nossa sociedade.

Vocês estão prontos para entrar no picadeiro? Para enfrentar a platéia que está ansiosa pelo show? Convi- do então os primeiros artistas a entrarem em cena: Os Malabaristas!!!

 

 

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que há uma enorme diver- sidade de malabares e o número de combinações possíveis para esta prática é infinita e depende exclusivamente do gosto e da habilidade do malabarista. São inúmeros os tipos de materiais e objetos para ma- labares, dentre eles: as bolinhas, as claves, os aros, o diabolo, devil sti- ck, véu ou lenços, etc.

Neste Folhas, nós nos preocuparemos em demonstrar tanto a cons- trução como a seqüência básica com as bolinhas, devido à utilização de material alternativo e barato.

 

ATIVIDADE

 

 

Para a construção das bolinhas, necessitamos de alguns materiais: 9 bexigas; 300 gramas de pain- ço (comida de piriquito); 2 garrafas pet (uma servirá de funil) e 1 tesoura. Seqüência:

  1. corte uma das garrafas pet, deixando-a como um funil;
  2. coloque 100gr de painço na outra garrafa pet, utilizando o funil;
  3. prenda uma bexiga no gargalo da garrafa e faça com que o ar que está dentro da garrafa vá para dentro da bexiga, transferindo o painço na seqüência;
  4. retire todo o ar da bexiga e amarre-a;
  5. corte as outras duas bexigas, mais ou menos na altura do gargalo e encape a primeira bolinha;
  6. faça o mesmo com o restante do material e utilize sua criatividade para dar mais brilho às

 

Após a confecção das bolinhas, passaremos à prática do malaba- rismo.

Na seqüência, temos algumas instruções para que você aprenda o malabarismo estilo cascata com 3 bolinhas. Este serve de ponto de par- tida para outros truques mais complexos, tanto de bolinha como aros, claves, lenços, etc.

 

 

 

 

z Para além dos feitos solitários construídos em solidão

 

A partir desses dois textos de referência, vocês saberiam dizer de quem estamos falando? Exatamente, os próximos artistas a entrarem em cena, são os Acrobatas!!!

Esses artistas com suas acrobacias, ou seja, saltos, cambalhotas e piruetas, que buscam o al- to, o baixo e o vazio, causam impacto, estranheza, encantamento e despertam o medo.

 

 

 

 

  • PORTINARI, Picadeiro, 1957. Desenho a grafite/papel,

34.5 x 49cm (aproximadas); Rio de Janeiro, RJ. Coleção particular, Rio de Janeiro

Para Carmen Lúcia Soares, “(…) há no corpo desses artistas, no es- petáculo que eles oferecem, algo convulsivo, de feérico que vive e se expressa em outra lógica. Algo que se opõe à domesticação do cor- po que é submisso à razão instrumental. (…) Seus saltos são como gri- tos num escuro existencial e político de uma sociedade mergulhada no cinzento da indústria e da fábrica, na miséria ambulante das socieda- des” (SOARES, 2001, p. 36-37).

Podemos dizer que os acrobatas e as acrobacias, da mesma forma que o mundo do circo e das feiras, citados anteriormente, são comple- tamente diferentes, pois não temos condições de prever o que realiza- rão na seqüência de suas apresentações, vivenciamos assim momen- tos de surpresas.

Nesse instante, gostaríamos de propor algumas atividades relacio- nadas com o  tema, para  podermos  superar nossos  medos, no  intuito de deixarmos nossas limitações no que se refere às acrobacias.

 

ATIVIDADE

 

 

  1. Rolamento para frente (cambalhota para frente):

É um exercício simples para você aprender a cair e não se machucar, além disso, melhora sua fle- xibilidade e agilidade. Para este exercício, pode utilizar colchões, colchonetes, tatames ou até mes- mo um gramado. Seqüência:

  • Fique agachado, com os braços estendidos em frente do Evite manter o corpo relaxado e os braços flexionados;
  • Inicie o movimento desequilibrando o corpo para frente. Apóie as mãos no colchão. Eleve os qua- dris e, ao mesmo tempo, comece a empurrar o colchão, mas sem estender as pernas, que devem estar unidas;
  • Dê um impulso com os pés, sem esticar as pernas, e empurre o corpo para Encoste o queixo no peito para não deixar que a cabeça toque o colchão. Procure não separar as pernas, nem apoiar a cabeça no colchão;
  • Para fazer com perfeição o movimento, mantenha o corpo como uma As pernas devem estar unidas e flexionadas até o fim do movimento. Só as costas devem tocar o colchão. Não estique as pernas;
  • Mantenha as pernas encolhidas e, após completar o giro, toque o solo com os calcanhares. Es- tenda os braços para frente a fim de auxiliar o movimento. Apóie-se na ponta dos pés e permane- ça Procure não completar o movimento com as pernas abertas. Não use as mãos, nem cruze as pernas para se levantar.

 

  1. Rolamento para trás (cambalhota para trás). Seqüência
    • Fique agachado de costas para o colchão, apoiando-se na ponta dos pés, os braços dobrados e as mãos sobre os As palmas devem estar voltadas para cima. Evite apoiar-se sobre todo o pé;

 

  • Desequilibre o corpo para trás, encostando os quadris no colchão. Mantenha a boca fechada e o queixo encostado ao peito. Encolha as pernas. Assim seu corpo ficará como uma bola. Não lance as costas sobre o colchão antes de lançar os quadris;
  • Assim que suas costas tocarem o colchão, coloque também as palmas da mão sobre o colchão.
  • Quando os quadris estivem no alto, você deve usar os braços para auxiliar o Assim vo- cê evita que a cabeça toque o colchão. Mantenha o corpo como uma bola;
  • Após completar o giro, apóie-se na ponta dos pés e volte à posição agachada com os braços es- tendidos para

 

  1. Parada de três apoios (Elefantinho).

A parada em três apoios serve para que você treine o equilíbrio em posição invertida e faz com que músculos importantíssimos sejam exercitados. Seqüência:

  • Fique agachado de frente para o colchão, apoiando-se na ponta dos pés e com o braço estendido para frente;
  • Ajoelhe-se e apóie as mãos no colchão ao lado dos joelhos. Não coloque as mãos mais para frente;
  • Mantenha a cabeça ereta e encoste a parte superior da testa no colchão. As mãos e a cabeça de- vem formar um triângulo. Não coloque a sua cabeça muito próxima às mãos, pois assim você não terá sustentação;
  • Com as mãos e a cabeça apoiadas no colchão, eleve os quadris até atingir a posição vertical. As pernas devem estar Não lance os quadris mais para trás, pois assim você se desequili- brará;
  • Assim que o tronco estiver na vertical, estique vagarosamente as pernas para cima. Mantenha as pernas unidas;
  • Torne a encolher as As duas ao mesmo tempo. Encoste a ponta dos pés no colchão e vol- te à posição inicial.

 

  1. Roda ou Estrela

Apesar de ser aparentemente simples, este exercício exige uma seqüência pedagógica antes de partimos para a execução completa.

A roda ou estrela é um exercício que lhe dará maior coordenação muscular, equilíbrio, agilidade e fle- xibilidade. Como diz o nome, neste exercício você imita uma roda em movimento. Seqüência:

  • Fique de frente para o colchão, corra, estenda os braços para cima e, ao mesmo tempo, avance a perna Não deixe de elevar os braços para cima;
  • Apóie-se na perna esquerda, incline-se para frente e vire o corpo de Levante a perna direita;
  • Apóie a mão esquerda no colchão, lance a perna direita para cima e, em seguida, lance a esquer- Imediatamente apóie a mão direita no colchão. Não flexione os braços;
  • Continue o giro com as pernas Não deixe de elevar as pernas verticalmente;
  • Seguindo o impulso, desequilibre o corpo para a Não deixe que o corpo se desequilibre pa- ra frente ou para trás. Mantenha as pernas separadas;
  • Toque o solo com a perna direita e, ao mesmo tempo, tire as mão esquerda do solo;

 

 

 

 

z Deformação do rosto? Mais um artista no pal- co principal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • PORTINARI, Circo, 1957. Pintura a óleo/tela, 61 x 73.5cm; Rio de Janeiro, RJ. Coleção particular, São Paulo, SP.

A partir do texto de Ana Elvira Wuo, qual é o próximo artista a en- trar em cena? Daremos mais algumas dicas: vivemos numa sociedade marcada pelo caráter de seriedade, onde o riso pode ser considerado uma forma de transgressão da rigidez social. Nosso artista brinca com os valores ditos oficiais e com as diversas instituições, veste roupas di- ferentes e usa maquiagem que ocasionam verdadeiras transformações em seu rosto.

Acredito que você não tenha mais dúvida para responder. Chama- mos agora para o picadeiro: o Palhaço!!!

Esse artista tem grande conhecimento de si próprio, o que possibi- lita a auto-crítica e o melhoramento como ser humano. Da mesma for- ma que os outros artistas, ele também pode ser considerado milenar.

Apresenta as características mais comuns do seres humanos, mas de forma exagerada. Ao mesmo tempo em que é ingênuo, é esperto, considerado um personagem carismático e bondoso, mas que pode re- velar seu lado mal. O palhaço muitas vezes deixa de lado a moral, os conceitos pré-estabelecidos e brinca com o homem, pois consegue ter um olhar “de fora”, ele procura também apontar os seus próprios de- feitos, mostrando que conhece a si mesmo.

É a partir dessas características que consegue trabalhar com a ma- gia contagiante do riso.

 

 

Existem palhaços de diversos tipos e categorias, dentre eles, podemos citar:

 

CARA BRANCA MÍMICO AUGUSTO VAGABUNDO AUGUSTO EUROPEU
Considerado o mais Esse            palhaço Este palhaço é o O palhaço vagabun- Ficou popularizado por rea-
elegante e metido. Sua tem uma carac- mais clássico. É do foi inspirado em lizar trabalhos em hospitais.
forma de apresenta- terística que os sempre vítima do moradores de ruas Não usa fantasia (só o nariz),
ção é cheia de núme- outros não têm. palhaço de cara da Europa. Sua ma- mas escolhe peças lúdicas,
ros que exigem habili- Ele nunca fala e, branca e nunca faz quiagem é uma bar- como macacão ou suspen-
dade e treino. Quando para se comuni- nada direito. Veste- ba falsa e usa rou- sório. Para melhor visualiza-
assistimos aos espetá- car, usa as mãos se com roupas lar- pas   rasgadas         ou ção desse palhaço, assis-
culos, ele é o respon- e o corpo para gas, peruca, além com remendos. ta ao filme: Path Adams – O
sável por atirar a torta contar            histórias de maquiagem e Amor é Contagioso. (EUA,
– e nunca recebe uma engraçadas.                     A nariz vermelho. 1998). Direção:Tom Sha-
na cara. maquiagem ter- dyac
mina na linha do
queixo, deixando
o pescoço des-
coberto.

 

 

 

 

z O mundo inimaginável do circo!!! Desvelando o que acontece por trás das cortinas

 

Entraremos num assunto de extrema importância, mas que muitas vezes é negligenciado nas escolas, nas conversas com amigos, nos jor- nais, no rádio ou na televisão. Realizaremos algumas reflexões sobre a exploração de animais no mundo do circo.

 

Ligamos a TV e lá estão os programas infantis mostrando animais de circos como se fossem bem tratados e felizes. Eliana é a que mais apresenta circos com animais em seu show e não tem pudor em mentir para as crianças. Ela sabe que os animais são maltratados. Já recebeu inúmeros e-mails de teles- pectadores. Xuxa e Gugu glorificam o Circo Beto Carrero, como se fosse diferente dos circos menores.

Não permitiremos que nossas crianças cresçam se divertindo à custa de animais humilhados, escravi- zados e constantemente torturados. Não é possível se domar animais selvagens sem surrá-los, sem esta- belecer uma relação de medo e dor. O fato dos animais estarem presos, enjaulados e acorrentados, de- veria bastar para que não freqüentássemos circos com animais.

Circos do passado apresentavam aberrações como atração. O mundo evoluiu e esses números fo- ram eliminados; os romanos jogavam seres humanos para os leões, como forma de entretenimento. Cul- tura evolui. Até quando vamos ter que ver animais em circos, em sociedades civilizadas? Até quando va- mos permitir que se continue explorando criaturas inocentes em nome de tradição e cultura?

Pelos artistas, sempre e incondicionalmente.

Pelo fim de animais em circos. Esta é uma Campanha da ANIDA

Associação Nacional pela Implementação dos Direitos dos Animais

Animais de Circo como você nunca viu. Disponível em: <http://www.animaisdecirco.org> Acesso em: 26 nov. 2007.

 

 

Para entendermos um pouco mais sobre a exploração dos animais, veja como os elefantes são tratados para realizarem as apresentações no circo.

Elefantes Cativos: O treinamento de elefantes é apenas a segunda parte da tortura, pois os procedimentos que vão desde a captura até o animal chegar num zoológico ou num circo, estão além da nossa com- preensão. Passam semanas privados de alimentos, são colocados de cabeça pra baixo para que o coração seja comprimido e, conseqüente- mente, para que sintam dor, são amarrados sentados em gaiolas onde não podem se mexer, tudo isso enquanto apanham e levam choques.

Esse é o procedimento “normal” para se capturar um elefante, seja na África ou na Ásia. Os ataques acontecem quando o animal não su- porta mais o stress do cativeiro (site: www.animaisdecirco.org).

 

 

 

 

 

 

 

  • MADÚ. Fotos cedidas pela AILA (Aliança Internacional do Animal. Criadora da campanha “Circo Le- gal não tem Animal”.

 

 

Sabemos que essa é a realidade em muitos circos, no entanto, vivemos um momento im- portante na campanha contra a presença de animais em circos. Há projetos de lei que pedem a proibição de circos com animais em todo Brasil.

Veja reportagens sobre o assunto:

 

PAULO DELGADO DEFENDE CRIAÇÃO DA LEI DO CIRCO

O deputado Paulo Delgado (PT-MG), presidente da Comissão de Educação e Cultura, disse nesta quinta-feira (11), durante seminário de “Regulamentação da Atividade Circense no Brasil: Lei do Circo”, que a “regulamentação da atividade circense deve proteger e valorizar o trabalho milenar do setor no pa- ís”. Segundo ele, é preciso que a legislação do circo fique em sintonia com os direitos dos animais, para evitar descuidos e irregularidade no tratamento dos bichos que fazem apresentações artísticas. Repre- sentantes de várias entidades debateram o exercício da atividade nesta quinta-feira, na comissão.

Para a representante da Associação Nacional pela Implementação dos Direitos dos Animais (ANIDA), Renata de Freitas Martins, a Lei do Circo deve ser criada, mas devem ser proibidas apresentações de animais durante os espetáculos. “Apoiamos a regulamentação das atividades circenses, resguardando a proibição de animais nos circos. Não podemos admitir os riscos de maus tratos com os animais que, muitas vezes, vivem em locais impróprios e sem as devidas condições higiênicas”, disse.

Já a diretora da Associação Protetora dos Animais do Distrito Federal (ProAnima), Simone Gonçal- ves de Lima, disse que a utilização de animais nas apresentações artísticas dos circos é um abuso con- tra a natureza animal. Durante o debate, a ProAnima colocou uma faixa alertando para o abuso contra os animais “O circo ensina a criança a rir da dignidade perdida dos animais”.

De acordo com a presidente da Associação Brasileira de Circos (Abracirco) Saionara Power, a as- sociação defende a criação de normas para os animais do circo. Segundo ela, assim como em qual- quer outra profissão, existem pessoas que cometem erros. “Somos contra maus tratos com os animais, mas também somos contra a generalização dessas práticas. Existem muitos circos que cuidam bem de seus bichos”, disse.

Escrito por Edmilson Freitas

 

  • Fonte: A Agência Informes (Liderança PT na Câmara Federal), 08.05

 

 

 

É importante ressaltar que não devemos ser contra os circos e sim a favor do respei- to aos animais. Devemos ser a favor do circo moderno com artistas criativos e de talento. Um circo sem animais sofridos, explorados e subjugados.

  • Fotos cedidas pela AILA (Aliança Internacional do Criado- ra da campanha “Circo Legal não tem Animal”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Antes de finalizarmos este Folhas, não podemos deixar de comen- tar que o circo, com todas as suas atividades e hoje, principalmente, com o discurso espetacular e esportivo, traz à tona a dura realidade en- frentada pela maioria dos artistas circenses, que ao mesmo tempo que são heróis no picadeiro, não passam de equilibristas na corda bamba da vida, na luta pela sobrevivência.

Dessa forma, Reeeeeeeeeespeitável público!… Chegamos ao fim de nossas atrações. Agora vocês têm condições de montar um espetácu- lo para toda a escola, escolhendo o apresentador, os malabaristas, os acrobatas, os palhaços, enfatizando a virtuosidade humana contra a exploração, os maltratos e o uso de animais em circos.

Nada impede que acrescentem apresentações artísticas variadas, para além das tradicionais circences. Isso vai depender da criatividade de cada um de vocês. Desejamos a todos um bom espetáculo!

 

z Referências Bibliográficas:

BARONI, J. F. Arte circense: a magia e o encantamento dentro e fora das lo- nas. In: Pensar a Prática v.9, n.1. p 81-99. Goiânia, 2006.

CASTRO, A. V. O circo conta sua história. Rio de Janeiro: Museu dos Te- atros – FUNARJ, 1997.

MARX, K. O Capital: Crítica da economia política. 18 ed. Trad. Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

SOARES, C. L. Imagens do corpo “educado”: um olhar sobre a ginástica do século XIX. In. FERREIRA NETO, A. (org). Pesquisa Histórica na Educa- ção Física. 1 ed. Vitória: 1997, v.2, p. 05-32.

 

 

           Acrobacias e acrobatas: anotações para um estudo do corpo. In. BRUHNS, H. T.; GUTIERREZ, G. L. (orgs). Representações do Lúdico. 1. ed. Campinas: 2001, v. 1, p. 33-42.

          Imagens da Educação no Corpo. Campinas: Ed. Autores Asso- ciados, 1998.

TORRES, A. O circo no Brasil. Rio de Janeiro: FUNARTE, Editora Atra- ções, 1998.

 

z Documentos consultados ONLINE:

WUO, A. E. Clown, um viajante do tempo, 2003. Disponível em: <ht- tp://www.opalco.com.br/foco.cfm?persona=materias&controle=65> Aces- so em: 26 nov. 2007.

Animais de Circo como você nunca viu. Disponível em: <http:// www.

 

 

ANOTAÇÕES

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

110    Ginástica

 

Educação Física

 

 

7

GINÁSTICA: UM MODELO ANTIGO COM ROUPAGEM NOVA? OU UMA NOVA MANEIRA DE APRISIONAR

OS CORPOS?

  • Claudia Sueli Litz Fugikawa1

 

Estamos inseridos numa sociedade fundamentada nos valores do capitalismo, em que a lógica do mercado é o consumo, cuja preocupação está em fixar indústrias pautadas no lucro e criar meios que tornem a vida moderna mais confortável.

Com a suposta intenção de “melhorar a vida” das pessoas, nos aspectos materiais e tecnológicos como nos aspectos fisiológicos, biológicos e anatômicos, também surgem produtos variados – desde alimentos até as intervenções cirúrgicas – que visam a correção de supostas imperfeições.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Bom Pastor. Curitiba – Pr

 

Ginástica: um modelo antigo com roupagem nova? Ou uma nova maneira de aprisionar os corpos?                                                                                                 111

 

 

z “Espelho, espelho meu… existe alguém mais bela do que eu?…”

Vivemos numa sociedade em que tudo o que está ao nosso redor in-

terfere, de certa forma, nossos pensamentos e nossas ações. O círculo de amigos, a religião, as relações sociais, as relações no trabalho, a influên- cia da mídia são alguns dos fatores que nos tornam o que somos.

Somos sobrecarregados de informações que nos influenciam, e isso se reflete no modo como nos relacionamos no mundo.

Neste sentido, as diferentes indústrias desenvolvem pesquisas e no- vas tecnologias tentando alcançar um número cada vez maior de con- sumidores.

 

Assim, pela padronização do consumo, que determina vontades e vaidades, nós acabamos perdendo uma das características funda- mentais do ser humano que é a singularidade.

As gordurinhas localizadas, as estrias, as celulites, as rugas com- põem o rol de aspectos indesejados que não são bem vistos ao nos referirmos à questão da aparência. O mercado de consumo, atento a esses aspectos, desenvolve mecanismos e produtos para satisfazerem as necessidades criadas por essa mesma lógica de consumo, princi- palmente para aquelas pessoas que nunca estão satisfeitas com a pró- pria aparência.

Todas essas supostas imperfeições são alvo de enormes investi- mentos da indústria de cosméticos e das academias, que criam varia- dos artefatos, cada vez mais sofisticados, com o objetivo de adaptar os corpos às exigências da sociedade.

Será que atingir este “ideal” de corpo ditado pela mídia é fácil?

O caminho a ser percorrido por aqueles que almejam o modelo ideal de corpo não é simples. Ao contrário, exige muita vigilância e sa- crifícios numa “árdua rotina de exercícios” e outros meios artificiais de luta contra a balança e contra o espelho.

Que motivos nos levam a mudar a própria aparência? Até que pon- to essa vontade de mudar é movida por vaidade própria?

Provavelmente, as respostas a estas questões seriam diferentes pa- ra homens e mulheres. Segundo estudo realizado por Vaz (2004), em academias de ginástica em Florianópolis, as mulheres descrevem as

 

 

 

formas corporais ideais da seguinte maneira: preocupam-se prin- cipalmente com o fortalecimento dos membros inferiores e com o abdome.

Já as respostas a estas questões por parte dos homens re- ferem-se à constituição (corporal) física  bem  delineada,  ou seja, aqueles homens fortes, do tipo “saradão”, barriga “tan- quinho” ou, em outros termos, homens musculosos com um volume (tônus) muscular aumentado principalmente nos mem- bros superiores.

Esta imagem “ideal” de corpo, desejada por algumas pessoas, está baseada exclusivamente na aparência e, para reforçar essa idéia, há várias personalidades famosas na mídia que têm a sua imagem intensa e constantemente veiculada como modelo de “corpo perfeito”.

Ainda conforme o mesmo estudo de Vaz (2004), alcan- çar tais “contornos corporais ideais”, sem intervenções ar-

tificiais como bisturis, utilizando apenas a prática de atividade física, não é assim tão fácil. Isso significa que não é com a prática de uma ati- vidade física realizada uma vez ou outra que será possível chegarmos às formas corporais descritas anteriormente.

Pois bem, é preciso muita “malhação” e sacrifícios, o que faz com que algumas pessoas travem “batalhas” incessantes e incansáveis com a balança, com o espelho, com dietas e os exercícios físicos, sem con- tar as dolorosas incisões cirúrgicas, para aqueles com possibilidades fi- nanceiras que buscam resultados mais rápidos.

Os sacrifícios são considerados válidos para se obter um corpo “sa- rado” e estão associados a uma “malhação” bem sucedida. Tal malha- ção é, muitas vezes, confundida com a sensação de dor. Quantas ve- zes ouvimos as pessoas dizendo que fizeram ginástica e não sentiram “dor”, então a prática dessa atividade não deve ter tido efeito.

Estas são questões idealizadas pela grande maioria da população? Ou será que essas são apenas preocupações de uma parcela da população, que tem condições financeiras de pagar para ter acesso a tais práticas?

Quantas pessoas se submetem às dietas malucas, exercícios frené- ticos ou até a medicamentos proibidos ou duvidosos para perder al- guns “quilinhos”?

E você, já parou para pensar no que gostaria de “melhorar” nessa ou naquela parte do seu corpo? Até que ponto

tais preocupações não seriam fruto da influên- cia daqueles padrões divulgados pela mídia?

Afinal de contas, o que significa o termo mídia de massa? Giddens (2005, p.367) esclarece que o significado de mídia de massa é decor-

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Figura 1

 

 

  • Figura 2

 

 

rente do fato desse tipo de mídia alcançar uma quantidade enorme de pessoas. Assim, jornais, TV, revistas, internet, rádio são alguns exem- plos de mídia de massa que influenciam a opi- nião, atitudes e comportamentos da maioria da população.

Tudo isto é criado por esse mesmo mer- cado com a intenção de vender mais, ou se- ja, criando falsas necessidades de consumo em uma parcela grande da população.

 

 

z Prisioneiros da vaidade: o corpo como vítima…

 

Como vimos até aqui, existe uma séria preocupação com o corpo. Você já parou para pensar se essa é uma preocupação que surgiu ape- nas no século XX e início do século XXI ? Se voltarmos um pouco na história, vamos observar que esta não é uma preocupação tão nova.

Por volta do século XVII até a segunda metade do século XVIII, va- lorizava-se a “imobilidade corporal”. Esta era extremamente necessária e determinava a diferença entre aristocracia e a burguesia da classe tra- balhadora. Nesse sentido, SOARES lembra que a imobilidade:

 

 

Dessa forma, o corpo deveria exibir um aspecto firme, no qual o mo- delo ideal era o “retilíneo”. Para atingir esse modelo, os espartilhos eram artefatos amplamente utilizados entre as damas da sociedade aristocra- ta e burguesa. Este artefato dificultava a mobilidade dos

corpos. “O espartilho, portanto, era um artefato destinado não só a endireitar, mas, também, a denotar uma diferen- ça de classe, uma vez que, ao usá-lo, qualquer esforço era impossível. A moda, assim, marcava mais claramente uma distinção entre a elite e o povo” (SOARES, 2003, p. 82).

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos mais céle- bres filósofos do século XVIII, se preocupava com a edu- cação, em especial da criança. Ele argumentava que o homem nasce bom e que as instituições, na medida em que são más, o corrompem, por isso, deveria haver “um retorno à natureza”.  Rousseau  acreditava  ser  importan- te despertar nas crianças os gestos simples e tratá-las co- mo crianças e não como adultos em miniatura; desde as roupas utilizadas até a forma de educá-las. Dessa forma,

 

a criança teria liberdade nos gestos e movimentos tendo a possibilidade de seguir seu próprio ritmo.

  • Georges Seurat. Jovem mulher maquiando-se. 1888-90. Óleo sobre tela, 95 x 79 cm. Galeria Instituto Courtauld,

 

 

 

  • Georges Um domingo à tarde na grande Jatte, 1884-86. Óleo sobre tela, 206 x 305 cm. Instituto de Arte de Chicago.

Rousseau somou-se a pessoas especializadas e importantes dessa época, como médicos e pedagogos, que questionaram e criticaram o uso do espartilho, objeto tão prestigiado pelas mulheres. Essas críticas foram fundamentais para derrubar a utilização desse objeto, considera- do uma “prensa de corpos”. (FONTANEL, apud SOARES , 2003, p. 82)

A partir desses questionamentos, os estudos de Soares revelam que Georges Demeny (1850-1917), biólogo e pedagogo francês, afirmava a importância de “hábitos saudáveis” e estes deveriam ser desenvolvi- dos por meio de exercícios físicos adequados e bem dosados, desde a infância. Pois acreditava que quanto mais cedo se iniciasse nessa “ar- te fundada sobre a ciência do movimento”, mais eficientes seriam seus resultados (SOARES, 2003, p. 83).

 

  • Georges Demeny (1850 – 1917)

 

 

Mas qual é a relação disso tudo, especificamente, com a ginástica, que é um dos conteúdos estruturantes da disciplina de Educação Fí- sica? Qual é o motivo de estarmos nos referindo a essas questões de consumo e da mídia?

Podemos dizer que há uma íntima relação entre todos esses aspec- tos destacados anteriormente, pois era por meio do exercício físico e da ginástica, que se modelava o corpo.

Para entendermos isso, e continuarmos desatando os nós, precisa- mos esclarecer os seguintes pontos: qual é o período histórico a que nos referimos? De qual ginástica estamos falando? Qual é o papel da escola como coadjuvante neste processo?

Vamos fazer um recorte histórico, considerando o século XIX e a Europa marcada pelo processo fabril. Com isto, ocorre uma redefini- ção nos padrões estabelecidos em relação à sociedade, ao trabalho e ao homem.

 

 

 

  • Novo Manual de Educação Física, ginástica e moral do Coronel Paris, Livraria Enciclopédia Roret, 1939, 3 volumes. Paris, BnF, França.

 

 

Em meio ao processo de industrialização, começaram também a surgir mais problemas relativos à saúde dos trabalhadores, como: do- enças, alto índice de mortalidade, vícios posturais, vícios em geral.

A burguesia tinha claro a importância e a necessidade da “força fí- sica do trabalhador” (SOARES, 2001, p. 48). Assim, a preocupação com o cor- po tornava-se cada vez mais evidente, pois havia a necessidade do tra-

 

 

balhador suportar a fadiga provocada pelo excesso de horas trabalhadas e pelas condi- ções precárias das instalações industriais. O corpo constituía-se como importante instru- mento para o trabalho. O objetivo era “acen- tuar sempre a utilidade dos gestos executa- dos, sem, contudo, alterar as condições de vida e de trabalho”. (SOARES, apud GONZÁLEZ, 2005, p. 278)

 

Qual seria então, o procedimento para que o trabalhador continuasse a desempe- nhar suas funções profissionais? A necessida-

de de desenvolver um mecanismo que contribuísse para essa finalida- de manifestou-se na valorização da ginástica, no cenário da sociedade industrial, como atividade física que seria capaz de corrigir vícios pos- turais decorrentes das atitudes adotadas no trabalho.

Além disso, a ginástica e seus exercícios tinham um caráter disci- plinador extremamente necessário à “ordem fabril” e à “nova socieda- de industrial”.

Os exercícios físicos, denominados de “métodos ginásticos”, foram encarados de diferentes formas nos países da Europa, tais como: Fran- ça, Suécia, Dinamarca e Alemanha. Cabe observar que, a ginástica e seus exercícios tinham um caráter disciplinador necessário à ordem fa- bril e à nova sociedade industrial.

 

 

 

  • Interior de uma fábrica durante a revolução industrial – indústria têxtil – na Inglaterra (sécúlo XVIII). http://www.suapesquisa.com/ industrial

 

 

 

 

z Ginástica: um método na escola?

Ou uma maneira de disciplinar os corpos?

 

Vamos falar dos métodos ginásticos e quando esses passaram a ser or- ganizados no âmbito escolar, constituindo assim a chamada “ginástica”.

 

 

 

 

 

Com a afirmação de Soares, é possível com- preender que, no início do século XIX, tivemos, na escola, as primeiras formas organizadas de exercícios físicos, denominados mais tarde de ginástica. O objetivo dessa atividade era a “edu- cação do corpo”, para formar corpos com “por- te rígido”, “reto” e uma “altivez de postura”. Pa- ra tanto, havia a preocupação com a técnica e com a repetição de movimentos. Além disso, acreditava-se ainda que havia uma relação dire- ta entre “a ginástica e o desenvolvimento do ca- ráter da moral e da virtude” por meio da valo- rização do vigor físico, da energia e da moral.

(SOARES, 1998, p. 21)

  • Ginásio parisiense de Amoros, fundador da escola normal de ginástica mi- litar e civil onde a formação era baseada sobre as práticas espetaculares e utilização intensiva dos

 

É nesta época que o corpo começa a ser objeto de novas regras, de novos códigos e de novas práticas. Para tanto, utilizava-se de técnicas de ginástica, que resultaram num novo universo de gestos e de perfor- mances.

O exercício físico transforma-se em uma atividade precisamente co- dificada, cujos movimentos se apresentam em detalhes e os resultados se calculam. Os estudos do corpo eram voltados para conhecê-lo bio- logicamente, buscava-se estudá-lo em aspectos como: a anatomia, a fi- siologia, a mecânica e a termodinâmica. O vigor e o funcionamento adequado do corpo eram fundamentais no que se refere ao desenvol- vimento da moral, tão necessária para a convivência em sociedade. No entanto, havia a necessidade de organizar rigorosamente os exercícios físicos, pois estes eram instrumentos importantes que contribuiriam pa- ra uma maior eficiência no trabalho.

 

 

 

Estamos nos referindo aos aspectos da ginástica na Europa, mas co- mo esse processo de inserção da ginástica se deu no Brasil?

No Brasil, houve forte influência do processo de industrialização e a implantação da ginástica foi muito semelhante ao que ocorreu na Eu- ropa. Foi a partir “dos conhecimentos e das teorias” construídas na Eu- ropa, que, no Brasil, os médicos reorganizaram um novo modelo de ginástica para a população brasileira.

A proposta pedagógica era baseada nos estudos da anatomia e da fi- siologia – “retirada do interior do pensamento médico higienista” (SOARES, 2001, p.71). Havia uma certa preocupação com questões que se referem à saúde, à higiene e ao corpo dos indivíduos.

O “pensamento médico higienista” passou a organizar a escola co- mo um todo, desde a sua ”arquitetura até o conteúdo curricular, tu- do era minuciosamente pensado, “tempo e espaço, a alimentação (…) tudo passou a ser determinante na metodologia utilizada” (SOARES, 2001, p.77). A propósito, você sabe o que significa o pensamento médico hi- gienista?

 

 

O movimento médico higienista tinha interesses ideológicos em tornar a ginástica conteúdo escolar, pois por meio da escola seriam atendidas as exigências das novas demandas sociais e históricas.

Valorizou-se normas e costumes que contribuiriam para a promo- ção de hábitos saudáveis. Dessa forma, havia a necessidade de criar um mecanismo para prevenir e tratar as doenças advindas desse novo processo, para que o trabalhador suportasse as condições de trabalho oferecidas; e, ao mesmo tempo, disciplinar os corpos, desde a infân- cia, com hábitos saudáveis.

Assim, transferia-se para o indivíduo a responsabilidade sobre a sua saúde e liberava-se o Estado dessa incumbência.

Desse modo, os exercícios físicos ganharam espaço nas escolas brasileiras, pois se configuravam como elementos significativos que contribuíam para a “nova ordem em formação”, cuja importância esta- va em disciplinar o espírito, o corpo e a moral. Essas novas demandas advinham com o surgimento do capitalismo.

Para tanto, a disciplina ministrada na escola era denominada de gi- nástica, e tinha suas bases fundamentadas nos princípios e métodos gi- násticos europeus.

Podemos perceber, ao longo da história da ginástica, que a preocu- pação com as “formas modelares de educar e cuidar do corpo” não é algo novo. Algumas vezes essa preocupação aparece com mais inten- sidade; outras vezes, com menos, dependendo das intenções ideológi- cas que estão em jogo.

 

 

 

O poder da mídia nos leva a procurar artifícios, como se fossem “elixires” que irão operar verdadeiros milagres em nosso corpo, a fim de termos contornos corporais ideais.

Deixamos de nos preocupar ou nos importamos pouco com as conseqüências e com os riscos que possam ocorrer com o uso indis- criminado e sem orientação adequada de  determinados  artefatos.  O que impera é o fato de conseguirmos alcançar o tão almejado contor- no corporal idealizado. “Tudo se passa como se, em nossos dias, as transformações do corpo estivessem mais na moda do que nunca, en- quanto os limites do que é certo e errado, falso e verdadeiro, natural e artificial tivessem sido completamente relativizados” (SANT’ANNA, 2001 apud SOARES, 2005, p. 59).

Para saber mais sobre esse assunto, leia o Folhas “Saúde é o que in- teressa, o resto não tem pressa”.

 

 

Todas as questões destacadas nesse Folhas são importantes para re- fletirmos sobre as nossas atitudes, não só em relação à ginástica, mas também a qualquer atividade física, antes de aderirmos ingênua ou ce- gamente aos apelos da mídia.

Se você está em busca de uma performance baseada no exagero, no sacrifício que te leva a fazer mais exercícios, mais abdominais, mais peitorais, mais dorsais, dietas malucas, tomar anabolizantes, remédios para emagrecer… CHEGA!!! Você precisa parar para pensar sobre tais questões.

É importante considerar que existem aspectos positivos quando es- tamos praticando a ginástica ou alguma atividade física. Mas tão im- portante quanto praticar a ginástica é refletir se esta atividade nos traz prazer e satisfação. Além disso, não só a atividade física, como a gi- nástica, pode nos satisfazer, visto que as coisas simples do nosso coti- diano também são relevantes, como um dia ensolarado, uma conversa com os amigos e tantas outras “coisas” singelas.

Quando estamos realizando uma atividade física, tanto nas aulas de Educação Física quanto em outros locais, seja ela uma simples ca- minhada, ou a luta, ou o esporte, ou a ginástica, é importante consi- derar que cada um de nós traz consigo as suas histórias individuais e essas precisam ser respeitadas. Além disso, precisamos estar aler- tas para não cairmos nos apelos intencionais da mídia na busca por um “corpo perfeito”.

 

 

 

z Referências Bibliográficas

GIDDENS, A. Sociologia. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.

GONZÁLEZ, F. J.; FENSTERSEIFER, P. E. In: Dicionário crítico de educa- ção física. Ijuí: Unijuí, 2005.

SOARES, C. L. Imagens da educação no corpo: estudo a partir da ginás- tica francesa no século XIX. 2 ed. Campinas, Autores Associados, 1998.

                    . Educação física: raízes européias e Brasil. Campinas: Au- tores Associados, 2001.

                    . Imagens da retidão: a ginástica e a educação do cor- po. In: CARVALHO, Y. M. de; RÚBIO, K. (org.). Educação física e ciências humanas. São Paulo: Hucitec, 2001. p. 53-74.

                    . (org.). Corpo e história. 2 ed.Campinas: Autores Associa- dos, Coleção educação contemporânea, 2004.

 

 

                  . Práticas corporais: invenção de pedagogias? In:SILVA, A. M.; DAMIANI, I. R. (orgs.). Práticas corporais: gênese de um movimento in- vestigativo em educação física. Florianóplois: Naembu Ciência & Arte, v. 1, 2005. p. 43-61.

SOARES, C. L. & FRAGA, A. B. Pedagogia dos corpos retos: das morfolo- gias disformes às carnes. In.: Revista Pro-Posições, Campinas, v. 14, n. 2 (41), maio/ago, 2003.

VAZ, A. F. ; HANSEN, R. Treino, culto e embelezamento do corpo: um estu- do em academias de ginástica e musculação. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 26, n.1, p. 77-90, set. 2004.

 

z Obras consultadas ONLINE

http:// www2.ac-lille.fr/patrimoine-caac http://www.wikipedia.org http://www.suapesquisa.com/industrial

 

z Filme

Branca de Neve e os sete anões. (1937, EUA, direção: David Hand). Desenho que aborda a história de uma linda princesa chamada Branca de Neve, cuja beleza causava inveja na rainha, que era a sua madrasta.

 

 

ANOTAÇÕES

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

126    Ginástica

 

Educação Física

 

 

8

SAÚDE É O QUE INTERESSA! O RESTO NÃO TEM PRESSA!

  • Gilson José Caetano1

 

 

Você se lembra deste jargão usado em um programa humorístico transmitido por uma grande emissora nacional?

Segundo o que a mídia veiculava em termos de pa- drões de beleza estética, esse personagem, na épo- ca, representou o “boom” pela procura de acade- mias em todo o país.

Será que a atividade física dá conta de proporcionar saúde aos seus praticantes? Outros fatores poderiam influenciar as condições de saúde de cada um de nós? Que fatores seriam estes? Mas, na verdade, o que é ser saudável? E “o resto não tem pressa”, o que pode ser?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Edite Cordeiro Marques. Turvo – Pr Escola Joanna Lechiw Thomé. Turvo – Pr

 

Saúde é o que interessa! O resto não tem pressa!                                    127

 

 

Os meios de comunicação de massa, freqüentemente, orientam as pessoas sobre os benefícios que a prática regular de exercícios físicos pode oferecer. Dentre eles, citamos os mais comuns:

Redução de peso e emagrecimento; Combate à hipertensão arterial; Prevenção da osteoporose;

Ajuda a controlar os níveis de colesterol; Redução da ansiedade e depressão;

Combate o estresse e ajuda a melhorar o humor.

Segundo Matsudo (1998, p.7), apenas 30 minutos diários de atividades físicas “podem representar o limiar para a população em geral adqui- rir o Passaporte para a Saúde”. De acordo com essa visão, “só não é saudável quem não quer, pois pouco tempo de práticas “físicas” se- riam o suficiente para adquirir os possíveis benefícios para as pessoas que queiram e possam aderir a esse movimento”. Mas para você, hoje, adiantaria ter um passaporte para qualquer país e não ter condições fi- nanceiras de usufruí-lo? Como assim? Irei explicar melhor:

Você sabe como resolver seus problemas de saúde, mas você pode fazê-lo? Dispõe de 30 minutos diários para fazer exercícios e espaços adequados para sua prática?

Você sabe qual é o percentual da população mundial que não tem por hábito a prática regular de atividades físicas? “(…) perto de 80% das pessoas se recusam a realizar esforços físicos sistemáticos para aumen- tar a potência ou para conservar a saúde” (LOVISOLO, apud NOGUEIRA & PALMA, 2003,

  1. 106). Qual sua explicação para este fato?

 

 

z Ser ou não ser (saudável): eis a questão

 

O modelo de sociedade em que vivemos (capitalista) vê o homem, e sua força de trabalho, como uma ferramenta essencial para a produ- ção; dessa forma, segundo alguns autores, as pessoas com estilo de vi- da saudável (ativo) aumentam a eficiência e produtividade, reduzem as faltas no trabalho, assim, auxilia as empresas a diminuírem os gas- tos e aumentam os lucros (KIMIECIK e LAWSON apud MATIELLO JUNIOR e QUINT, 1999, p. 869). Nesse sentido, ser saudável é uma exigência do sistema econômico em que estamos inseridos.

Existem os que entendem que ter hábitos saudáveis está relaciona- do ao estilo de vida. Para adquirir este estilo de vida, devem-se adotar algumas condutas. Você poderia indicar que condutas seriam estas?

Mas será que as pessoas que levantam às 5 horas da manhã, andam uma hora e meia de ônibus, trabalham mais de dez horas diárias, re- tornam para suas casas e ainda dão conta dos afazeres do lar e dos fi-

 

 

lhos, precisam fazer atividades físicas? Será que podemos considerá- las sedentárias?

As atividades físicas propiciam uma série de adaptações metabóli- cas, cardiorespiratórias e músculo-ósteoarticulares que produzem be- nefícios ao bom funcionamento geral dos sistemas do corpo humano.

Para que nosso corpo esteja bem, é necessário que façamos esco- lhas que atendam aos nossos interesses, sejam prazerosas, sejam coti- dianas, e possibilitem a ampliação das relações sociais.

Para ampliar a discussão, vejamos as definições de alguns termos:

 

 

A par das definições, qual delas você acredita ser mais abrangente? Será que a expressão atividade física refere-se mesmo aos exercícios físicos e aos esportes?

Você concorda que as atividades físicas fazem bem à saúde? Para você, o que é saúde? Tente definir antes de continuar.

 

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde é “um estado completo de bem-estar físico, mental e social e não a simples ausência de doença ou enfermidade”.

Na VIII Conferência Nacional de Saúde (1986), saúde foi defini- da como: “resultante das condições de alimentação, habitação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse de terra e acesso aos serviços de saúde. É, assim, antes de tu- do, o resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida”.

Em se tratando de saúde, o documento que referencia todas as dis- cussões modernas é a Carta de Ottawa. Nesse documento, resultado da I Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, Canadá, em novembro de 1986, foram definidas as princi-

 

 

pais ações em termos de promoção da saúde, a qual é entendida como o processo de capa- citação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde.

Os pré-requisitos para a promoção da saú- de ficaram definidos como sendo: paz; habita- ção; educação; alimentação; renda; ecossiste- ma estável; recursos sustentáveis; justiça social e eqüidade.

Paim e Almeida (apud NOGUEIRA e PALMA, 2003) apon- tam que, lamentavelmente, a maior atenção foi e é dada às intervenções para mudanças de comportamento individual e pouco à estraté- gia política populacional, indicando   a   opção de modificação dos hábitos considerados de risco, tais como: o fumo, o sedentarismo, a die- ta, etc.

Como você pode notar, definir saúde é algo muito complexo e, para dimensionar isto, bas-

ta tomar, por exemplo, a dimensão social. Podemos medir com exati- dão o bem-estar social? Claro que existem vários indicadores sociais, como: renda per capita, coeficiente de mortalidade, expectativa de vi- da, poluição ambiental, IDH, entre outros. Mas você sabe o que signi- ficam todos estes indicadores? Veja o quadro a seguir:

 

IDH: Índice de Desenvolvimento Humano (ou HDI, UN Human Development Index, em inglês). O IDH é, das formas de medir o desenvolvimento social dos países, a considerada mais equilibrada. Além dos critérios econômicos, como PIB, renda per capta, etc., são analisados outros critérios de caráter social, como as taxas de mortalidade e natalidade, a longevidade, a taxa de analfabetismo, etc., e também crité- rios ligados às liberdades cívicas, como o grau de liberdade de imprensa que existe em cada estado, por exemplo. O índice varia de zero (nenhum desenvolvimento humano) até 1 (desenvolvimento humano total). Um IDH de até 0,499 significa baixo desenvolvimento humano, um IDH de 0,5 até 0,799 significa desen- volvimento humano médio e, quando o índice ultrapassa 0,8, o desenvolvimento é considerado alto.

Renda per capita: é um indicador que ajuda a saber o grau de desenvolvimento de um país e con- siste na divisão da renda nacional (produto nacional bruto menos os gastos de depreciação do capital e os impostos indiretos) pela sua população. Por vezes o produto interno bruto é usado.

Coeficiente de mortalidade: é um dado estatístico do número de óbitos para cada mil habitan- tes em uma dada região. Por ser um dado fortemente afetado pela longevidade da população, não é significativo demograficamente.

Expectativa de vida: esse indicador mostra a quantidade de anos que uma pessoa nascida na- quela localidade, em um ano de referência, deve viver.

Poluição ambiental: é a liberação de substâncias químicas ou agentes contaminantes em um ambiente, prejudicando os ecossistemas biológicos ou os seres humanos.

 

 

 

z Atividade Física é Saúde! (?)

 

Para o senso comum, atividade física é saúde. Não só a atividade física, mas principalmente os esportes, os exercícios físicos, pois basta ligarmos a TV, abrirmos um jornal, folharmos uma revista e até mesmo passearmos pelas ruas da cidade, que encontramos vários elementos identificando a associação entre as diversas formas de atividade física e a promoção da saúde.

Mas você sabe de onde vem tal associação?

Essa associação entre a prática regular de atividades físicas e a saú- de advém desde a Antiguidade. Um dos exemplos mais comuns é a fa- mosa frase grega “Mens sana in corpore sano”, que significa “Mente sã em corpo são”.

 

 

 

 

z A influência da mídia

na prática de atividades físicas

 

Um olhar crítico sobre as informações que nos bombardeiam, atra- vés dos vários mecanismos de comunicação utilizados para “conven- cer” a população sobre a importância de praticar atividades físicas, de- ve basear-se numa profunda análise das intenções reais que podem estar implícitas.

Observe que os vários tipos de mídia, como os jornais ou a televisão, têm uma ampla influência sobre nossas experiências e sobre a opinião pública, não apenas por afetarem nossas atitudes de modo específico, mas por serem, muitas vezes, o único meio de acesso ao conhecimento do qual dependem muitas atividades sociais (GIDDENS, 2001 p.367).

Desse modo, a tomada de decisão sobre a prática de atividades fí- sicas pode ser influenciada por um modismo, reforçada por jargões, como o que apresentamos no título deste Folhas, e não por uma ne- cessidade consciente de buscar um estilo de vida mais ativo e mais saudável.

Já para aquela parte da população que, por vários motivos, não adere a esse movimento de busca da saúde por meio de exercícios, os meios de comunicação têm outro tipo de apelo, com um marketing que apresenta várias formas para adquirir um corpo bonito e saudá- vel. Basta pegarmos algumas dessas revistas sobre a prática de ativida- des físicas e logo encontramos em suas capas receitas milagrosas, co- mo: “perca 5 kg por semana sem esforço” ou “reduza 5 cm de cintura comendo de tudo e sem esforço”, e outra “trabalhe seu abdômen sen- tado em frente da TV, comendo pipoca, e terá o resultado de 500 ab- dominais em apenas 10 minutos”.

Você identifica quem são os maiores beneficiados com a veiculação destas propagandas?

Algumas empresas utilizam-se da imagem de ídolos esportivos com a intenção de dar mais credibilidade a seu produto. Esses atletas são representações do mito moderno, utilizados como “modelo” de corpo perfeito e de sucesso, vinculando-se o produto apresentado à sua ima- gem. Aqui devemos esclarecer o que é mito e mito moderno. Veja o quadro a seguir:

 

 

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

Em dupla, monte um painel, com recortes de revistas que trazem receitas milagrosas para ficar em forma.

Após observar e analisar todos os painéis, escreva em seu caderno uma crítica para dois produtos que apresentem resultados diferentes à obtenção do corpo perfeito.

Em equipes, de até 5 componentes, selecione quatro grandes ídolos esportivos, dois masculinos e dois femininos. Analisem e respondam às questões:

  1. Por que essas pessoas se tornaram ídolos?
  2. Elas aparecem em propagandas ou comerciais divulgando produtos para a “promoção” da saú- de? Em que tipo de veículo midiático?
  3. Vocês acreditam que os produtos oferecidos atingem o objetivo proposto em todas as pessoas da maneira como é veiculado? Por quê?
  4. Analisem todo o contexto em que são veiculadas as propagandas com “fórmulas milagrosas” para ter boa forma física e saúde, onde aparecem esses ídolos, e apontem a que interesses ser- vem, justificando seus pontos de
  5. Promovam um debate para discutir as conclusões alcançadas.

 

 

z Atividade Física e Saúde – Ampliando o Enfoque

 

Para termos saúde não basta apenas praticarmos algum tipo de ati- vidade física regularmente, pois saúde envolve, além do comprometi- mento pessoal, políticas públicas e medidas sociais que atendam às re- ais necessidades dos indivíduos.

Algumas medidas sociais adotadas em vários programas de polí- ticas públicas tendem a transferir a responsabilidade da saúde públi- ca para os indivíduos. Como exemplo desses fatos, citamos um estudo de Ferreira, que analisa a proposta do programa Agita São Paulo. Esse programa orienta as pessoas idosas a aproveitar “as filas dos bancos ou correios para fortalecer os músculos do abdome e das pernas”. Argu- menta-se que não é preciso um espaço específico para fazemos exer- cícios, podemos aproveitar aquele momento na fila do ônibus, que fi- camos parados em posição incorreta, ou aquele deitado na frente da televisão, mas, como lembra o autor já citado:

 

 

 

 

  • Água de beber

A idéia de que para adquirir hábitos saudáveis é necessária a adesão a clubes e academias deve ser superada, uma vez que o acesso a par- ques, praças e espaços propícios para a prática regular de atividades fí- sicas não requerem nenhum tipo de investimento a mais de seus adep- tos. Porém, tornar esses espaços em condições de uso para que toda a população possa usufruir, é de responsabilidade dos órgãos públicos.

A atividade a seguir, apresenta uma composição de Gabriel O Pen- sador, que faz uma série de críticas ao descaso das autoridades quanto à saúde. Leia atentamente e, depois, faça a atividade proposta.

 

 

 

 

 

A infecção hospitalar mata mais da metade

E os que sobrevivem e não são seqüestrados devem ser tratados com todo o cuidado

Porque se os pais não têm dinheiro pra pagar hospital uma simples diarréia pode ser fatal

  • “Come tudo, meu filho, pra ficar bem forte” (Ah, mãe! Num agüento mais farinha!)
  • “Mas o quê que tu quer? Se eu num tenho nem talher?” (…)
  • “Eu ia fazer a tal da ‘autopsia’ mas eu não tenho faca de cozinha!”

Tá muito sinistro! Alô, prefeito, governador, presidente, ministro, traficante, Jesus Cristo, sei lá…

(…) Onde é que eu vou parar?

Numa clínica pra idosos? Ou debaixo do chão? E se eu ficar doente? Quem vem me buscar?

A ambulância ou o rabecão?

Eu tô sem segurança, sem transporte, sem trabalho, sem lazer Eu num tenho educação, mas saúde eu quero ter

(…) Já paguei os meus impostos, não sei pra quê? Eles sempre dão a mesma desculpa esfarrapada: “A saúde pública está sem verba”

E eu num tenho condições de correr pra privada Eu já tô na merda.

 

 

z Por que trabalhar conceitos de Atividade Física e Saúde nas aulas de Educação Física?

 

Devemos pensar em atividade física não como uma obrigação para termos saúde, mas sim como uma atividade que nos traga prazer, ale- gria, contribuindo para o próprio bem estar.

A atividade física deve ser encarada sob diversos aspectos e não so- mente pelo enfoque biológico, anatômico, biomecânico, nutricional ou

 

 

fisiológico. Devemos discuti-la sobre outros aspectos, pois, como afir- ma Ferreira (2001) “(…) o exercício, o desporto e aptidão física não são fenômenos meramente biológicos, mas também sociais, políticos, eco- nômicos e culturais. Para compreendê-los, em toda sua essência, temos que ser capazes de analisar criticamente todos esses determinantes”.

Para ampliar essa conversa, que tal uma atividade de pesquisa?

 

 

ATIVIDADE

 

 

Cada grupo ficará responsável por trabalhar com um dos seguintes temas: Jogos (intelectivos, dramáticos, mímicos, cooperativos, etc.);

Esportes (coletivos, individuais, de aventura, radicais, etc.); Ginásticas (de academia, corretivas, rítmicas, artísticas, etc.); Danças (folclóricas, de salão, populares, clássicas, etc.); Lutas (judô, caratê, capoeira, etc.).

Cada grupo deverá realizar uma pesquisa detalhada de seu tema, analisando-o de diversas formas, como:

Sua origem e evolução histórica;

Aspectos biológicos relacionados (anatomia, biomecânica, fisiologia, nutrição); Relações sociais (saúde, sexualidade, diversidade cultural, ética, meio ambiente, etc.); Interferência política.

Depois de realizada a pesquisa, cada grupo apresentará seu trabalho aos demais alunos, utilizando- se de recursos como vídeos, cartazes, etc.

Obs: seria interessante que, depois de concluídas as apresentações em sala, cada equipe fizesse uma atividade prática para que todos pudessem vivenciar possíveis maneiras criativas de trabalhar com os temas abordados nos trabalhos.

 

 

 

z Ginástica Geral: uma possibilidade interessante de se fazer atividade física

 

Você observou, ao longo do texto, a problemática que envolve a saúde, identificando em que medida os esforços para mantê-la depen- dem de nós e em que medida os órgãos públicos devem assumir sua parcela de compromisso com a sociedade. Torna-se necessário apon- tarmos um caminho, entre as várias possibilidades, de fazer uma ativi- dade física que promova a eliminação gradativa do sedentarismo.

A ginástica, com suas várias modalidades, tem se apresentado como uma forma interessante, com baixo custo e prazerosa, de se fazer ati- vidade física, uma vez que você pode fazê-la num local público (par-

 

 

ques, praças, bosques, etc.), de acordo com o seu tempo livre. Dentre as várias modalidades de ginástica, que possivelmente você  conhe- ce, abordaremos aqui a ginástica geral. Você já ouviu falar algo sobre a ginástica geral?

A ginástica geral é uma das possibilidades da Cultura Corporal que pode ser praticada por qualquer pessoa em qualquer idade, desde que não apresente nenhum tipo de restrição médi- ca. Essa atividade surgiu do interesse de pes- soas, como o então presidente da Federação In-

ternacional de Ginástica (F.I.G), o belga Nicolas J. Cuperus (1953) e do holandês Jô Sommer, idealizador da Gymnaestrada, que demonstravam interesse maior nas apresentações de ginástica sem caráter competitivo.

Gymnaestrada é um evento de ginástica geral em que vários países fazem suas apresentações sem a preocupação de competir uns com os outros. O objetivo dessas apresentações tem relação com a cultura de cada país e a troca de informações sobre a ginástica geral como instru- mento de aprimoramento humano.

A ginástica geral é uma modalidade que se fundamenta em outras atividades da Cultura Corporal, como danças e jogos, trabalhados de maneira livre e criativa. Ela apresenta vários objetivos, dentre os quais citamos:

Oportunizar a valorização do trabalho coletivo, sem deixar de valo- rizar a individualidade;

Benefícios gerais ao corpo;

Quando praticada coletivamente, proporciona a integração e a so- cialização. (Fonte: www.cbginastica.com.br. Acesso em: 04 abr. 06.)

 

 

 

 

Agora que você já teve acesso a um conjunto de informações sobre atividade física e saúde, vamos rever o problema inicial.

Se nos sentirmos responsabilizados pela busca da “saúde”, que “é o que interessa”, não devemos cobrar, do Estado, ações que atendam as necessidades sociais básicas, já que “o resto não tem pressa”?

 

z Referências Bibliográficas

BASBAUM, L. Alienação e Humanismo. São Paulo: Global Editora. 1984.

CARVALHO, Y. M. A Relação Saúde/Atividade Física: Subsídios para sua Desmistificação. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, set./1992.

FERREIRA, M. S. Aptidão Física e Saúde na Educação Física Escolar: Ampliando o Enfoque. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, jan./2001.

FONTE, S. S. D. LOUREIRO, R. A Ideologia da Saúde e a Educação Física. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, jan./1997.

HRYNIEWICZ, S. Para filosofar hoje: introdução e história da filosofia. 5. ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2001.

LEWIS, A. In: SILVA, B. (Org.). Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1986.

LOVISOLO, H. Atividade Física, educação e saúde. Rio de Janeiro: Sprint, 2000.

MATSUDO, V. K.R. Programa Agita São Paulo. São Paulo: Celafics, 1998.

NOGUEIRA, L.; PALMA, A. Reflexões acerca das políticas de promoção de atividade física e saúde: uma questão histórica. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, maio/2003.

38    Ginástica

QUINT, F. O.; MATIELLO J. E. O gosto amargo do exercício como remédio nas pedagogias do medo e da culpa. In: Anais do XI Congresso Brasileiro de Ciencias do Esporte. Caderno 3, v. 21, n. 01, Florianopolis : CBCE, 1999, p. 867-872.

 

 

ANOTAÇÕES

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

140    Ginástica

 

Educação Física

 

 

9

 

OS SEGREDOS DO CORPO

  • Mauro José Guasti1

 

 

Freqüentemente, pensamos o corpo somen- te em seu aspecto individualizado, como se a saúde fosse algo “separado” do corpo, não é? Pensar o corpo como instrumento de afirma- ção pessoal, que é exibido, transformado e consumido e que não tem pudor ou inibição, pode ter impacto na vida individual como na vida social das pessoas?

Nesse sentido, nos resta desvelar alguns dos segredos desse corpo, que envolve o sujeito e a sociedade. Você seria capaz de identificar quais seriam tais segredos? Venha conosco nesta viagem, em que muitas questões serão reveladas, desde aspectos relacionados à saú- de, bem como práticas corporais relacionadas à ginástica e à expressão corporal.

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Angelo Gusso. Curitiba – PR Colégio Estadual Santa Cândida. Curitiba – PR

 

Os segredos do corpo   141

 

 

z Analisando o primeiro segredo: a saúde

Ao pensarmos o corpo de forma fragmentada, torna-se necessário

lembrarmos algumas questões relacionadas à alimentação, vitais para o funcionamento do nosso organismo. O equilíbrio na ingestão de nu- trientes garante a saúde do nosso corpo. Proteínas, hidratos de carbo- no, lipídios, vitaminas e sais minerais são os nutrientes contidos nos alimentos que consumimos diariamente.

Neurotransmissores: par- ticipam da transmissão dos impulsos nervosos para os músculos na realização do movimento.

Para ilustrar: Nos exercícios da ginástica artística, no qual o atleta precisa de uma ex- plosão rápida do movimento, é recomendada a ingestão da glicose.

As proteínas mantêm a estrutura e o funcionamento dos organis- mos vivos, regulam a contração muscular, a produção de anticorpos, a expansão e a contração dos vasos sangüíneos para manter a pressão arterial normal. Mas onde elas se originam? Ao ingerirmos alimentos ri- cos em proteínas, estamos fornecendo aminoácidos essenciais para o processo de síntese proteica. Portanto, o corpo precisa que determina- dos alimentos sejam ingeridos para que possam ser absorvidos.

Mas se ingerimos proteína, por que o nosso corpo realiza síntese protéica? Se você estudou a síntese protéica, já sabe que isso acontece porque as células humanas possuem proteínas específicas diferentes daquelas fornecidas pelos seres vivos que são base da nossa alimenta- ção, como exemplo, temos: a carne de frango, de gado, a alface, o mi- lho. Uma vez ingerida, a proteína desses seres vivos passa pelo pro- cesso de digestão. As macromoléculas protéicas são transformadas em moléculas menores pela ação das enzimas digestivas (proteases).

 

 

 

Sistema Nervoso Central e periférico

Além das proteínas, outros nu- trientes são importantes para a ma- nutenção da nossa saúde, por exem-

 

Nervos cranianos

Hemisfério cerebral

 

cerebelo

plo: os hidratos de carbono e os lipídeos.

 

Nervos cervicais                                       

 

 

 

 

Nervos toráxicos

 

 

 

 

 

 

Nervos lombares

 

 

Nervos sacrais

Plexo braquial

 

Medula espinhal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nervo pudendo

Os  hidratos  de  carbono,  repre-

sentados pelos açúcares, têm função energética. No sistema nervoso cen- tral, formado pelo encéfalo e pela medula espinhal, a glicose é o prin- cipal substrato energético.

A glicose é estimulante de neu- rotransmissores e é armazenada nos músculos e no fígado. No momento em que o corpo precisa realizar de- terminado movimento, ela é trans- formada em adenosina trifosfato (ATP) num processo conhecido co- mo respiração celular.

 

 

Mas você poderia estar pensando: a respiração não é um processo que ocorre por trocas gasosas? Observe que estamos falando do proces- so de respiração celular nos músculos que, neste caso, envolve a com- bustão da glicose produzindo ATP. No entanto, como se trata de com- bustão, o oxigênio inspirado também está envolvido nesse processo.

Os lipídios, mais conhecidos como gorduras, são encontrados na maioria dos alimentos. Você já deve ter ouvido falar que gordura faz mal à saúde. Mas o excesso ou a falta de qualquer nutriente é prejudi- cial. Os lipídios são tão importantes quanto as proteínas e os hidratos de carbono, pois, além de servirem como reserva energética, são cons- tituintes essenciais da membrana celular, estão envolvidos nos proces- sos de produção hormonal, de assimilação de proteínas e vitaminas, além de serem parte do preenchimento estrutural do corpo.

As vitaminas, também conhecidas como nutrientes reguladores, são substâncias químicas presentes em pequenas quantidades nos alimen- tos e são indispensáveis para o desenvolvimento do nosso corpo, par- ticipando do controle metabólico da atividade biofísica cotidiana.

Assim como as vitaminas, os sais minerais funcionam como “co-fa- tores” do metabolismo no organismo, sem eles as reações metabóli- cas ficariam tão lentas que não seriam efetivas. Os sais minerais de- sempenham funções reguladoras vitais em nosso corpo, como: manter o equilíbrio de líquidos, controlar as contrações musculares, oxigenar a musculatura e regular o metabolismo energético. O Sódio (Na+) e o Potássio (K+), por exemplo, também participam na condução de im- pulso nervoso.

Além de tudo o que já foi citado, não podemos deixar de falar da água. Ela é fundamental para o equilíbrio do corpo, pois é indispensá- vel ao metabolismo. Suas funções contribuem para: Digestão; absorção e transporte de nutrientes; serve de  solvente para líquidos orgânicos e de meio para inúmeros processos químicos; auxilia no controle da temperatura corporal; é imprescindível à formação dos tecidos orgâni- cos, fornecendo a base para o sangue e todas as secreções líquidas (lá- grimas, saliva, sucos gástricos, entre outros), que lubrificam os órgãos e articulações. Além disso, a falta de água no corpo altera o equilíbrio hidrossalínico, causando a desidratação.

Além das questões de hábitos alimentares, há ainda outras implica- ções relevantes para a promoção da saúde, pois esta não depende úni- ca e exclusivamente da mudança dos comportamentos dos indivíduos, mas, sobretudo de políticas sociais voltadas para o aprimoramento das condições de higiene e saúde. É de suma importância que sejam de- senvolvidos programas de orientação preventiva, obras de saneamen- to básico e outras estratégias que ofereçam condições básicas de higie- ne e saúde para a população, o que contribui ainda para redução das desigualdades sociais.

 

 

Criar essas políticas depende só da vontade individual? Diante de todas essas questões, temos que refletir: a produção de alimentos é su- ficiente para todos? Por que algumas pessoas têm uma boa alimenta- ção e outras têm uma alimentação tão precária que causa doenças e até a morte?

Após toda essa discussão, o que você acha de praticar as ativida- des na sua aula de Educação Física? Vamos experimentar alguns exercí- cios que envolvam velocidade, resistência, força, equilíbrio, flexibilida- de, agilidade, coordenação e ritmo.

Com a prática de exercícios, você poderá: estimular a produção de alguns aminoácidos que melhoram a ação protetora do sistema imu- nológico; estimular o desenvolvimento das fibras musculares que com- põem os diversos músculos do corpo; melhorar o condicionamento fí- sico e a capacidade cardiorespiratória. Mas não se esqueça de que o exagero e a sobrecarga na prática desses exercícios, ao invés de bene- fícios, poderá causar sérios problemas nas articulações, nos tendões e, principalmente, na musculatura.

 

 

 

 

 

Flexor do antebraço

Vista frontal

 

 

Orbicular dos olhos

 

Temporal

 

 

 

 

Frontal

 

 

Esternoclidomastóideo

Vista dorsal

 

Temporal                 

Extensor da mão Flexor da mão

 

Tríceps

 

Trapézio

Deltóide       Peitoral maior

Reto do abdome                                             Serrátil anterior

Trapézio                                  

 

Deltóide

Infra espinhal Grande dorsal

 

Oblíquo externo Tensor da fáscia lata

Bíceps

 

 

 

Adutor longo

Bíceps

 

Glúteo

Grande adutor

 

Vasto lateral

Grácil                                                                                                     Grácil

 

Vasto medial

Sartório

 

Gastrocnêmio Tibial anterior

Bíceps femoral Semitendinoso

 

Gastrocnêmio

Sóleo

 

 

 

As articulações, como os joelhos e tornozelos, são as que mais so- frem lesões, provocadas por exercícios que as sobrecarregam ou pe- la falta de preparo dessas articulações para absorver adequadamente os grandes impactos, tais como os grandes saltos e as mudanças brus- cas de direção.

Você já viu ou ouviu reportagens que tratam de atletas de alto ren- dimento, aqueles profissionais do esporte que sofrem com as conse- qüências da intensidade dos treinamentos físicos? Para responder essa questão, é importante realizar a atividade sugerida a seguir.

 

 

 

z Analisando o segundo segredo: o ser social

O que você acha de continuarmos nossa busca por compreender os

segredos do corpo? Até agora você teve condições de perceber o quan- to é importante sua alimentação, certo? Mas será que é possível falar em hábitos alimentares num país que possui uma quantidade enorme de pessoas com uma alimentação restrita a ponto de passar fome?

Importa destacar que o corpo não se restringe a fragmentos, o que significa não entendê-lo somente em seus aspectos biológicos, mas tam- bém considerando sua relação com o meio social, com as possibilida- des de lazer, com a necessidade de trabalhar, enfim, com a sociedade na qual vivemos. É freqüente pensarmos o corpo de forma fragmenta- da, isto é, biológica e fisiologicamente. Isso resulta no entendimento de que a saúde é algo intrínseco a esse corpo. Pensar no corpo de forma mais ampla pode ter impacto tanto na vida individual como na vida so- cial das pessoas.

Nas últimas décadas, mudanças econômicas têm afetado profunda- mente a compreensão de corpo e diretamente a possibilidade de cons- cientização, por parte da população, do lugar que seus corpos ocu- pam na sociedade.

Descobrir os segredos do corpo perpassa essas questões, e aponta para o entendimento de que ele em si “(…) é isento de dicotomias, ou seja, ele é único e não é menos importante que a mente ou o intelec- to. É preciso entender que um corpo é inteiro, e não separado em par- tes” (SANCHES NETO; LORENZETTO, 2005, p. 141).

Sabendo que os corpos são únicos, isto é, singulares, a próxima ati- vidade foi sugerida com o objetivo de levar você a compreender que existem diferenças entre os vários indivíduos e, nesse sentido, que os corpos podem expressar diferentes formas, de acordo com os vários modos de se relacionar com o mundo.

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

“CASA DE ESPELHOS”

O objetivo desta atividade é demonstrar que as percep- ções sobre seu corpo são únicas, e que sua individualida- de deve ser respeitada em todos os aspectos, independen- te da forma assumida.

Organizem-se em dois grupos, dispostos um em fren- te ao outro. Um grupo será os espelhos da “casa de es- pelhos”; e o outro, será os visitantes desses. Quando vo- cê estiver no grupo composto por espelhos, deverá fazer diferentes formas que o corpo do colega pode assumir, co- mo, por exemplo: magro, gordo, alto, baixo. Os colegas do grupo dos visitantes passarão por todos os espelhos. Logo após, os papéis serão invertidos.

Organizem um debate e comentem o que foi vivido na atividade. Além disso, discutam: o que significa respeitar a in- dividualidade? Como transpor os limites do preconceito?

Obs: Essa atividade poderá ser encaminhada com música.

 

 

Ao procurarmos compreender por que o corpo é visto fora de sua totalidade, ou seja, o corpo sem alma, sem influências sociais ou cultu- rais, fica evidente que tal abordagem é uma constante histórica.

 

 

Esta visão dualista, entre espírito e matéria, permaneceu nos sécu- los XVII e XVIII, quando o corpo passou a ser visto e entendido a par- tir da extensão da razão. Entretanto, continuava-se a entender o corpo como simples organismo, composto de matéria.

Atualmente, o debate sobre o corpo ganhou amplitude, fornecen- do importantes ferramentas para compreendermos os seus segredos, de forma que ele não seja fragmentado, como ocorreu ao longo da história.

 

 

 

Estamos vivendo numa sociedade cada vez mais excludente, e is- to acaba refletindo no estilo de vida que levamos. Com este modo de vida tão atribulado, sobra pouco tempo para o lazer e outras ati- vidades. Desse modo, não é de se estranhar quando você escuta os seguintes comentários: “vivemos uma vida muito corrida”, “não te- mos tempo para fazer nada”. A vida é repleta de obrigações e com- promissos, deixando-nos pouco tempo para  valorizar  “coisas”  sim- ples do nosso cotidiano.

Com este novo estilo de vida, cresce também os problemas relacio- nados ao corpo e à saúde. Nesse sentido, as doenças relacionadas à contemporaneidade da sociedade capitalista, como stress, depressão e tantas outras, são decorrentes do excesso de horas de trabalho, o qual se constitui como a única alternativa de sobrevivência das pessoas. Fa- zendo com que essas não tenham tempo e espaço para fazer outras “coisas”, como o lazer.

Dessa forma, como fica a saúde das pessoas?

 

z Analisando o terceiro segredo: o corpo na história da arte

O corpo, como já anunciamos, foi objeto de preocupação ao longo

da história, diferenciando-se, em determinados momentos, de acordo com os objetivos e parâmetros estabelecidos histórica e socialmente.

Será que um corpo belo significa necessariamente um corpo sau- dável? A busca pelo corpo belo é sinônimo de saúde? Como inserir as discussões sobre a saúde nesta busca?

Os gregos acreditavam que os exercícios físicos eram uma forma de expressão da imortalidade, tornando o homem um herói, um semideus “(…) em pleno equilíbrio e harmonia, dentro da mais perfeita compre- ensão do ser humano. O adestramento do corpo constituía um meio para a formação do espírito e da moral” (RAMOS, 1982, p.101).

A partir da citação anterior, você pode deduzir que os exercícios físicos constituíam-se em prática significativa na cultura grega. Esses eram praticados pelos gregos ao longo da vida, desde a mais ten- ra idade até a velhice, por ambos os sexos. Por isso os gregos foram considerados modelos de beleza humana. Aristóteles, escritor de mé- rito, assim descreve o grego: “Espáduas largas, coxas grossas, peito aberto e porte harmonioso, sem predominância do abdômen, capaz de romper o equilíbrio do corpo e prejudicar o desenvolvimento do espírito”. (RAMOS, 1982, p.102)

 

 

Assim, “(…) na Grécia Antiga, na Antiguidade Clássica, mais ou me- nos no século V, a arte que lá se fazia pretendia expressar um ideal de beleza e vida através de composições nas quais predominassem a si- metria, o equilíbrio e a proporcionalidade.” (COSTA, 1999, p.25)

A harmonia e o equilíbrio corporal eram materializados nas escultu- ras, as quais procuravam retratar o corpo belo e atlético. Essas obras re- fletem o conceito de beleza corporal predominante naquele momento.

É possível constatar essas questões nas esculturas  desse  período, por exemplo, o “Discóbolo”, século V a.C., do escultor Miron, procu- rava retratar as formas humanas com equilíbrio e perfeição nas for- mas corporais. As figuras esculpidas pareciam reais, tamanha a busca pelo perfeito equilíbrio entre expressão, proporção  e  “movimento”. Este era obtido por meio do princípio em que o apoio do peso do corpo se dá numa das penas e o restante do corpo segue este mes- mo alinhamento, dando a ilusão de uma figura surpreendida no mo- vimento (STRICKLAND, 2003).

Os padrões de beleza foram representados pelos artistas dessa épo- ca, como Policleto (escultor grego), que criou uma representação geo- métrica (cânone: teoria das proporções) de equilíbrio nas estátuas que deveriam ter sete vezes e meia o tamanho da cabeça.

Na Grécia antiga, a pessoa que tivesse conhecimento sobre a hi- giene e a medicina, chamado de “ginasta”, era o médico desportivo que cuidava da saúde e orientava a educação corporal daquele que praticava os exercícios. Ele tinha um auxiliar denominado de pedó- triba, que seguia à risca todas as suas orientações e ensinava os exer- cícios às pessoas. “Os exercícios gímnicos compreendiam as práticas feitas em estado de nudez, geralmente de caráter desportivo, a fim de dar ao indivíduo saúde, harmonia de formas, força, resistência e be- leza.” (RAMOS, 1982, p.109)

Que semelhanças existem entre a forma de cultuar o corpo no pe- ríodo grego com os dias atuais? Como você pode interpretar a busca pelo corpo belo?

Espelho, vaidade, beleza, malhação, dieta, e tantas outras palavras definem a necessidade e/ou vontade de estar bem, de procurar uma pseudo-saúde.

 

 

 

 

 

 

 

  • Vênus de Milo, c. 200 C. mármore, altura 202 cm; Museu do Louvre, Paris, França.

 

 

 

Os cuidados com a estética corporal são, quase sempre, veiculados pela lógica capitalista de mercado, principalmente as academias espe- cializadas em estética e beleza. Como você pode fugir dessa lógica? Como cuidar do corpo sem que para isso seja necessário pagar? A saú- de pode estar desligada da lógica capitalista?

Quando discutimos sobre os aspectos que envolvem nosso corpo, logo temos em mente as partes visíveis que o compõem: braços, pernas, cabeça, entre outras. Mas seria somente isso? Conhecemos nosso corpo? Como podemos entendê-lo sem fragmentá-lo? Somos somente um con- junto de músculos, ossos e órgãos? Como ficam as diferenças do corpo de uma pessoa para outra? Sabemos que somos seres únicos e indivisí- veis. Então, como fazer para convivermos com essas diferenças?

A sociedade nos apresenta conceitos e formas de nos comportar- mos, que se adequam aos seus interesses (comércio e beleza a serviço do lucro). Quando você define se as pessoas estão fisicamente bonitas ou não, aí está implícita a idéia de corpo ligado às noções de estética e lógica de mercado que comentamos anteriormente.

 

 

 

 

 

Por que insistimos em fragmentar nosso corpo?

 

 

E se você tivesse que olhar de outra forma para o seu corpo, para além da dimensão estética, como seria? Essa nova visão de corpo esta- ria voltada para a auto-estima acima de tudo?

Ainda considerando este novo (re)pensar corporal, é importante re- conhecer os próprios limites e as próprias possibilidades de praticar uma atividade física sem qualquer padrão pré-estabelecido.

 

z Analisando mais um segredo: a totalidade

 

 

A que dualismo a autora se refere? Por que ainda persiste a frag- mentação entre o corpo e a mente?

Na sociedade capitalista, a divisão do trabalho separa as ações de planejamento ou projeto, feitos por alguns, das ações de execução, fei- ta por outros. Na atividade industrial, a produção passou a ser planeja- da por uma determinada classe social (força mental) e executadas por outra (força física), reforçando assim a separação entre corpo e mente.

Neste quadro de desigualdades sociais e intelectuais está a contra- dição da valorização extrema do corpo e, conseqüentemente, a neces- sidade das pessoas serem aceitas em determinados meios sociais gra- ças a sua aparência física.

Há uma grande oferta de produtos para que o objetivo dessa acei- tação seja alcançado. Você pode observar essas questões a partir da venda de esteróides e anabolizantes, de um número elevado de li- vros sobre dietas, de cirurgias plásticas estéticas e eletivas (por esco- lha), etc. (ANZAI, 2000).

Impregnado pelas relações sociais de ordem capitalista, o corpo so- fre com as modificações relacionadas à ordem de mercado. Será que vale a pena essa busca, muitas vezes, sem medir conseqüências de or- dem física e econômica, para se ter um corpo perfeito?

Para Vaz (2003, p.67), “a Indústria cultural possui importante influência na perspectivação de um corpo perfeito, estabelecido através de um padrão tipificado, de acordo com a estética corporal moldada para es- ta sociedade. Essa tipificação massifica o corpo e o torna mercadoria a ser modificada de acordo com os interesses de mercado”.

A partir da perspectiva de corpo, apresentada no tempo históri- co em que vivemos, é importante que você tenha consciência de que seu corpo é reflexo de um conjunto de fatores biológicos e sociais, e

 

que romper com a visão estética, apresentada acima, pode passar, pri- meiramente, pelo reconhecimento de sua individualidade, tornando-se singular. Através desse reconhecimento, você começará a ter uma ima- gem de seu corpo que não tenha no mercado um reflexo. Para conhe- cer melhor o seu corpo, faremos a atividade a seguir.

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

Essa atividade proposta tem como objetivo principal proporcionar um momento de reflexão sobre as diferentes formas de ver os corpos e seus significados.

Material a ser utilizado: folhas de papel sulfite, tesoura, cola, lápis e cartolina.

Solicita-se que cada aluno(a) sorteie um papel no qual estará escrito uma parte do corpo (Ex.: cabe- ça; braço esquerdo; perna direita; etc.). Posteriormente, o(a) aluno(a) deverá desenhar, numa folha de papel sulfite, a parte do corpo sorteada. Em seguida, serão recortadas e coladas em uma cartolina to- das as partes do corpo desenhadas, com o objetivo de construir uma figura humana.

Ao final, comentam-se o(s) resultado(s), discutindo sobre as diferentes visões de corpo, isto é, por que cada um pensa o corpo de forma diferente? Será que existe um modelo de corpo? Quem ou o que define este modelo?

 

 

Vimos que a beleza instigada pela indústria cultural é uma realida- de, mas não é primordial para nortear a vida das pessoas. Os cuidados, em sua totalidade, deverão ser sempre considerados. Saber entender e lidar com tudo isso pode contribuir para que os segredos do corpo dei- xem de ser mistérios inatingíveis e se tornem realidade concreta.

 

z Referências Bibliográficas

ANZAI, K. O corpo enquanto objeto de consumo. In.: Revista Brasileira de Ciências do Espore, v.21, n. 2-3, Jan./ Maio de 2000.

CARBALLO, C.; CRESPO, B. Aproximaciones al concepto de cuerpo. Florianópolis: Perspectiva, v. 21, n. 01, p.229-247, jan/jun. 2003.

CARVALHO, Y. M. de; RÚBIO, K. (org.). Educação física e ciências humanas. São Paulo: Hucitec, 2001. p. 74.

 

 

COSTA, C. Questões de arte: a natureza do belo, da percepção e do prazer estético. São Paulo: Moderna, 1999.

RAMOS, J. J. Os exercícios físicos na história e na arte: do homem primitivo aos nossos dias. São Paulo: Ibrasa, 1982.

SANCHES NETO, L.; LORENZETO, L.A. Conhecimento sobre o corpo. In: SILVA, Ana M. (org.) Elementos para compreender a modernidade do corpo numa sociedade racional. In: Cadernos CEDES, Ano XIX, nº 48, agosto/1999.

STRICKLAND, C. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

VAZ, A. F. Corpo, educação e indústria cultural na sociedade contemporânea: notas para reflexão. Pro-posições, v.14, nº 2, p. 61-75, maio/ago. de 2003.

 

z Obras Consultadas

DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A.(orgs). Educação Física na escola. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, p. 141, 2005.

Grande Dicionário Larousse Cultural da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Cultural,1999.

REVERBEL, O. Oficina de teatro. Porto Alegre: Kuarup, 1993.

 

z Documentos Consultados ONLINE

http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/datas/saúde.html. Acesso em: 05 jan.

2006.

http://www.ufrgs.br/psiq/breve.PDF. Acesso em: 10 fev. 2006.

http://www.saudeemmovimento.com.br. Acesso em: 10 fev. 2006.

http://www.esportes.terra.com.br/interna. Acesso em: 20 fev. 2006

http://www.greciaantiga.org/art. Acesso em: 03 dez. 2005.

 

 

ANOTAÇÕES

 

 

 

 

 

I

z Lutas

Falar sobre as lutas como ma-

 

n
t

nifestação da Cultura Corporal significa traçar o que tal Conteúdo Estruturante foi desde sua consti- tuição até a atualidade, para re- fletir sobre as possibilidades de recriá-las por meio de uma inter- venção consciente.

r

As lutas sempre estiveram pre- sentes na história da humanidade nas atitudes ligadas às técnicas de ataque e de defesa; e vinculadas à instituição militar, além de serem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • THEREZ A Capoeira, 2004. Acrílico sobre tela, 60X80 cm. Fez parte da Exposição Brasil Invejável Paraíso realizada neste mesmo ano no Aeroporto Inter- nacional Tom Jobim e no Metrô Rio.

 

consideradas, por alguns povos, como sabedoria de vida.

o
d

Há, portanto, uma concepção teórica na origem das lutas. No entan- to, com o desenvolvimento e disseminação, os aspectos técnicos das lu- tas passaram a apresentar maior importância em relação aos princípios filosóficos que as fundamentavam. Como conseqüência, emergiram as federações e confederações, atribuindo status de esporte às lutas.

u

Assim, as concepções filosóficas das lutas ficaram relegadas a se- gundo plano, havendo uma preocupação excessiva com os princípios esportivos e os aspectos competitivos. Você sabe por que isso aconte- ceu? Quais foram os processos que influenciaram essa transição?

O Conteúdo Estruturante Lutas não é comum nas aulas de Educa- ção Física. Você se lembra de ter realizado atividades e discussões a respeito das lutas nessas aulas? Quais lutas foram trabalhadas?

ç

Ao não considerar as Lutas na prática pedagógica, ao descartá-las como conteúdo da disciplina de Educação Física, o currículo escolar desconsidera esta importante manifestação da Cultura Corporal e pre- judica a formação do aluno.

ã
o

A partir desse Conteúdo Estruturante, esperamos que você aprenda a distinguir as origens, as histórias, as formas de pontuação e os golpes existentes em algumas lutas. Espera-se que, além de apreciar as lutas, você possa aprender alguns golpes em suas relações com o estado de equilíbrio/desequilíbrio e as conseqüentes quedas.

 

 

Você deverá desenvolver uma visão crítica sobre as lutas, sendo ca-                      E

D

paz de diferenciar uma luta que tem concepções teóricas vinculadas a uma sabedoria de vida, e que foi organizada a partir de uma fonte his- tórica, de uma briga que acontece na rua ou nos estádios de futebol.

U
C

Desenvolverá, ainda, uma visão de totalidade sobre as lutas, ou se- ja, considerará quais são suas influências em nossa sociedade, como se deu o processo de esportivização e como elas se transformaram em mercadoria. Para compreender um pouco mais sobre esportivização e mercadorização das lutas, leia os Folhas “Judô: a prática do caminho suave” e “O futebol para além das quatro linhas”.

A
Ç
Ã

Ao conhecer as lutas no âmbito geral, esperamos que você tenha acesso a elas, pois se trata de um Conteúdo Estruturante da Educação Física construído historicamente, da mesma forma que os demais (gi- nástica, esporte, jogos e dança). Seu professor, nesse sentido, é convi- dado a tratar pedagogicamente esse Conteúdo Estruturante por meio do qual, coletivamente, você e seus colegas identificarão os elementos significativos centrais.

O

Após essa identificação, por meio da experiência, da prática, do es- tudo e da reflexão, alunos e professores devem conversar para melhor apreender o conhecimento referente às lutas, e às possíveis influências que elas sofreram nos diferentes períodos históricos. Você saberia di- zer que influências foram essas? Você consegue imaginar como ocor- reu esse processo?

F

As lutas devem ser observadas a partir de uma concepção amplia- da. Os lutadores devem concentrar-se em combater qualquer tipo de opressão, discriminação e não lutarem entre si. Deve-se, também, lutar pela construção de uma sociedade justa, livre e igualitária.

Í
S
I
C

Tão logo você tenha percorrido os caminhos da constituição, con- solidação e significado atual das lutas, resta, ainda, pensar como este Conteúdo Estruturante se insere no espaço escolar. Assim, será impor- tante sua participação no processo de (re)criação das atividades a se- rem constituídas a partir das lutas. Esperamos que você seja mais do que um mero receptor de informações e que possa, a partir de suas ex- periências e das experiências de seus colegas, modificar a forma como as lutas são trabalhadas na escola, para que um dia elas sejam compre- endidas de uma maneira mais crítica na sociedade. Dessa forma, ini- ciaremos nossas lutas. Estão prontos? Então vamos lá!!!

 

 

Capoeira: jogo, luta ou dança?    1

A

 

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

156    Lutas

 

Educação Física

 

 

10

 

CAPOEIRA: JOGO, LUTA OU DANÇA?

  • Sérgio Rodrigues da Silva1

 

 

 

 

 

 

“Paraná uê, Paraná uê, Paraná”. “Paraná uê, Paraná uê, Paraná”. No Paraná tem Capoeira?

Falando nisso, você já jogou, quer dizer, já lutou, ou melhor, já dançou Capoeira?

Afinal, a Capoeira é um jogo, luta ou dança?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Olavo Bilac – Ibiporã – PR

 

 

Capoeira: jogo, luta ou dança?    157

 

 

Inicialmente, conheça um dos conceitos de luta, pois poderá ajudá- lo a responder, mais tarde, o problema acima:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Roda de capoeira

Existem evidências sobre o nascimento da Capoeira relacionado com a luta dos escravos africanos pela libertação de trabalhos força- dos (africanos trazidos pelos Portugueses pa- ra o trabalho escravo no Brasil). Ribeiro diz que: “Ouviu-se falar de Capoeira durante as in- vasões holandesas, em 1624, quando escravos e índios, aproveitando-se da confusão gerada, fugiram para as matas. Os negros criaram os quilombos, entre os quais o famoso Palmares, cujo líder Zumbi era capoeirista, o mais forte e ágil. (RIBEIRO,1992, p. 26)

Você considera que a Capoeira, como tem sido praticada hoje, mostra esse lado pela bus- ca da liberdade que proporcionou no princí- pio?

Você concorda que é possível considerar que a capoeira favorece, aos praticantes, uma boa condição física? Por quê?

E ainda, é possível resgatá-la enquanto manifestação cultural e in- terpretá-la de maneira diferente como foi no seu surgimento?

 

 

 

z A capoeira como expressão de luta pela liberdade

 

Antes de vivenciar os movimentos alegres na roda de capoeira, os praticantes preparam o corpo com movimentos ginásticos que propor- cionam um ganho de flexibilidade para a execução dos golpes e das acrobacias.

Quando avançam no desenvolvimento da prática, de acordo com a avaliação do mestre, os capoeiristas passam pelo batismo ganhando um cordão que representará seu desenvolvimento, o qual será muda- do de cor após cada nível conquistado.

O desenvolvimento do capoeirista, ou seja, o seu aprendizado, é expresso pelos seus movimentos na roda de capoeira, que são sincro- nizados e organizados, de acordo com a música do berimbau, ataba- que e pandeiro.

 

 

 

 

O capoeirista participa da roda de capoeira jogando com muita vi- vacidade e descomprometimento dos movimentos, os quais podem ser técnicos ou não.

Por isso, a Capoeira é uma modalidade que pode ser vivida dentro e fora da escola, como uma atividade da cultura corporal, pois: “A ca- poeira, como educação física, faz parte da nossa história; contribui na formação de valores das crianças, jovens e adultos […]” (SANTOS, 1990, p. 29).

 

 

 

 

 

  • Zumbi dos Palmares

 

 

z A história da capoeira

 

Entre as muitas discussões sobre a história da capoeira, consta que ela foi criada no Brasil, pelos escravos africanos, no início da coloniza- ção portuguesa. (Veja caixa ao lado)

Em meados do século XVI, os escravos eram transportados da Áfri- ca para o Brasil, ‘empilhados’ em navios, trazendo apenas sua cultura: tradições, hábitos, costumes, religiões e danças.

“Devido aos trabalhos forçados, os negros se rebelavam, fugiam para um local seguro onde encontravam outros fugitivos e acaba- vam formando comunidades, denominadas de quilombos, que   sur- giam como uma forma de resistência às condições de trabalho escra- vo”. (REIS & GOMES, 1996, p. 9).

Dentre essas comunidades, destacou-se o Quilombo de Palmares, situado na Serra da Barriga, no Estado de Alagoas, liderado por Zum- bi. Palmares chegou a reunir mais de 20 mil escravos, índios, mulatos e libertos incluídos no grupo.

Os escravos dos quilombos se organizavam e trabalhavam em prol da liberdade desejada por eles. Como dificilmente tinham armas de fogo, ou qualquer espécie de instrumento para defenderem-se dos senhores que contratavam os capitães-do-mato para recapturarem os fugitivos, passaram a utilizar-se de certa dança guerreira, de cultura Africana, muito praticada por eles, que deu origem à Capoeira.

 

 

 

z Observe a imagem a seguir:

  • RUGENDAS, Johann Jogar Capoeira  (Domínio Público). Litografia, 1835.

 

 

 

Assim, é possível entender a necessidade dos escravos defenderem- se e lutarem por seus ideais. Dessa forma, surge a Capoeira.

Pode-se compreender que a Capoeira é uma manifestação da cul- tura brasileira e dentre as modalidades esportivas é a única de origem nacional.

É possível compreender a Capoeira enquanto uma dança e expres- são da arte?

Segundo Ferreira (2005), a dança apresenta uma forma técnica pró- pria em que se desenvolve um sentido de liberdade de expressão e de movimentos, é uma seqüência de movimentos corporais executados de maneira ritmada, em geral ao som de música.

A dança presente na roda de capoeira contribui para manifestar, ain- da mais, a presença desta arte criativa firmada no seio da cultura negra.

Com relação ao quadro Jogar Capoeira de Rugendas, apresentado anteriormente, se você desconhecesse o título e o que o autor quis ex- pressar, será que você saberia interpretá-lo?

Com a propagação da Capoeira, os escravos cada vez mais ganha- vam força e se organizavam. Por outro lado, as autoridades também passaram a adotar medidas de prevenção contra os rebeldes – assim eram chamados os praticantes de Capoeira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Mestre Bimba

Com o passar dos anos, percebeu-se que houve aumento da resistência dos negros com grande des- taque para a propagação e difusão da Capoeira.

“De acordo com Vianna, “(…) em 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, acontece a abolição do trabalho escravo no Brasil. Alguns escravos ficaram sem ocupação e tive- ram que passar a viver independentes, enquanto ou- tros continuaram trabalhando nas fazendas, receben- do pagamento pelos serviços prestados”. (VIANNA, 1970, p. 215).

Diante do receio da população por causa da prá- tica da Capoeira e, em alguns casos, pelo seu uso in- devido, em 1890, proibiram os praticantes de fazerem apresentações de exercícios de agilidade e destrezas corporais nas ruas e praças públicas, com base no Código Penal da República.

Apesar de ser reprimida e proibida, a Capoeira passou de pai para filho, geração a geração. Sua prá- tica e seus ensinamentos não se perderam, espalhan-

do-se por todo o Brasil.

Após a abolição, fatos importantes, como a introdução dos imigran- tes no trabalho agrícola em substituição ao trabalho escravo, ocorre- ram na economia e na política do Império, no processo de desescravi- zação. A Capoeira, aos poucos, deixou de ser recriminada, fixando-se como expressão do folclore nacional e como um importante instru- mento da cultura brasileira.

No governo provisório de Getúlio Vargas (1934-1937), visando con- quistar a simpatia do povo, foi liberada a expressão das manifesta- ções populares, por meio de um convite feito ao capoeirista Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba) para uma apresentação no Palácio do Governo.

Nesta época, esse ato teve um efeito valoroso, a Capoeira perdia as características de luta marginal e vadiagem, e a popularização des- ta cultura se firmava com a abertura da primeira academia de Capoei- ra do mundo. Sobre esse assunto, Falcão comenta que: “Com a criação da Capoeira Regional, Mestre Bimba conquista autoridades e profissio- nais liberais para conseguir e manter esta conquista, o referido Mestre retira a Capoeira do terreiro e a coloca em recinto fechado, nas acade- mias, possibilitando a participação de camadas sociais superiores”. (FAL- CÃO, 1995, p. 175)

A partir daí, a Capoeira vem se firmando como uma forma de ex- pressão cultural popular enraizada na história do Brasil, “… vincula- da a fatos e episódios da história do Brasil que, certamente, lhe con-

 

 

cedem a peculiaridade de poder agregar, de forma inter-relacionada, aspectos históricos, socioeconômicos e culturais que se refletem e se reatualizam na sua própria prática, dando-lhes novos sentidos e signi- ficados”. (FALCÃO, 2003, p. 69).

A propósito, você já consegue responder a questão inicial de nos- sa conversa? A capoeira é um jogo, luta ou dança? Pense um pouco e continue a leitura.

 

z Benefícios da capoeira

 

Para que você compreenda a Capoeira em seu contexto histórico-cultural e  como  uma das possibilidades da cultura corporal, é ne- cessário avançar um pouco mais e conhecer os benefícios que ela traz, embora saibamos que você, provavelmente, já conheça alguns.

Então, como usufruir dos benefícios da sua prática?

Quando observamos uma roda de Capoei- ra com todo o seu “gingado”, suas acrobacias, seus movimentos rápidos e destreza, utiliza- das na sua prática, inclusive o condicionamen- to físico e a flexibilidade necessárias, devemos observar toda beleza destes movimentos e co- mo os dois capoeiristas se compreendem, pa- recendo conversar através dos  gestos  dentro da roda.

 

 

Vários golpes podem ser utilizados como forma de autodefesa e as rodas promovem a socialização.

Cabe comentar ainda que, como a maioria das modalidades espor- tivas, a prática da Capoeira proporcionará um bom condicionamento físico. Se realizada pelo menos três vezes por semana, durante aproxi- madamente uma hora, promoverá a queima de calorias, desenvolverá a força muscular, resistência física e flexibilidade de seus praticantes.

Você poderá investigar outros benefícios assistindo a uma apresen- tação e entrevistando um capoeirista.

Assim, a vivência da cultura corporal nas aulas de Capoeira, através dos movimentos lentos ou rápidos, comandados pela música represen- tada pelo berimbau, pandeiro e atabaque, contribui para o desenvolvi- mento da capacidade aeróbica e anaeróbica de seus praticantes.

Música representada pelo berimbau? O que é? Será que você e seus colegas conseguem confeccionar alguns berimbaus? Esses instrumen- tos são usados por algum grupo musical que vocês conhecem? E os golpes, quais são os principais? Vamos ver alguns a seguir.

 

 

 

 

 

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

Confecção de Berimbau:

Materiais Utilizados: 1 Biriba crua; Pau Pereiro ou Candeias (verga, Arco de madeira) ou um cano de PVC flexível; 1 Cabaça cortada à altura do primeiro terço da parte anterior e perfurada em dois pontos; 1 Bambu com 40 cm de comprimento (para servir de baqueta); 1,80m de Arame (retirado de um pneu de carro); 1 Xexo (pedra ou dobrão) ou medalha ou moeda; 1 pedaço de couro de sapato (diâmetro: o mesmo que uma tampa de garrafa).

Etapas para confecção:

Primeiro passo:

Preparar a verga ou o cano de PVC para fixar o arame;

 

Segundo passo:

Fazer o “pezinho” para fixar o arame, ou seja, colocar o couro de sapato na parte superior do berim- bau, pregando-o com um prego de 2,50 cm. Se a opção for utilizar um cano de PVC, o “pezinho” para fixar o arame pode ser feito com pedaços de cabo de vassoura, fixados nas extremidades do cano.

 

Terceiro passo:

Fixar a cabaça à verga ou cano de PVC, utilizando um pedaço de barbante.

A partir daí, é só desfrutar! O acabamento final fica por conta da criatividade de cada um!

 

Que tal você e seus colegas convidarem um grupo de capoeiris- tas para virem ao colégio fazer uma apresentação? Vocês poderão fazer uma aula prática e programar, pelo menos, mais duas aulas ou encon- tros, para uma melhor compreensão dos movimentos e de seus signi- ficados.

 

 

Você acha que já sabe o bastante sobre a Capoeira? Então vejamos se responde as questões a seguir:

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

  1. Os movimentos de ginga têm um significado? Qual?
  2. É possível perceber a existência de um diálogo entre os capoeiristas gingando? De que forma? Isso é expressão corporal? Por quê?
  3. Existe harmonia entre o toque do berimbau e os movimentos realizados pelos capoeiristas? Por quê?
  4. Os movimentos e as acrobacias são semelhantes a algum tipo de ginástica que conhecemos? Quais?

Muito bem! Após ter realizado seus estudos sobre a Capoeira, fei- tas as atividades teóricas e práticas, será que você já tem uma respos- ta para os problemas levantados inicialmente? Leia os boxes abaixo e amplie ainda mais seus conhecimentos:

 

 

 

“Luta: Combate corpo a corpo, sem armas, entre dois atletas que, observando cer- tas regras, procuram derru- bar um ao outro. Qualquer tipo de combate corpo a cor- po.” (FERREIRA, 2005)

“Jogo: Atividade física ou mental organizada por um sis- tema de regras que definem a perda ou o ganho. Brinquedo, passatempo,   divertimento”. (FERREIRA, 2005)

Dançar é a arte de movi- mentar o corpo em um cer- to ritmo, ou seja, é a arte de mover o corpo segundo uma certa relação entre tempo e espaço. “(…) é um meio de expressão e de comunica- ção complexo, que envolve valores, portanto, a cultura.” (SIQUEIRA, 2006, p. 72)

Para saber mais sobre o conceito de jogo, leia o Folhas: “Competir ou coope- rar: eis a questão”, p. 67.

 

Agora responda: afinal, a Capoeira é um jogo, luta ou dança?

Uma vez que você já sabe um pouco mais sobre este elemento da cultura corporal, poderá analisar as contradições pelas quais a Capoeira passou, ao longo dos anos, compreendendo como esta cultura se espa- lhou pelo Brasil aumentando o número de praticantes que reconhecem seus benefícios. Veja o quadro a seguir:

 

Para saber mais:

“Um dos caminhos para exercitar essa reatualização histórica é, sem dúvida, uma consistente análi- se crítica da capoeira em sua trajetória. Não no sentido de retornar aos ‘velhos e bons tempos’, pois qualquer tentativa nesse sentido seria um ‘retorno transformado’, mas no sentido de compreendê- la melhor e implementar novos horizontes para a mesma. Afinal, a capoeira é um palco de tensões, onde forças reprodutoras e transformadoras coexistem dinamicamente”. (FALCÃO, 2003, p.70).

 

 

AMPLIANDO OS CONHECIMENTOS

 

LEI Nº 10.639, DE 9 DE JANEIRO DE 2003

Mensagem de veto Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretri- zes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA faz saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a se- guinte Lei:

Art. 1o A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arti- gos. 26-A, 79-A e 79-B:

“Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira”.

  • 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
  • 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de to- do o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, de Literatura e História Brasilei- ras.

 

 

 

Enfim, a Capoeira já tem conquistado seu espaço, atravessando fronteiras, chegando a inúmeros países, e no Brasil, diariamente, reúne seus adeptos para praticá-la e difundi-la como uma expressão do fol- clore nacional, da cultura corporal e, principalmente, como um instru- mento educativo importante para a consciência da nossa cultura.

 

 

z Referências Bibliográficas:

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992. DAOLIO, J. Educação física e o conceito de cultura. Campinas: Autores Associados, 2004.

FALCÃO, J. L. C. O processo de escolarização da Capoeira no Brasil. In.: Revista Brasileira de Ci- ências do Esporte, Santa Maria: v. 16, n.3, p. 173-182, Maio /1995.

             . Unidade Didática 2: Capoeira. In: KUNZ, E. (Org.). In.: Didática da educação física. 3. ed. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003.

FERREIRA, A. B. de H. Novo Aurélio – dicionário eletrônico. Versão 3,0. séc. XXI, 2005.

REIS, J. J. e GOMES, F. dos S. Liberdade por um fio: história dos quilombos do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

RIBEIRO, A. L. Capoeira terapia / Desenhos de Jair B. M. Pereira. 3. ed. Secretaria de Esportes, Bra- sília, 1992,

SANTOS, L. S. Educação: educação física – capoeira. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 1990.

SILVA, P. C. da C. Capoeira e Educação Física: uma história que dá jogo…primeiros apontamentos so- bre suas inter-relações. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 23, n. 1, p. 131-145, Set. 2001.

SOARES, C. E. L. A Capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808- 1850). Campinas: Ed. Unicamp/Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 2001.

VIANNA, H. História do Brasil. v. 2, 7. ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1970.

                . Folclore Brasileiro: Bahia. Ministério da Educação e Cultura, Secretaria de Assuntos Cul- turais, Fundação Nacional de Arte – FUNARTE, Rio de Janeiro, Portinho Cavalcanti Editora Ltda,1981.

 

z Documentos consultados ONLINE:

BRASIL. Ministério da Educação. LEI Nº 10.639, DE 9 DE JANEIRO DE 2003. Estabelece a inclusão no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Disponível em: <http://www.ensinoafrobrasil.org.br> Acesso em: 16 Jul. 2005.

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

170    Lutas

 

Educação Física

 

 

11

 

JUDÔ: A PRÁTICA DO CAMINHO SUAVE

  • Felipe Sobczynski Gonçalves1

 

Certamente você já ouviu falar sobre lutas ou, mais es- pecificamente, sobre o judô. Já se preocupou em refle- tir sobre como essa luta se originou? Quem foi seu fun- dador? Qual é a teoria que está por trás dessa prática? A quem ela interessava? Quais são suas influências em nossa sociedade? Como essa luta pode contribuir para a formação de alunos mais responsáveis, reflexivos e críticos? Como se deu sua espetacularização?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Lance Scott M. Biscuiti. Judô, 2005. Domínio Público

1Departamento de Ensino Médio – SEED/PR

 

Judô: a prática do caminho suave    171

 

 

Antes de iniciarmos mais um Folhas, precisamos enfatizar a neces- sidade de nos concentrarmos e dedicarmos a essa nova tarefa. A par- tir desse momento, entraremos no DOJÔ, local de total empenho, res- ponsabilidade e interesse.

Procuraremos, neste Folhas, demonstrar como o Judô pode ser tra- balhado e como podemos contemplar alguns problemas que o envol- vem.

Para que nossos diálogos sejam proficientes, precisamos da dedica- ção de todos, pois dessa forma poderemos atingir nossos objetivos.

 

z Como se originou?

 

 

 

 

 

  • Jigoro Kano (Domínio Público)

Antes de entrarmos propriamente na história do Judô, faz-se neces- sário uma breve introdução sobre seu fundador, Jigoro Kano.

Jigoro Kano nasceu no dia 28 de outubro de 1860, em uma pe- quena cidade chamada Mikage, situada perto de Kobe (Japão). Jigo- ro Kano era um jovem estudante que sofria por sua debilidade e frá- gil constituição física. Não pesava mais que 50kg, media 1,50m e essa condição o tornava vítima de atos de brutalidade de outros estudantes. Todavia, ele se dispôs a superar o desafio.

Iniciou na prática das artes marciais quando tinha dezessete anos. Estudou muito e com grande persistência, o que lhe deu condições de criar o Judô, uma nova forma de luta com técnicas, regras e princípios próprios, que valoriza a defesa e não o ataque.

Quando falamos do surgimento de uma determinada prática corpo- ral, precisamos ter em mente que ela não aparece do acaso. De acor- do com Orozimbo Cordeiro Júnior (1999), toda prática corporal, e dentre elas o jiu jitsu, surge a partir de determinadas necessidades sociais enfrentadas pelos seres humanos, em um dado contexto his-

tórico e influenciada por fatores econômicos, políticos, culturais.

O judô, como prática corporal, então, não nasceu por “gera- ção espontânea” das idéias de Jigoro Kano, mas tem sua origem no jiu jitsu. Por isso deve ser ensinado e compreendido como algo que resulta de um processo de síntese de múltiplas deter- minações históricas.

No contexto histórico feudal, marcado pela tirania dos la- tifúndios, a luta entre camponeses e samurais envolvia golpes de morte. Os camponeses não dispunham de espadas para lu- tar contra os samurais e, para se defenderem, foi necessário que

 

desenvolvessem uma luta de manifestação corporal coletiva, no caso, o Jiu-Jitsu.

 

z O Judô e seu florescer

 

As novas condições materiais concretas trazidas pela modernidade foram responsáveis pelo surgimento do judô. Com a emergência do capitalismo, o Japão passou por um processo de modernização e ur- banização. Com isso, teve contato com outros povos, além da supe- ração do sistema feudal e da era dos Samurais; dessa forma, não ha- via mais razões de se realizar lutas com golpes de morte. Além disto, a modernidade trouxe outras leis, outras formas de justiça – a polícia – e, enfim, uma nova necessidade histórica para o povo japonês: o con- vívio urbano. A partir da nova realidade social, surgiu uma nova prá- tica corporal: o judô.

Seu precursor, Jigoro Kano, pensou numa luta que mantivesse as tradições culturais japonesas, mas que se adequasse aos novos tempos, nos quais não fazia mais sentido lutar até a morte.

 

“Jigoro Kano buscou nas raízes do Jiu Jitsu os fundamentos do judô, procurando desenvolver uma luta que buscasse utilizar os movimentos agressivos do adversário a seu favor, desequilibrando-o, pro- jetando-o ou mesmo imobilizando-o. Por último, Jigoro Kano buscou dar um sentido educacional para o judô, tanto assim que o governo japonês introduziu sua prática nas escolas públicas” (CORDEIRO Jr, 1999, s/p).

“Para destituir o judô do caráter agressivo e contundente, também foram introduzidas, nesta luta, téc- nicas de queda e rolamento que visavam a amortecer o impacto do corpo com o solo. Não machucar o oponente é um princípio educativo fundamental do judô” (Ibid).

 

 

DEBATE

 

 

  1. Procure conversar com seus colegas e com o(a) professor(a) sobre qual é o sentido das lutas em geral em nossa sociedade, no bairro em que você reside; não se esqueça de refletir sobre as lutas de gangues e de torcidas de
  2. Como observamos, o Judô tem desde sua origem uma preocupação educacional e sem violência. Procure discutir a participação das meninas na aula de judô.
  3. Se o Judô não é uma luta para machucar e as quedas devem ser amortecidas, por que meninos e meninas não podem estar juntos nas aulas?

 

 

z No Brasil…

 

Sobre a chegada do Judô no Brasil, são poucas as fontes de pesquisas que subsidiem um aprofundamento do assunto. Mas temos

 

 

pesquisadores preocupados com esses elementos, como o professor Cordeiro Jr (1999), que faz uma análise do judô de maneira diferenciada da presente literatura dominante sobre o tema.

Durante as décadas de 20 e 30, o Brasil iniciou seu processo de modernização. Já tinha superado o colonialismo, o imperialismo e o trabalho escravo, mas era ainda um país de população predominante- mente rural e com a economia baseada na agricultura.

A partir dos anos de 1930, o país começou a industrializar-se e ad- quirir vida urbana. O capitalismo urbano industrial tomava força entre nós. Neste contexto, os movimentos migratórios que se iniciaram com a abolição e a necessidade de mão-de-obra agrária continuavam tra- zendo imigrantes que se instalavam nas cidades.

Entre os grupos de imigrantes, vieram os japoneses e, com eles, o judô chegou ao Brasil. No início, o judô era uma forma de matar as saudades da terra natal, isto é, uma maneira dos japoneses manterem suas tradições e sua identidade cultural.

Posteriormente, quando alguns destes imigrantes, já cidadãos e tra- balhadores brasileiros, ficaram desempregados, sem fonte de renda e sem poder sustentar suas famílias, surgiram as primeiras academias de judô no Brasil. Elas apareceram como espaço onde esses imigrantes podiam ensinar algo que conheciam bem – o judô –, fazendo disto um meio de sustento para suas vidas. Com isso, muitos brasileiros come- çaram a aprender o judô. Os filhos dos imigrantes japoneses, nascidos no Brasil, também ajudaram a difundir esta luta entre nós.

 

z O suave ato de lutar

 

As condições objetivas da sociedade japonesa possibilitaram o sur- gimento desta prática corporal, que a partir das concepções de Jigoro Kano começou a delinear-se como uma luta cujos fundamentos essen- ciais são as projeções, o jogo entre desequilíbrio x equilíbrio, as imo- bilizações, as quedas e os rolamentos.

Assim, o ensino das técnicas e fundamentos do judô não ocorre de forma isolada e estática, mas sim dentro de um contexto sócio-cultural, que lhe dá sentido e significado histórico. Para melhor compreensão, vamos pensar no exemplo dado pelo professor Cordeiro Jr (1999).

 

 

z O Judô como manifestação na era Meiji

 

O Judô se constitui como um dos elementos da cultura corporal. Já sabemos de sua origem no Japão em 1882 por Jigoro Kano, que por meio de sua escola, o Kodokan, possibilitou uma grande disseminação desse método de luta. Posteriormente, Kano realizou a divulgação de sua luta/arte para o restante do mundo.

Já sabemos também que o Judô é uma espécie de derivação do Jiu-Jitsu. Isso ocorreu no momento histórico em que o Japão entrava na Era Meiji.

“A abertura dos portos japoneses, em 1865, provocou inten- sas transformações do ponto de vista político-social, marcan- do a era Meiji, quando foi abolido o sistema feudal; houve rejeição da cultura e das instituições antiquadas; os conhe- cimentos dos países ocidentais foram introduzidos e ocor- reu acentuado declínio da prática das artes marciais no país. O Jiu-Jitsu não foi exceção, pois as escolas ficaram privadas das subvenções dos clãs e, ainda, a modernização das forças armadas levaram essa arte marcial a ser considerada parte do passado e em total decadência”. (FEDERAÇÃO PAULISTA DE JUDÔ, 2005).

 

Era Meiji

É bastante significativa essa era, porque foi o retorno do poder imperial no Japão. O poder executivo estava nas mãos dos Takugawas, o país dividido em feudos, muita inflação e miséria desoladora.

Nos fins do período de Edo, o governo de Takugawa já estava em decadência. Com a divulgação do estudo dos clássicos nipônicos e com a difusão dos conhecimentos sobre os assuntos estrangei- ros, surgiram críticas contra o Feudalismo. Já naquela altura, os samurais que constituíam a classe pa- rasitária se encontravam em crise econômica, ao passo que a burguesia comercial ia progredindo pro- porcionalmente à decadência daqueles (Figura-1).

O empobrecimento econômico e moral levou os guerreiros a desforrarem sobre os lavradores, im- pondo-lhes tributos forçados e fora de norma para satisfazerem sua sede de domínio. Com isso, a vida rural tornou-se impossível, aumentando cada vez mais a diferença entre proprietários e os não proprie- tários. Isso motivou novas rebeliões dos camponeses em todo o território japonês.

Em 1867, o poder foi entregue nas mãos do jovem Imperador Meiji.

A Era Meiji teve início no final do século XIX com Meiji Tenno (1852-1912) – Mutsuhito para os oci- dentais. Foi marcada pela supressão do feudalismo através de uma série de mudanças que visavam a adotar técnicas da Revolução Industrial. Entre as mudanças mais importantes, temos: a extinção dos feudos e dos privilégios pessoais através da reforma agrária e da reformulação da legislação do impos- to territorial rural; criação de universidades; formação de um gabinete parlamentar (1885); e a promulga- ção da constituição (1889), que instaurou a monarquia constitucional.

Os partidários do antigo regime rebelaram-se (1874-1877) contra a perda de poder, o que exigiu grandes gastos militares. A conseqüente situação de inflação e a política deflacionária adotada pelo go- verno caracterizaram um período de crise no Japão, em especial no setor rural. Uma das soluções ado- tadas foi a emigração, até então proibida.

 

 

 

 

 

 

 

Alfabetizados Masculinos (até 15 anos) 43%
População Urbana 20%
Alfabetizadas Feminino (até 15 anos) 15%

 

 

 

 

 

 

 

Alfabetizados Masculinos (até 15 anos) 98%
População Urbana 70%
Alfabetizadas Feminino (até 15 anos) 98%

 

  • Figura-1 Fonte: CORDEIRO Jr (1999)

 

 

z O Judô e o esporte espetáculo

As características apresentadas acima foram pouco a pouco incor- poradas pelo judô na medida em que ele e a cultura japonesa, em grande parte, ocidentalizavam-se. O judô, no Japão, ligava-se às mais profundas raízes da cultura de seu povo, mas a partir do contato com a cultura ocidental, tornou-se um esporte de alto rendimento, entran- do para as olimpíadas e sendo universalizado.

 

 

Não podemos negar que essa universalização contribuiu para que o judô viesse a enriquecer a cultura corporal de vários outros povos do mundo. Além disso, como espetáculo esportivo, passou a ser parte da programação da televisão, ganhou espaço nos jornais e revistas es- portivas, produziu ídolos e, desse modo, chegou a países cujo univer- so cultural é muito diferente do Japão, como é o caso da Alemanha e do Canadá.

O judô entrou numa Olimpíada pela primeira vez em 1964, em Tó- quio. Infelizmente a escassez de pesquisa e produção de conhecimen- to a esse respeito, no âmbito da Educação Física brasileira, não nos permite uma análise mais aprofundada dos motivos que fizeram com que o judô fizesse parte tardiamente das olimpíadas.

 

Nesse sentido, podemos observar que o esporte moderno, em ge- ral, passou desde sua origem por várias transformações e a mais recen- te delas impôs características mercantis ao mesmo. Nessa direção, não devemos esquecer que o judô também foi influenciado por esse pro- cesso. Essa mercantilização do esporte é decorrente da forte influência e poder dos meios de comunicação de massa e da expansão da indús- tria do entretenimento.

De um lado, o progresso tecnológico dos meios de comunicação de massa possibilitou que as informações chegassem a um maior nú- mero de pessoas, nos pontos mais remotos do planeta e em tempo re- al. Do outro, a necessidade de ocupação do “tempo livre” do ser hu- mano propiciou a criação da indústria do entretenimento.

Dentre os meios de comunicação de massa, a televisão é a que exerce maior influência sobre a população. Marchi Jr (2005, p.154) citan- do o sociólogo francês Pierre Bourdieu, afirma que: “a televisão está

 

 

articulada em torno de um espaço de exibição narcísica, em que seus interlocutores tendem a minimizar a criticidade dos espectadores. Os produtores culturais necessitam de ouvintes, leitores e espectadores, os quais potencializam o consumo de produtos, além de viabilizarem futuras investidas mercadológicas.”

 

Antigamente, os judocas competiam de Kimono branco e o que os diferenciava era somente uma faixa vermelha e outra branca, defini- das por sorteio. No entanto, no final da década de 90, para atender aos interesses da mídia televisiva, um dos judocas passou a vestir branco e o outro azul. Essa mudança na regra foi justificada pela necessida- de de melhor visualização dos competidores nas transmissões pela te- levisão.

 

 

 

Esporte-Espetáculo

 

Transmitido mundialmente pela televisão, o esporte tornou-se um dos vetores da globalização. Sua ideologia disfarça seu caráter político, a monetarização generalizada dos “valores” esportivos, fraudes e trapaças de todos os tipos e, sobretudo, doping maciço em todos os estágios.

 

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

  1. A partir do texto citado acima, construa, com seus colegas, um cartaz sobre o esporte-espetáculo, discutindo o seu significado. Para essa atividade, não há necessidade de encontrar entrevistas so- mente sobre o judô, vocês podem fazer sobre as diversas lutas existentes. Depois da construção, apresente-o para a turma.

 

 

z Conhecendo elementos do Judô

 

 

Os treinos e as competições de judô são realizados no DO-JO que pode ser uma sala ou um ginásio formado de TATAMES. Estes inicial- mente eram compostos por esteiras especiais de palhas de arroz, sen- do posteriormente substituídos por espuma sintética de borracha ou então raspas de pneus, com 2m x 1m de medida.

Na prática do judô existe uma escala de pontuação. Para as técni- cas desenvolvidas pelo judoca, que resultam na queda do adversário, é considerada a seguinte escala:

 

 

 

 

 

 

 

  • Tatame

 

PONTOS PENALIDADES
Ippon (Ponto Completo) Hansoku-make (Violação grave)
Waza-ari (Quase o ippon, meio ponto) Keikoku (Violação séria)
Yoko (Quase waza-ari, vantagem) Chui (Violação)
Koka (Quase yoko, vantagem pequena) Shido (Pequena violação)

 

O Koká caracteriza-se pela queda do adversário na posição sentado, além da imobilização de 10 a 14 segundos; o Yukô, pela queda lateral, corresponde à imobilização entre 15 e 19 segundos; o Waza-ari, pela queda encostando a metade das costas no chão (golpe semi-perfeito), com imobilização entre 20 e 24 segundos e o Ippon caracteriza-se pela queda com a totalidade das costas no chão (projeção perfeita).

O judoca pode conquistar um Ippon e encerrar a luta das seguintes maneiras: imobilizando seu oponente por 25 segundos com as costas

 

 

inteiras no tatame; com o acúmulo de dois Waza-ari; com a desistência do adversário; ou com o acúmulo de quatro faltas.

A vestimenta para a prática do judô denomina-se JUDO-GUI, que se compõe de três peças: SHITABAKI (calça), WAGUI (paletó) e OBI (faixa).

O judo-gui deve ser folgado e permitir a máxima mobilidade ao ju- doca, preservando seu bem-estar, sem limitar sua ação.

Pela cor da faixa (obi) identifica-se o nível de desenvolvimento e conhecimento do judoca. Hoje, no Brasil, a seqüência das faixas é a se- guinte: inicia-se pela faixa branca e sucessivamente vem a cinza, azul, amarela, laranja, verde, roxa, marrom e preta. O judoca somente che- ga à faixa preta quando já conquistou o espírito do judô, quando por meio do treinamento, estabeleceu o alicerce e já assumiu um novo mo- do de vida.

Na faixa preta existe uma nova classificação: o DAN. Existem dez dans. Até o 5º dan a faixa é preta e a cada dan conquistado, acrescen- ta-se um risquinho vermelho na ponta da faixa. Do 6o ao 8o Dan, a fai- xa é vermelha e branca e é chamada de rajada ou coral, KO-DAN. No 9o e 10o Dan, a faixa é vermelha. A faixa preta, então, seria o início da vida de um judoca e não o fim, como muitos acreditam.

O RITSUREI é o cerimonial de saudação ao companheiro, feito no início de cada treino, como demonstração de respeito.

Um outro importante ritual de respeito realizado pelos judocas é a reverência, que estes fazem frente ao retrato de Jigoro Kano, presente em todas as academias de judô. Esse cumprimento frente à figura do líder é chamado SHOMEN-NI-REI. A saudação feita ao sensei é o SEN- SEI-NI-REI

 

 

z O Judô em destaque: fundamento e técnicas básicas

 

Antes de conhecermos alguns golpes, mas sem finalizá-los com queda, precisamos aprender alguns exercícios educativos para não corrermos o risco de nos machucarmos. Veja alguns exemplos realiza- dos nos estudos de Cordeiro Jr:

 

 

  1. Rolando para frente (Zenpo kai tem)

 

A partir da seqüência das figu- ras, procure observar em ca- da uma delas o posicionamen- to das mãos, das pernas e da cabeça. Faça, em seu caderno, anotações de cada um dos po- sicionamentos.

 

 

 

 

 

  1. Queda para frente (Mae Ukemi)

A partir da seqüência das figuras, repare, na fi- gura 1, o posicionamento da coluna/braços, a ação dos braços e o posicionamento das per- nas. Já na figura 2, observe o posicionamento da cabeça/pescoço e do tronco. Faça, em seu caderno, anotações de cada um dos posiciona- mentos. Procure escrever como o judoca saiu da primeira posição para a segunda.

 

  1. Queda para trás (Ushiro Ukemi)

 

 

 

 

A partir da seqüência das figu- ras, observe o posicionamento da coluna, mãos/braços, pernas e ca- beça nas duas figuras. Faça anota- ções de cada um dos posiciona- mentos. Procure escrever como o judoca saiu da primeira posição para a segunda.

 

  1. Queda para o lado (Yoko Ukemi)

A partir da seqüência das figuras, examine, na figura 1, o posicionamento das mãos e dos pés. Na figura 2, observe o posicionamento do tronco e das pernas. Já na figura 3, verifique o posicionamento da cabeça/ pescoço, costas e mãos. Faça anotações de cada um dos posicionamentos.

 

 

z Golpes

 

Antes de aprender a executar qualquer golpe, a primeira lição é jamais soltar o companhei- ro com quem está praticando, para que não ocorram acidentes. Para executar os golpes com- pletos, até o companheiro ir ao solo, é preciso que tenha um tatame ou colchão para amorte- cer a queda, caso contrário, é preferível que se faça apenas a técnica em pé.

Para fazer as aulas de judô, o ideal seria utilizar o uniforme (kimono), mas quando is- so não for possível, os alunos devem usar blusas de manga comprida para que possam fazer a pegada com mais segurança.

Ao executar os golpes, seria interessante que a dupla tivesse mais ou menos o mesmo peso e a mesma altura para facilitar a dinâmica.

Todos os golpes de projeções devem ser treinados para os dois lados igualmente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

z Para terminar a conversa por hora

Agora que vocês já discutiram, refletiram sobre a construção social

do judô, seria interessante finalizarmos esse Folhas enfatizando que as lutas não se referem somente ao combate corporal, como relatamos no início dessa discussão. Existem conflitos que estão presentes em todas as dimensões sociais e podem ser vivenciados de variadas formas.

No contexto da sociedade capitalista, os combates são permanen- tes e necessários, sejam eles de ordem social, política ou econômica, que demandam a inserção, participação e o engajamento de todos na LUTA por uma sociedade mais justa e igualitária.

 

z Referências Bibliográficas:

BUCCI, E. Muito além do Espetáculo. Ciclo de Conferências, Teatro Sesc da Esquina: Curitiba, 26 ago. a 25 set. 2003.

CORDEIRO Jr, O. Proposta teórico-metodológica do ensino do judô escolar a partir dos princípios da pedagogia crítico- superadora: uma construção possível. Goiás: UFG, 1999. Memórias de Licenciatura.

DELIBERADOR, A. P. Judô: metodologia da participação. Londrina: Lido, 1996.

HYAMS, J. O Zen nas Artes Marciais. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 1979.

MARCHI Jr, W. O processo e resignificação do voleibol a partir da inserção da televisão no campo esportivo. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.26, n. 2, p. 149-162, janeiro 2005.

MONTEIRO, L.M. O treinador de judô no Brasil. Rio de Janeiro: Sprint, 1998.

SCAGLIA, A. J.; CAZETTO, F. F.; LOLLO, P. C.; MONTAGNER, P. C.; PAES,

R.R. O jogo como meio, o ‘tecnicismo’ de cara nova: o caso do judô. In.:

Revista Digital. Año 10 · N° 92 Buenos Aires, Enero 2006. VIRGILIO, S. A arte do judô. Campinas, SP: Papirus, 1986.

 

z Documentos consultados ONLINE:

FEDERAÇÃO PAULISTA DE JUDÔ. História do Judô: noções da his- tória. São Paulo. Disponível em: http://www.fpj.com.br/historia/historia. php?id=historia_judo01.htm. www.fpj.com.br. Acesso em: 22 fev. 2006 www.judobrasil.com.br. Acesso em: 15 fev. 2006.

www.paranajudo.org.br. Acesso em: 20 fev. 2006

www.pfilosofia.pop.com.br. Acesso em: 25 jan. 2006

www.meutatame.com.br. Acesso em: 30 jan. 2006

www.meutatame.com.br. Acesso em: 30 jan. 2006

www.fpj.com.br. Acesso em: 22 fev. 2006

 

 

ANOTAÇÕES

 

 

 

 

 

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z Dança

A dança é uma das formas mais antigas de expressão do ser huma-

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  1. Você pode até pensar: mas como isso é possível? Claro que não com as mesmas características que encontramos atualmente. Os gestos e movimentos expressados na dança eram espontâneos, naturais e ins- tintivos, embora assumissem papéis diversos com intencionalidades e interesses diferentes em cada momento histórico.
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Isto pode ser confirmado ao longo da história, através de registros das mais variadas formas de manifestações da dança, seja nas pinturas rupestres feitas pelo homem primitivo, nos momentos de festejos – co- mo nas festas da colheita, nas cerimônias religiosas, nas celebrações de bodas – e até mesmo em funerais (CAMINADA, 1999).

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Estas manifestações foram modifica- das, influenciadas pela cultura e pela tra- dição de cada povo, submetidas às regras rígidas. Devido a isso, as danças assumi- ram características mais formais, utilizando- se da técnica desde a sua formação em pa- res, círculos, colunas, entre outras formas, e aumentaram a preocupação com a estéti- ca dos gestos.

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Dessa forma, as danças assumiram ca- racterísticas próprias, representando a di- versidade cultural de diferentes povos, transformando-se em formas específicas de

 

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explicação da realidade. Mesmo que em graus diferentes, as danças orientam as prá- ticas do ser humano, as relações estabele- cidas com o trabalho, com a cultura e com a própria organização social, materializan- do-se num espetáculo de cores, gingas, rit- mos e sons.

  • Francisco de Goya y O enterro

da Sardinha. 1746-1828. Óleo em tela, 82,5 x 62 cm Museu: Real Academia de Belas Artes de San Fernando, Madri, Espanha.

 

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Entretanto, apesar de estarmos cientes da complexidade desse te- ma, uma vez que ele apresenta elementos que merecem um aprofun- damento, optamos por citar algumas das formas de dança que temos registro: dança primitiva, dança grega, danças medievais, danças renas- centistas, balé, dança moderna, dança contemporânea, danças folcló- ricas e danças populares.

 

 

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Você poderia se perguntar qual é o sentido de transportar para a                          D

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escola essas manifestações corporais representadas pela dança? A res-

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posta para este questionamento se justifica pela importância de viven- ciarmos, (re)conhecermos e desmistificarmos papéis que foram atri- buídos de maneira estereotipada à dança, valorizando a sua riqueza cultural.

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Assim, o espaço escolar e seus freqüentadores são parte de um contexto social mais amplo, onde os sujeitos trazem e expressam, em suas ações diárias, características que foram assimiladas e reconstruí- das ao longo da vida.

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  • Pieter Os camponeses dançam grande. 1567. Óleo em tela, 80 X 115 cm Museu Kunsthistorisches, Viena, Áustria.

 

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A escola, portanto, é um espaço social importante em nossas vidas, e, como em outros ambientes, ela também recebe influências de diver- sos fatores, históricos culturais e sociais, que são determinados pelos interesses e pelos objetivos dos grupos que detém o poder.

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É também no espaço escolar que nós construímos e “escrevemos” a nossa história de vida, a nossa individualidade e nossas relações so- ciais. Neste processo dinâmico de influenciar e ser influenciado, de en- sinar e aprender, estão os conhecimentos científicos que cada discipli- na possui, os quais contribuem com a formação dos indivíduos. Dessa forma, uma das disciplinas integrantes do currículo escolar é a Educa- ção Física, a qual se propõe a pensar a dança – um de seus Conteúdos Estruturantes – sob múltiplos olhares.

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I       Desse modo, é importante vivenciar no âmbito escolar as mais di-

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versas possibilidades de expressão corporal, desde as formas mais sim- ples, espontâneas ou livres até as mais elaboradas e formalizadas. Sen- do assim, propõe-se trabalhar com a dança como meio para reconhecer e compreender o universo simbólico que ela representa, utilizando o corpo como “suporte da comunicação”. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 83)

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Além disso, pode-se observar  nas  escolas  que  este  tema  é  pou- co valorizado, principalmente se comparado  à  significativa  influên- cia das práticas esportivas, ficando o mesmo relegado a um segundo plano ou até mesmo esquecido como possibilidade de trabalho com a Cultura Corporal.

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De acordo com SARAIVA (2005), a dança pode se constituir numa rica experiência corporal, a qual possibilita compreender o contexto em que estamos inseridos. É a partir das experiências vividas na esco- la que temos a oportunidade de questionar e intervir, podendo supe- rar os modelos pré-estabelecidos, ampliando a sensibilidade no modo de perceber o mundo.

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Então cabem alguns questionamentos: por que a dança é pouco pra- ticada na escola? Quando dançamos na escola, é apenas por ocasião de algumas datas comemorativas? As apresentações organizadas nos even- tos da escola não se limitam a reproduzir coreografias “prontas” veicu- ladas pelos principais meios de comunicação de massa? Quantas vezes são possíveis organizar, dirigir e modificar as próprias coreografias?

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A proposta deste livro didático, nesta disciplina, é pensar, discutir e problematizar essas e outras questões sobre a dança escolar como uma das possibilidades curriculares de exploração da chamada Cultu- ra Corporal. Nesse sentido, o desafio lançado aqui é o de tratar a práti- ca da dança articulada à reflexão numa perspectiva contrária a simples reprodução de movimentos.

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Como lembra REZENDE (1990), nós somos a síntese do mundo em que vivemos; esse mundo é um “campo de relações sociais historica- mente construídas”, e a dança nasce de um contexto e com ele inte- rage, “contrapondo-se, concordando e apresentando idéias,” manifes- tando-se através da Cultura Corporal. (REZENDE, 2005, p.62)

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O Folhas intitulado “Quem dança seus males…” procura refletir a influência da cultura e da indústria cultural na dança, destaca também as questões que se referem ao ritmo, ao conceito de dança, à razão de dançarmos pouco no espaço escolar, à resistência de meninos em par- ticiparem de atividades expressivas através da dança. Propõe algumas possibilidades de encaminhamento para este Conteúdo Estruturante nas aulas de Educação Física.

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O Folhas: “Influência da mídia sobre o corpo do adolescente” dis- cute em que medida os meios de comunicação de massa influenciam a tomada de decisão dos adolescentes, de maneira que passam a con- sumir produtos e a adquirir hábitos que estão na moda, a exemplo de algumas danças que acabam por denegrir a imagem da mulher, frente ao apelo sexual que expressam.

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A dança se constitui como elemento significativo da disciplina de Educação Física no espaço escolar, contribuindo para desenvolver a criatividade, sensibilidade, entre outros aspectos. Além disso, ela é de fundamental importância para refletirmos criticamente sobre a realida- de que nos cerca, contrapondo-se ao senso comum.

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O Livro Didático Público, baseado no formato Folhas, não tem a pretensão de abordar todos os aspectos de cada Conteúdo Estruturan- te. Por fundamentar-se na autonomia e na capacidade intelectual do professor, o formato Folhas não esgota os assuntos abordados e per- mite que muitas outras questões sejam contempladas nas práticas e re- alidades locais, atendendo as demandas próprias de cada escola e sua comunidade.

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Fica aqui uma contribuição para repensarmos o Conteúdo Estrutu- rante da Dança no espaço escolar e, em especial, nas aulas de Educa- ção Física, como elemento fundamental da Cultura Corporal.

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Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

190    Dança

 

Educação Física

 

 

12

QUEM DANÇA SEUS MALES…

  • Claudia Sueli Litz Fugikawa1, Mauro Guasti2

 

 

Será que as pessoas que dançam estilos de música, como apresentado na foto, questionam-se sobre o significado políti- co e cultural dessas danças? Ou será que elas simplesmente aderem ao estilo bem como à padronização de comportamentos para se inserirem em determinados grupos sociais?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Adolescentes dançando “Funk”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Bom Pastor – Curitiba – PR 2Colégio Estadual Angelo Gusso – Curitiba – PR Colégio Estadual Santa Cândida – Curitiba – PR

 

 

Quem dança seus males…

 

 

191

 

 

Você já ouviu no rádio, ou em outros meios de comunicação de massa, músicas como a que está escrita logo abaixo ?

“Cardápio do Amor”

Tati Quebra Barraco

Composição: Mc Tati / DJ Raphael / DJ Magal / DJ Washington / DJ Cabide / DJ Meteoro

“(…) com vários tipos de delícias você tem provar/se pedir café completo tu vai comer todinho/com chantilly nesse corpinho vou lamber ele todinho/na hora da refeição se tiver sua carne/(…) Cardápio do Amor “.

Acesso em: 20 nov. 2005.

 

Qual a sua percepção ao ler um texto organizado na forma de uma letra de música, ao observar uma imagem e ao ver alguém dançando?

Vamos responder rapidamente a estas questões. Os olhos começam a ler o texto, a ver a imagem, a ver os gestos de uma pessoa se movi- mentando e a decifrar sons agradáveis ou não.

Ao ler o texto, os nossos olhos são conduzidos da esquerda para a direita, decifrando os códigos ali colocados e, aos poucos, vão sen- do revelados os seus sentidos. Uma fotografia, um desenho, uma gra- vura ou uma imagem também precisam de uma leitura. Uma imagem pode ser olhada de diferentes perspectivas, a partir de qualquer pon- to, passando por ela em diversas direções. A composição das imagens

– as superfícies, as manchas, as linhas, os traços – também demonstra a forma de pensar de quem a produziu.

É possível “ler” os gestos? E o que podemos “ler” neles? Quando você observa gestos expressados pelo corpo dançando, estes se revelam ra- pidamente. Se observarmos atentamente esses gestos, veremos que eles estão repletos de sentidos, emoções e técnicas que se apresentam har- moniosamente. Os gestos, assim como o texto, a fotografia, a gravura, também apresentam significados. Por isso é possível ler os gestos. Por- tanto, a letra de uma música ou os gestos expressados pelo corpo que dança também apresentam intenções que podem ser decifradas.

Partindo dessa idéia, aí vai um convite para tentarmos decifrar al- guns dos códigos que poderão ser revelados neste universo impreg- nado de gestos, sons e ritmos – dança. Então vamos começar a nossa empreitada!

Falaremos um pouco sobre o ritmo. Algumas vezes em nosso coti- diano, ao ouvirmos uma música, ela pode soar de forma prazerosa ou não, dependendo do momento que estamos vivendo, fazendo-nos re- lembrar situações. Caso essa música nos remeta a uma boa recordação ou nos cause prazer, podemos sentir o nosso próprio corpo movimen- tando-se, e talvez até mesmo dançando ao ritmo da melodia.

Todo o gesto expressado por meio da dança é carregado de signifi- cados, intenções, emoções, técnica e espontaneidade, por vezes acon- tecendo de maneira isolada, outras vezes em harmonia. É importan-

 

 

te compreender as possibilidades desses significados sendo necessário refletir sobre eles.

Assim, alguns sons, ou mais especificamente alguns ritmos musicais, acabam nos envolvendo e por vezes reagimos a eles nos movimentan- do. Ou será que ao ouvir um samba ou um ritmo envolvente você nun- ca se pegou batucando? Ou pelo menos com vontade de fazer isso?

É claro que não devemos entender este gesto de maneira determi- nista, ou seja, atribuir-lhe um poder autônomo como se a música fos- se capaz de nos envolver quase que de maneira “divina”, “apoderan- do-se” de nós, de tal forma que nos impeça de agir de acordo com a nossa própria vontade.

A música nos influencia na medida em que nos “transporta” para ou- tras dimensões da imaginação e da memória, mas isso depende da histó- ria de vida de cada um e do contexto social e cultural em que nós estamos inseridos, que nos faz sermos como somos e pensar como pensamos.

É importante compreender as possibilidades que estão implícitas nas músicas e nas danças, sendo necessário também refletir sobre as inten- ções que elas trazem para buscar novos significados para elas, pois so- mos nós que comandamos e nos deixamos “transportar” pelos sentidos.

 

 

z A dança como reprodutora de modelos…

Imagine a seguinte situação: o rádio está ligado e toca uma música

que gostamos, começamos nos envolver com o ritmo desta música e, dependendo da situação, começamos a acompanhar seu ritmo batendo com a mão em algum objeto, nosso pé começa a chacoalhar ou bater no chão e outros movimentos corporais podem estar acontecendo quando estamos envolvidos pelo ritmo da música, e isso nos causa prazer.

Observe os gestos que você está realizando: Será que eles são espon- tâneos ou representam movimentos vinculados pela mídia ou aprendi- dos por meio do convívio com outras pessoas?

Considerando essas questões, recorremos a Gehres, o qual explica que é possível identificar dois aspectos científicos que permeiam a dan- ça escolar:

 

 

 

Na perspectiva da “dança como movimento”, essa prática é enten- dida apenas como uma seqüência de movimentos embalados por um ritmo, que envolve extensões-flexões e uma série de outros movimen- tos corporais possíveis de serem analisados e mensurados pelas mais diversas razões. Além de todas essas questões, a dança trabalhada nes- ta perspectiva desconsidera que temos interesses e motivações diferen- tes e faz com que lhe seja atribuído um sentido muito pessoal, expres- sando sentimentos e emoções.

Já na perspectiva da “dança como arte”, além desses  elementos  citados  anteriormente, a dança pode ser entendida como uma forma de expressão e apropriação do mundo. Neste caso, não haveria somente uma preocupação com a perfeição do gesto, mas principalmente com o seu significado e este entendido como uma construção que se efetiva nas relações so- ciais, históricas e culturais que as pessoas man-

 

  • Di Baile Popular Carnaval, 1972. Óleo sobre tela, 89 x 116 cm; Acervo Banco Central do Brasil, Brasília.

têm umas com as outras.

Para  compreendermos  melhor  essa  idéia,

 

vamos recorrer à sociologia, ciência que estuda o homem na  so- ciedade, definindo o  que  pode  ser  entendido  como  cultura,  ou  se- ja; “(…) as formas como os homens vão compreendendo, represen- tando e se relacionando com vários elementos componentes de sua existência: o trabalho, a religião, a linguagem, as ciências, artes e política.” (COELHO NETTO, 1997, p. 165).

Assim, basta imaginarmos uma pessoa da cultura oriental e que desconhece o ritmo de samba e uma brasileira da cidade do Rio de Ja- neiro, mais especificamente “dos morros cariocas”, impregnada cultu- ralmente por este ritmo. Imagine essas duas pessoas dançando ao rit- mo do samba no carnaval do Rio de Janeiro.

Seria fácil identificar qual delas tem mais afinidade com os movi- mentos desse estilo de dança? Provavelmente você diria que é a brasi- leira. No entanto, os aspectos anatômicos, fisiológicos e biológicos que constituem o ser humano não são os mesmos? Então o que as diferen- cia na forma de expressão do movimento?

O que as diferencia são os aspectos culturais que estão arraigados nos seus movimentos, que variam de cultura para cultura, que se cons- tituíram historicamente e se expressam por meio dos hábitos que re- produzimos.

 

Para aprofundar ainda mais essa discussão, podemos também nos remeter à Clifford Geertz, quando o autor descreve o conceito de cul- tura a partir de estudos da antropologia. Para o autor:

 

a cultura é a própria condição de vida de todos os seres humanos. É produto das ações humanas, mas é também processo contínuo pelo qual as pessoas dão sentido às suas ações. Constitui-se em processo singular e privado, mas é também plural e público. É universal, porque todos os humanos a produzem, mas é também local, uma vez que é a dinâmica específica de vida que significa o que o ser humano faz. A cultura ocorre na mediação dos indivíduos entre si, manipulando padrões de significados que fazem num contexto específico. (GEERTZ, apud DAÓLIO, 2004, p. 07).

 

Cabe lembrar que, dentro de cada cultura, existem outras “cultu- ras” que podem determinar outros padrões de costumes. Logo, cultura é apreender as determinações, os valores, as normas e as éticas. Além disso, as pessoas se apropriam destes elementos culturais resignifican- do-os, o que faz da cultura algo vivo, objeto de confrontos, conflitos e contradições constantes.

E o ritmo? Será que tem alguma relação entre o ritmo e a cultura? O ritmo também é influenciado pelos aspectos culturais, portanto, pode ser compreendido tanto no sentido individual como coletivo, pois ele está presente em tudo, determinando uma das formas de como nos ex- pressamos e interagimos no mundo.

O ritmo pode ser produzido de diversas maneiras – pois este se cons- titui como uma série de movimentos ou ruídos que ocorrem no tem- po a intervalos regulares, com acentos fortes ou fracos. Podemos obser- var alguns exemplos, tais como: sons de uma metrópole, sons de uma construção, sons do meio rural, sons da natureza, sons feitos pelo nos- so corpo, sons produzidos pelo homem por intermédio de instrumentos musicais, que num arranjo harmônico entre melodia e ritmo constituem a música, entre outros sons. No entanto, nem sempre os sons produzi- dos no nosso cotidiano podem ser cadências rítmicas agradáveis, como é o caso de ruídos provocados pelo som de uma furadeira.

Os ritmos produzidos nos grandes centros urbanos são provenientes de uma vida cadenciada pela pressa e pelas necessidades geradas em um mundo organizado em torno do trabalho, ou seja, conforme Saraiva:

 

Muitas vezes, supervalorizamos um ritmo que é fruto das relações societais e submetemo-nos a es- ta construção/invenção. O ritmo frenético das grandes cidades em que as pessoas se vêem subordi- nadas parece igualar o ser humano e a vida humana ao funcionamento de uma máquina que não tem tempo a perder. Não raro, a idéia de homem e mulher bem sucedidos é acompanhada desse ritmo. A pressa, a falta de tempo para resolver todas as tarefas/trabalhos que somos incumbidos a realizar ho- diernamente são valores já absorvidos coletivamente e que condicionam e limitam a percepção/sensi- bilidade para a “escuta” dos ritmos que estão em nós, que são ignorados na grande maioria das vezes e que cada um de nós poderia desenvolver e/ou refinar, seja através da dança, seja por meio de outra arte que desperte para tal percepção. (SARAIVA apud SILVA, 2005, p. 118-119)

 

Estamos vivendo numa sociedade cada vez mais concorrida, veloz, ágil e impaciente e isto acaba se refletindo no estilo de vida que leva- mos. Com este estilo de vida tão atribulado, sobra pouco tempo pa- ra realizarmos as atividades mais simples. Enfim, não podemos perder tempo. E nessa dinâmica, sobra pouco tempo para resolvermos to- das as “tarefas”, sejam elas de ordem pessoal ou profissional. Com is- to, acabamos constantemente comentando: “vivemos uma vida muito corrida” e/ou “não temos tempo para fazer nada”. Dessa forma, a vida anda cheia de obrigações e compromissos, deixando-nos pouco tem- po para valorizar ”coisas” simples do nosso cotidiano.

Essa corrida frenética é muito comum na vida das pessoas dos grandes centros urbanos, os quais acabam condicionando-as e limitan- do-as, fazendo com que sejam envolvidas com o ritmo de tudo o que está ao redor, com isso, acabam ignorando o próprio ritmo.

A escola parece ser o espaço ideal para o desenvolvimento da sensi- bilidade e do reconhecimento do ritmo vital inerente ao ser humano, uti- lizando-se dos elementos constituintes da dança numa ação educativa.

Leia o que Jeandot diz sobre ritmo vital:

 

O ritmo vital é marcado por tensões e relaxamentos energéticos sucessivos, condicionados no dia- a-dia por nossa movimentação e por nosso ritmo fisiológico. Essa noção rítmica instintiva, a que se mes- clam elementos sensoriais e afetivos, constitui a base de nosso senso de equilíbrio e harmonia, essen- cial para que nos situemos no mundo e percebamos seus limites e contornos. (JEANDOT, 1990, p.26).

 

Se o ritmo está vinculado ao equilíbrio e a harmonia individual, portanto internalizado, seria de fundamental importância, compreen- dermos como isso acontece e por que isso acontece em nosso cotidia- no. Assim estaríamos nos descobrindo e também aprendendo a perce- ber o ritmo do outro, o qual pode ser diferente do meu. Não seria este um dos papéis da dança na escola?

Para dançarmos nem sempre será necessário nos preocuparmos com movimentos pré-estabelecidos, mas também é importante conhe- cer e experimentar esses movimentos pré-determinados, uma vez que também aprendemos a partir da reprodução de modelos. Esses mode- los podem servir de referência para um aprendizado escolar, mas, aci- ma de tudo, devem possibilitar uma reflexão, no sentido de resigni- ficá-los, e esta pode ser uma das formas de se fazer uma re-leitura e uma análise das representações estilizadas e simbólicas que são pro- duzidas pela dança.

Você já prestou atenção nos estilos de dança, como o axé, o rap e o funk, entre outros, nos quais os gestos são sugeridos, determinando a forma de expressão dos grupos que dançam esses estilos? Muitas ve- zes, quando as pessoas estão dançando, acabam se preocupando com a execução das coreografias, o que impede a reflexão sobre as mensa-

 

gens veiculadas pelas letras das músicas e sobre os movimentos corpo- rais, “muitas vezes apelativos”, sugeridos nestas coreografias. Não que isto seja um problema, posto que neste momento há uma identificação com o grupo e um prazer proporcionado pela capacidade de repro- duzir com o máximo de perfeição tais gestos. Poderá vir a ser um pro- blema se a escola não for um local que oportunize a reflexão sobre o significado daquilo que é imposto pela cultura de massa, objetivando padronizar atitudes, condutas e pensamentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Então, vamos voltar à problematização inicial deste Folhas, que traz um recorte de uma letra de música funk, muito difundida entre os jo- vens, mas que nos faz pensar sobre a desvalorização do corpo e traz um forte apelo à sexualidade, dando a eles um sentido pejorativo. Mui- tas vezes, não nos damos conta desses aspectos, pois estão condicio- nando o nosso modo de vida de acordo com o grupo ao qual procu- ramos pertencer.

A partir dos questionamentos realizados anteriormente, vamos ex- perimentar a seguinte atividade:

 

 

ATIVIDADE

 

 

  1. Escolha uma música que você gosta e deixe seus movimentos serem levados pelo ritmo que ela es- tá Perceba que, provavelmente, se for uma música com coreografia pronta, automatica- mente você se colocará a repetir os movimentos pré-estabelecidos.

Agora, experimente fazer movimentos diferentes dos já estabelecidos para aquele estilo.

Você sentiu dificuldades? Por que temos dificuldades para elaborar novos movimentos para danças cujas coreografias já estão padronizadas?

  1. Você conhece a letra da música que acabou de dançar? Procure refletir sobre ela, desenvolvendo um texto, com no mínimo 15 linhas, descrevendo aquilo que você entendeu sobre a música.

 

 

A não reflexão sobre o movimento o torna mecanizado/auto- matizado, e romper com isto não é tão fácil, não é?

Pois essa é a lógica da indústria cultural que é fruto do siste- ma capitalista, no qual estamos inseridos. E o objetivo é a venda de mercadorias produzidas em série e em larga escala, que muitas ve- zes movimentam cifras fabulosas, como é o caso, por exemplo, de muitas músicas, CDs, filmes, clipes, entre outros.

Os consumidores dessas mercadorias são convencidos de que pre- cisam e devem comprá-las pelos meios de comunicação de massa, que criam a falsa necessidade nas pessoas de consumir esses produtos. A propaganda cria  necessidades  e  faz  com  que  a  maioria  das  pes- soas não reflitam, tornando-as consumidoras passivas

dos produtos divulgados. Isso acontece, tam- bém, com muitas danças, criadas apenas para atrair o público a consumir os produtos que a elas se vinculam.

A proposta, neste momento, é refletir sobre a questão das mensa- gens veiculadas por uma dessas músicas.

 

Esta letra de música é um dos exemplos dos estilos musicais que estão, constantemente, sendo veiculadas nos meios de comunicação, e que aumentam a audiência das emissoras de rádio, TV e outros veí- culos de comunicação.

Você poderia pensar que as letras dessas músicas são apenas jo- gos de palavras e que elas não podem influenciar o nosso modo de ser, pensar e agir. Mas não é bem assim, visto que de tanto ouví-las, acabam banalizando nosso entendimento, tornando nossos comporta-

 

 

mentos naturais e comuns. Além disso, elas limitam a nossa forma de expressão, inclusive a corporal, tornando certas atitudes e comporta- mentos naturais.

Vale lembrar o significado do termo expressão corporal:

 

Vamos relembrar as coreografias criadas para os bailarinos execu- tarem durante seus shows, principalmente quando se trata dos estilos musicais como o funk e o axé. De acordo com os autores Sborquia e Gallardo (2002, p. 112), normalmente as coreografias se constituem de mo- vimentos que “vulgarizam” e expõem o corpo, enfatizando “movimen- tos copulatórios e muito sugestivos”. Tais comportamentos podem su- gerir que estamos vivendo numa sociedade  cuja  única  preocupação está na busca do prazer e da satisfação pessoal, “mesmo que seja a qualquer preço”, ou um preço muito barato, mascarando outras di- mensões como a beleza, a arte, o prazer e a estética, por exemplo.

Devemos repetir coreografias como esses estilos de danças? Deve- mos dançar conforme a música? Ou será que é possível dançar consi- derando as experiências que cada indivíduo viveu, tendo em conta o grupo ao qual pertence, suas possibilidades de movimento e expres- sando-se de maneira própria?

O entendimento do senso comum, superficial e simplista de com- preender a realidade, é veiculado intencionalmente pela mídia, na ex- ploração da repetição dos movimentos coreografados para determina- do estilo de música.

 

 

Existe uma razão pré-determinada para isto, lembrando o que di- zem Sborquia e Gallardo (2002, p. 106):

 

Conforme esta afirmação e tudo o que foi exposto anteriormente, existe uma intencionalidade atrelada à divulgação intensa desses es- tilos de danças e músicas. Com esse estímulo constante da mídia, as danças passam a ter gestos padronizados na sua execução, relegando, a segundo plano, qualquer tipo de manifestação individual, possibili- dades de demonstrações criativas de sentimentos e emoções.

Mas, nesta perspectiva, iremos destacar uma outra forma de enten- dimento em relação à dança, considerando a seguinte definição:

Este autor entende a dança com muito mais complexidade do que uma simples repetição de gestos e modelos de coreografias veiculados intencionalmente pela mídia, visto que, a maneira como as pessoas se expressam é muito própria e está diretamente atrelada à história cultu- ral e social na qual estão inseridas.

Por que, então, não experimentamos novas alternativas de movi- mentos, novas formas de dançarmos diferentes ritmos e nos expres- sarmos de outras maneiras? Ao considerarmos todos esses aspectos, estaremos respeitando o ritmo individual, que constitui a nossa pró- pria história. Estaremos, também, entendendo as possibilidades e limi- tações de cada um, o que favorece o aprendizado de novas experiên- cias com a dança.

Conforme esclarece Gehres, a dança pode ser entendida como:

Dessa forma, conforme a citação anterior, o fato de executarmos um gesto por meio de contrações e expansões de movimento não sig- nifica que esteja se negando os aspectos sociais, históricos e culturais presentes nesses mesmos movimentos, e o inverso disso também é verdadeiro. Dessa forma, a dança pode significar tanto um movimento compreendido no campo biológico, como uma representação de um movimento culturalmente construído.

 

 

Nesse momento, ressaltaremos, de forma sucinta, os aspectos bio- lógicos que podem ser estimulados pela dança, destacando que é pos- sível sentirmos no próprio corpo os efeitos fisiológicos considerados benéficos a partir desta atividade. Esses efeitos são resultantes de um processo de adaptação do organismo, variam de indivíduo para indiví- duo e podem levar minutos ou até mesmo horas para ocorrer, depen- dendo da intensidade do esforço realizado, dos objetivos que se busca com esse esforço, da regularidade que se está praticando, das condi- ções de saúde e do estilo de vida que cada um tem.

Dentre esses aspectos positivos, Fox (1986, p. 407) aponta os seguintes:

  1. no sistema cardiovascular, com a elevação da freqüência cardía- ca e pressão arterial;
  2. no sistema respiratório, com o aumento do consumo de oxigênio;
  3. no músculo esquelético, com alterações de tipos de fibras mus- culares, aumento de força;
  4. no sistema endócrino, na atuação dos hormônios (tiroxina, cortisol e do crescimento), os quais exercerão efeitos sobre os órgãos.

A segunda questão apontada na definição de dança, conforme o que foi citado acima, fala de uma “tensão” que é “humana” e, se estamos ca- minhando nesta perspetiva, perceberemos que ela é fruto também dos enfrentamentos sociais, políticos, históricos, artísticos e culturais.

Assim, para efeitos pedagógicos, ressaltamos a importância da dan- ça no campo sociopolítico, entendendo que este se dá pela relevân- cia da mesma como um dos conteúdos da Educação Física escolar e que se encontra pouco valorizada neste meio. Isto se deve ao fato de que não “são determinantes as possibilidades expressivas de cada alu- no (…) imprimindo nele um determinado pensamento/sentido/intuiti- vo da dança para favorecer o surgimento da expressão espontânea”,

(COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 82).

Então: Por que dançamos pouco na escola? O Brasil não é um dos países que mais se manifesta por meio da dança?

A dança é um elemento significativo em nossa cultura, não é mes- mo? Podemos encontrar exemplos significativos dessa manifestação, como: no carnaval, no carnaval fora de época

do Nordeste, na festa do bumba-meu-boi em Parintins, nas comemorações juninas de diver- sos Estados, nos festivais de dança em Joinvi- le, nas academias de dança espalhadas por to- do o país, entre outros.

Além de todas essas formas de manifesta- ções de dança e da sua presença na nossa cul- tura, ainda assim, ela pouco integra o cotidia- no escolar. São muitos os significados que a

 

dança pode representar em nossas vidas e na

  • Festival de Parintins

 

 

sociedade. Dessa forma, é importante analisar esses significados e dar novos sentidos a eles. De acordo com o Coletivo de Autores (1992), “con- sidera-se a dança uma expressão representativa de diversos aspectos da vida do homem. Pode ser considerada como linguagem social que per- mite a transmissão de sentimentos, emoções da afetividade vivida nas esferas da religiosidade, do trabalho, dos costumes, dos hábitos, da saú- de, da guerra, etc.” (p. 82).

 

z A dança como produtora de significados…

Será que estamos dançando pouco na escola pelo fato de estarmos va-

lorizando pouco a livre expressão e a criatividade no que se refere aos as- pectos da dança? Será que ao dançarmos na escola, estamos simplesmen- te imitando aquelas coreografias “criadas” para determinadas músicas?

Muitas vezes, a exposição do corpo frente ao grupo nos remete também a uma idéia de reforço da “incompetência” em relação à falta de coordenação perante os colegas, por não conseguirmos repetir per- feitamente os gestos. Dependendo da situação vivida, pode ser moti- vo de “gozação” dos colegas na escola, ou fora dela. E reconhecer as dificuldades, enfrentar o medo, a vergonha, a inibição, o machismo, e tantas outras questões, não é tarefa fácil para ninguém. Hoje, quem tem “coragem” para enfrentar esta situação? Pois se determinou social- mente que para “saber” dançar é preciso repetir os modelos pré-esta- belecidos e padronizados de movimentos. Na escola, acabamos repro- duzindo o que é estabelecido na sociedade.

Uma possível causa de dançarmos pouco na escola se refere à questão da “liderança” do grupo. Quando um dos colegas domina per- feitamente os movimentos e assume o “status” de organizador do mes- mo, aqueles que não dançam bem  se  sentem  inibidos.  Entendendo esse “status” como processo de socialização – identificação com um determinado grupo. A socialização é o principal canal para a transmis- são da cultura e da formação de grupos, como a família, a escola e gru- pos de amigos. (GIDDENS, 2005, p.42).

Tais aspectos revelam a resistência que acabamos desenvolvendo em relação a vivenciar a dança como expressão da arte e movimento. Eco adverte no seu artigo:

 

Existe um aspecto ideológico ao não considerarmos importante a própria experiência com a dança, a descoberta de outros movimentos

 

 

e até mesmo de novas possibilidades de cada pessoa, sem que esses movimentos estejam vinculados às coreografias intensamente divulga- das pela mídia.

Essa é a lógica da indústria cultural que trata a dança como produto a ser vendido, a qual depende das demandas do mercado e deixa de considerar a produção histórica e cultural das mais variadas formas de dança. Será possível romper com essa lógica de massificação do mo- vimento? Se considerarmos nossa própria experiência como forma de expressão e reflexão crítica da repetição gestual, esta poderá ser uma maneira para romper com essa lógica?

Essa idéia não se refere às dan- ças folclóricas,  que  visam  explorar e preservar as manifestações cultu- rais, transmitidas pelas diferentes ge- rações e que mantêm as tradições

– elemento fundamental no reconhe- cimento dos saberes populares.

A dança, na perspectiva escolar, não objetiva o rendimento técnico, a execução perfeita do gesto, mas de- ve ser vista como elemento que con- tribui para a reflexão e a crítica. Isto não significa ser contrário ao ensi-

 

no da técnica ou tão pouco negá-la,

  • Dança Folclórica Polonesa 1998 – Acervo Centro Cultural Teatro Guaíra.

 

não a ensinando. É importante a aprendizagem das mais variadas pos- sibilidades de movimentos e esses também podem ser aprendidos por meio das técnicas. Mas também é preciso “ler”, analisar, comentar e cri- ticar as mensagens simbólicas, os significados que estão impregnados e permeiam os aspectos da dança.

Ao analisarmos, refletirmos, observarmos e discutirmos sobre os sen- tidos e significados, tanto positivos quanto negativos, estaremos vendo de diferentes ângulos as questões da dança. Esses são dados importan- tes que servem de referências, os quais contribuirão para reelaborarmos o nosso próprio conhecimento e as nossas crenças, enfim compreender- mos por meio da dança a realidade social da qual fazemos parte.

Portanto, ao percebermos a dança dessa forma, confrontando as tradições históricas com as formas atuais de movimentos, vivenciamos uma prática corporal que nos permite dar um sentido próprio às co- reografias.

Se voltarmos um pouco no tempo, constataremos que a dança sur- giu da necessidade do homem demonstrar, por meio do movimento do corpo, suas emoções; os gestos eram criados procurando representar as diversas ocasiões que estavam sendo vividas. Ao longo do tempo, foram modificando-se conforme a época e os interesses. Os movimen-

 

 

tos são formas de linguagem que transmitem determinados significa- dos. Por isso, os movimentos, na dança, incorrem em alguma padro- nização. É isto que significa a dança como linguagem – movimentos coreografados ou improvisados, mas que possam ser entendidos em sua intencionalidade.

É importante reconhecer, compreender e refletir sobre o universo simbólico que a dança representa. Além disso, torna-se necessário vi- venciar no espaço escolar as mais diversas possibilidades de expres- são corporal, desde a dança na sua forma mais simples, espontânea e livre até as danças mais elaboradas e formalizadas, onde o movimen- to consciente e expresso por meio do corpo se constituirá como “su- porte da comunicação”.

 

É importante considerar que há possibilidade de realizarmos movi- mentos conforme a nossa própria história, deixando fluir os sentimen- tos, criando outros movimentos, a partir do que foi experienciado.

Vamos organizar um debate em sala de aula. Para isso, precisamos ter em mãos alguns dados.

 

 

DEBATE

 

 

Converse com pessoas da família ou da comunidade, que tenham idade dos seus avós, e ques- tione: como a dança era praticada por essas pessoas quando eram jovens e tinham a sua idade? Qual era o significado da dança para essas pessoas? O contato com a dança era somente no espaço esco- lar ou em outros locais? Quais eram as problemáticas enfrentadas? Como era a participação das pes- soas? Qual era o estilo musical ouvido e dançado?

Atualmente, como você pratica a dança? Qual é o significado dos movimentos, gestos, para as pes- soas que a praticam?

Com essas informações, podemos organizar um fórum de discussões. Vamos dividir a turma em três grupos. Um grupo defenderá a idéia da dança enquanto manifestação cultural, para isso, há a ne- cessidade de elaborar argumentações e estratégias de convencimento.

O outro grupo será contrário a essa idéia e deverá argumentar para convencer aos colegas. O ter- ceiro grupo será mediador das discussões. Cada grupo utilizará o gesto, o movimento, para a defesa dos seus posicionamentos.

 

 

 

E aí, será que já é possível respondermos: por que dançamos pouco?

Há outro aspecto, vinculado à idéia de que “dançar é coisa de mulher”. Quais são os ele- mentos que nos levariam a pensar assim?

Cultural, social e historicamente, incorpo- ramos e assumimos determinados comporta- mentos tidos como comuns e naturais. De- pendendo do meio cultural, entende-se  que para o homem não “combina” dançar, porque a dança é também  uma  forma  de  expressão de sentimentos e demonstrar afetos e emoções não cabe ao universo masculino. Entretanto, o contrário também é verdadeiro para algumas culturas, pois os homens dançam, e isso repre- senta uma forma de manifestação significativa e relevante para eles.

Procurando exemplificar essa questão, des- tacamos que muitas famílias estimulam os seus filhos a práticas físicas com características mais voltadas à menina ou ao menino. Desde pe- quena, a menina é estimulada a dançar ou a outra prática física que envolva a música, o rit- mo, como: o balé, a ginástica rítmica desporti- va, a ginástica artística e outras. E o menino é incentivado a praticar esportes, em geral com bola ou lutas.

  • Acervo Centro Cultural Teatro Guaíra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Acervo Centro Cultural Teatro Guaíra.

 

Diante desse relato rápido, podemos ilustrar esta questão recorrendo à ficção. A sugestão é assistir, em grupo, ao filme Billy Eliot (2000, Ingla-

terra, direção: Stephen Daldry).

O filme se passa na Inglaterra, na cidade de Durhan, em 1984.  Mostra a cultura des- sa cidade pequena que tem como base a mineração. Contrasta com  o  mundo  artísti- co enfocado pela dança e, mais especifica- mente, o ballet clássico. O referencial dos habitantes da cidade não era outro senão a mineração – base, subsistência, ideal e cau- sa. No entanto, o conflito é travado quando um garoto de 11 anos, Billy Elliot, descobre a possibilidade de dançar, e se encontra ca- paz, satisfeito e envolvido pela sensação de

prazer, alívio e “válvula de escape”. Vive, en- tão, crises  existenciais  e  pressões  psicológicas e sociais, pois a aceitação do homem dançante

não é boa socialmente e é agravada ainda mais pelo seu estilo de dança, balé, ser aceito social- mente apenas para meninas e pela cultura local de que todos os homens deveriam um dia ir trabalhar nas minas de carvão. Mas a presença na memória, no sangue e na personalidade que Billy guardava de sua mãe já falecida era uma marca muito profun- da, como a seguinte frase escrita por ela numa carta: “Meu filho, seja sempre você mesmo”. O menino fez aulas de balé escondido, apoiado pela sua professo- ra, e se tornou um grande bailarino.

 

 

ATIVIDADE

 

 

A partir da sinopse anteriormente apresentada, vamos discutir em pequenos grupos as seguin- tes questões:

Qual era o significado da dança para o personagem principal, na cultura que ele estava inserido? Qual é a relação das meninas com a dança e dos meninos com o boxe? O que o personagem teve que enfrentar para poder realizar seu sonho?

Vamos discutir essas questões no grande grupo. Cada equipe apresentará os pontos de vista – o que foi consenso, o que foi polêmico – e fará uma comparação com a atualidade.

 

 

Dramatize a experiência de alguém que não consegue dançar e é obrigado a fazê-lo em determinadas circunstâncias. Como você se sen- tiu ao dramatizar um colega com dificuldades? Provavelmente, não te- nha sido uma experiência boa. Quantas vezes nos colocamos no lugar do outro e tentamos entender o que ele está sentindo? E qual é a nos- sa atitude nesta situação?

Algumas questões para pensar: quantos de nós temos mais afinida- de com a dança? Teríamos tomado a frente da situação, elaborando a coreografia segundo a própria história e o domínio corporal, ou copia- ríamos os movimentos conhecidos por meio dos programas de televi- são e de shows? E esses colegas, com menor domínio corporal na dan- ça, será que procurariam interferir e contribuir?

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

Aí vai um convite para você. Vamos organizar uma proposta de dança diferente na sua escola, uma mostra. Mas para que essa proposta seja efetivada, é importante que os grupos discutam e elaborem coletivamente os critérios que serão seguidos. Os grupos deverão considerar os seguintes objetivos:

  1. discutir, eleger um tema que possibilite nortear as apresentações;
  2. expressar uma mensagem utilizando uma música de um cantor que faz a crítica do tema;
  3. escolher os estilos de danças, tais como: da cultura popular, danças de salão, danças técnicas e danças folclóricas;
  4. discutir e apresentar aspectos como: características mais marcantes, situar as danças escolhi- das no contexto cultural, explicar as indumentárias, entre outras questões necessárias;
  5. discutir a letra da música escolhida, pois ela também precisa refletir sobre o tema;
  6. assegurar a participação de todos os envolvidos;

 

 

 

Nesta perspectiva, a dança poderá assumir um papel de linguagem social, mais dinâmica, oportunizando aqueles que estão praticando a (re) criação de movimentos, a expressão de dese- jos, sentimentos, idéias, enfim, a transmissão de mensagens. Sendo assim, a dança escolar passa a ter um papel efetivo, mais significativo e diferente daquele veiculado pela mídia atualmente.

Nesse sentido, concorda-se com Hanna, quando faz a seguinte citação em relação à dança:

 

Com a intenção de buscar um sentido diferente do que está posto ao conteúdo de dança no espaço escolar, ressalta-se a idéia de valorização da reflexão e da discussão sobre: a letra da música, as coreografias, as questões que envolvem a mídia, a discriminação, o significado da dança para o homem e para a mulher. Esses e outros aspectos são relevantes, necessários e merecem ser repensados. Para ilustrar esta questão, siga a sugestão:

 

 

PESQUISA

 

 

Escolha um estilo de dança. Vamos fazer uma pesquisa em relação à cultura na qual este estilo es- tá inserido, como foi a origem desse estilo, se existem filmes, fotos ou textos que possam contribuir pa- ra um melhor entendimento e visualização dos movimentos.

Esse estilo escolhido sugere algumas possibilidades de movimentos, as quais seguem em um de- terminado ritmo, então, experimente movimentando-se a marcação do tempo deste ritmo.

Utilize instrumentos musicais, que podem ser construídos artesanalmente com materiais alternati- vos. A partir da utilização desses instrumentos musicais, experimente as diversas possibilidades de mo- vimentos, de forma individual, em duplas, ou em grupos maiores, lado a lado, frente a frente, juntamen- te com o ritmo.

Faça uma enquete na turma e verifique se é possível identificar aqueles que têm mais domínio da dança, compartilhe o resultado com os seus colegas. Crie uma seqüência de movimentos, para que os colegas tentem copiar, a intenção é que todos vivenciem o máximo possível de variações sem se pre- ocupar com a perfeição dos gestos.

 

 

 

Estamos chegando ao fim desta produção, através da qual se bus- cou refletir, de maneira simples e provocativa, algumas questões que se referem à dança, como: as relações sociais e culturais, a importân- cia de se respeitar o tempo e a individualidade das pessoas, destacan- do-se a possibilidade de se transmitir por meio da dança uma mensa- gem crítica. A dança é um conhecimento produzido pela humanidade e precisa ser redimensionada no âmbito escolar, situando-a historica- mente, socialmente, como forma de ampliar opiniões e conceitos. Afi- nal, quem dança seus males…

 

 

z Referências Bibliográficas:

CAMINADA, E. História da dança: evolução cultural. Rio de Janeiro: Sprint, 1999.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.

COELHO NETTO, J. T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: Iluminuras, 1997.

DAOLIO, J. Educação física e o conceito de cultura. Campinas: Autores Associado, 2004.

FOX, E. L.; MATHEWS, D. K. Bases fisiológicas da educação física e dos desportos. 3 ed. Rio de Janeiro: Guanabara,1986.

GONZÁLEZ, F. J.; FENSTERSEIFER, P. E. Dicionário crítico de educação física. Ijuí: Unijuí, 2005.

GIDDENS, A. Sociologia. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.

JEANDOT, N. Explorando universo da música. 13 ed. São Paulo: Scipione, 1990.

 

 

SARAIVA, M. C. Dança e gênero na escola: formas de ser e viver medidas pela educação estética. Lisboa: FMH/UTL, 2003. Tese (Doutorado).

SBORQUIA, S. P.; GALLARDO, J. S. As danças na mídia e as danças na escola. In.: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.23, n.2, p.105-118, jan.2002.

SILVA, A. M.; DAMIANI, I. R. (org.). Práticas corporais: trilhando e compar (trilhando) as ações em educação física. Florianópolis: Nauemblu ciência & arte, v.2, 2005.

                  . Práticas corporais: experiências em educação física para a outra formação humana. Florianópolis: Nauemblu ciência & arte, v.3, 2005.

 

 

z Documentos consultados ONLINE

http://www.tatiquebrabarraco.com.br. Acesso em: 20 nov. 2005.

http://www.amazonas.am.gov.br. Acesso em: 28 jun. 2006.

 

 

 

z Filme

“Billy Eliot” (2000, Inglaterra, direção: Stephen Daldry). Filme que aborda a dança e a questão de gênero, do menino que dança balé.

 

 

ANOTAÇÕES

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

212    Dança

 

Educação Física

 

 

13

INFLUÊNCIA DA MÍDIA SOBRE O CORPO DO ADOLESCENTE

  • Gilson José Caetano1

 

O culto ao corpo, também conhecido como corpola- tria, é geralmente influenciado pela mídia. Atualmen- te, os corpos esguios, abdômen definido, corpo bron- zeado são algumas das sugestões para que as pessoas sigam. Mas apenas uma pequena parcela atinge tais objetivos. Grande parte das pessoas, ao perseguirem esses ideais de beleza, ficam pelo caminho e, muitas vezes, apelam para formas nada saudáveis para con- seguirem seus objetivos.

Na verdade, a busca incessante pela beleza traz gran- des vantagens para muitas empresas,  que  vendem seus produtos muitas vezes por preços absurdos. Diante dessas circunstâncias, será que você, como adolescente, tem autonomia sobre sua identidade corporal, ou é influenciado por uma lógica social de consumo em grande parte vinculada pela mídia?

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Edite Cordeiro Marques – Turvo – PR Escola Joanna Lechiw Thomé – Turvo – PR

 

Influência da Mídia sobre o Corpo do Adolescente                                    213

 

 

“(…) Estou, estou na moda.

É doce estar na moda, ainda que a moda seja ne- gar minha identidade, trocá-la por mil, açambarcan- do todas as marcas registradas, todos os logotipos

do mercado.

Onde terei jogado fora meu gosto e capacida- de de escolher, minhas idiossincrasias tão pes- soais?

Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem. Eu sou a coisa, coisamente.”

  • Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

Nesse Folhas, procuraremos evidenciar as relações entre o corpo, a mídia, o consumo e outras diversas formas de dominação ou explora- ção cultural, através de uma análise crítica, procurando esclarecer co- mo isso acontece e apontando, se possível, formas de superação de tais modelos vigentes.

 

 

z Construção Cultural do Corpo

 

Durante o processo de evolução da humanidade, o trato com o corpo sempre despertou interesses e fascinação. Muitas vezes, o cor- po foi desprezado, violentado e negado, principalmente devido ao fa- to do mesmo expressar sentimentos, desejos, anseios e necessidades, que eram associadas a atitudes pecaminosas.

É por meio do corpo que o homem participa do contexto social, comunicando-se, expressando sentimentos e interagindo. É o corpo que garante uma afirmação social, funcionando não como coadjuvan- te dos processos de transformações, mas como elemento fundamental para que ocorra esse processo.

O uso do corpo, e principalmente do movimento, por meio de su- as possibilidades comunicativas, é de interesse comum, pois todos nós fazemos parte de um ambiente social determinado e ao mesmo tempo determinante da cultura. Assim, o corpo não deve ser visto somente pelo lado biológico, sua constituição, fisiologia e funcionamento geral, ele deve ser compreendido como um todo, constituído inclusive pela sua relação com o ambiente social e cultural.

 

Para compreender isso, faz-se necessário entendermos a definição de cultura. Entre várias definições, uma afirma a cultura como “a vida total de um povo, a herança social que o indivíduo adquire de seu gru- po. Ou pode ser considerada a parte do ambiente que o próprio ho- mem criou”. (KLUCKHOHN, apud OLIVEIRA, 1993, p. 73).

Quando nos propomos a estudar ou discutir o corpo, devemos es- tar conscientes de que o corpo não é meramente um objeto de estudo. Ele é um meio de interação com a cultura circundante e, nesse senti- do, modifica e é modificado pela própria cultura.

O quadro a seguir procura evidenciar a diferenciação entre duas abordagens teóricas sobre o corpo. Uma abordagem baseada nos sabe- res das ciências biológicas, que estudam os aspectos naturais do corpo, e outra cujo olhar sobre o corpo está fundamentado nos saberes das ciências sociais, como a sociologia e a antropologia, que analisam o corpo considerando sua história e as relações que este estabelece com o ambiente social e cultural.  Assim, o corpo é tratado em seus aspec- tos biológicos e como instrumento de interação social e cultural. Borel (1992) diz que é a partir da infância que serão inseridas, no corpo, as marcas sociais. Portanto, sofre influências e modificações constantes; o corpo social é produto das regras as quais foi submetido, das determi- nações do meio social no qual está inserido.

 

 

z Oposição entre o corpo natural e corpo social

 

Oposição entre o corpo natural e corpo social
CORPO NATURAL CORPO SOCIAL
Natureza/Biológico (inato) Cultura
Corpo não marcado Corpo decorado
(tatuado, escarificado, pintado, etc)
Nudez Vestimenta
Desviante

(sem ritos de passagem)

Ritos de passagem (pertencimento)
 

(sem a intervenção da cultura)

 

(ao fim do processo)

Animal Humano
  • Fonte: A partir de Borel (1992) apud OSÓRIO

 

  • Corpo mais tatuado do mundo

 

 

 

z Construção Social do Corpo

 

Para iniciarmos a discussão sobre a construção social do corpo, precisamos entender o termo juventude, que, em grande parte dos ca- sos, não pode ser definida exatamente como um período de idade cro- nológica. Dentro do contexto cultural influenciado pelo capitalismo, essa definição toma uma proporção mística, em que o conceito de ju- ventude é entendido como um estado de espírito e físico ideal, alme- jado por indivíduos de diversas idades.

Por trás desse ideal comum, está presente a “indústria da juventu- de”, que surgiu após a década de 1950, através de movimentos cul- turais idealizados por jovens, numa espécie de contra-cultura ou, po- demos dizer, contra o sistema dominante. A contra-cultura criou uma série de signos que identificaram tais movimentos, a exemplo dos Hip- pies, o Rock, o Jeans, entre outros signos, sendo que tais movimentos não tinham como propósito inicial estabelecer novos estilos ou fundar outras formas de consumo.

Essa visão de jovem passou a ter uma conotação positiva em todas as culturas, transformando os padrões clássico-culturais em padrões de juvenização, principalmente, sobre o aspecto estético-cultural. O jo- vem passou a ser a referência a ser seguida e criou-se, assim, uma cul- tura de consumo que buscasse ou imitasse a juventude.

A “indústria da juventude” utiliza-se, principalmente, da mídia co- mo forma de manipular e explorar as pessoas para que elas façam par- te deste movimento. O termo juventude, muitas vezes, está associado a um padrão de beleza que envolve diversas formas de cuidados pa- ra esconder a idade real e causar a impressão de juventude eterna. En- volve, também, preocupações com o vestuário, atividades físicas, in- tervenções cirúrgicas e outras estratégias e cuidados destinados aos corpos das pessoas.

 

 

 

z Moda, Mídia e Juventude

 

O termo moda, entendido como “uma forma de imitação que leva à disputa geral por símbolos superficiais e instáveis de status”, (SIMMEL, apud TRIN- CA, 2004, p.50), vem ao encontro do termo “moda do corpo”. Esta evidencia- da pela mídia como o modelo do corpo jovem, moldado por meio dos exercícios físicos, ou transformado por cirurgias plásticas e/ou consumin- do determinados produtos que prometem contribuir para tal êxito.

Os meios de comunicação expressam uma idéia de valorização exagerada da juventude, através do consumo, do ritmo de vida, da atu- alização em relação às novas tecnologias e do individualismo, que é comum a alguns jovens em determinada idade. Esse é um ideal social apresentado como modelo de sucesso que garante a felicidade concre- ta, capaz de mudar nossas vidas. Nesse sentido, faz-se necessária uma leitura crítica daquilo que é veiculado pela mídia.

O cuidado com o corpo está passando por uma crescente atenção por parte de toda a mídia e da sociedade em geral, é fácil de perce- ber. Basta notar o número de clínicas de emagrecimento, novas aca- demias, diferentes modalidades de exercícios físicos, pesquisas sobre calçados e roupas esportivas, suplementos alimentares, entre outros. Essa concepção de cuidado com o corpo procura transformar o corpo em mercadoria.

As pesquisas na área de saúde estão cada vez mais se diversificando, para atender aos anseios dos consumidores, nos quais as recentes tecno- logias adotadas além de dar novas formas ao corpo, impõem regras e li- mites, diminuindo ou influenciando a liberdade de ação do próprio indi- víduo. O ser humano é manipulado de tal forma que o movimento por ele produzido deixa de ter expressão, sentido e espontaneidade, produ- zindo, assim, o “ser humano ideal” (para o capitalismo). Para compreen- der um pouco mais, leia a parábola das Estátuas Pensantes:

 

 

 

A mídia, de forma geral, explícita ou implicitamente, não conduz a atitudes de reflexão acer- ca dos problemas políticos ou sociais, sendo que a classe dominante procura, através dos meios de comunicação, impor idéias e conceitos de maneira subjetiva e inconsciente, produzindo, assim, modelos perfeitos de “seres humanos”. Será que a condição de “estátuas pensantes”, na realidade, não é a forma na qual nós somos moldados para atender aos anseios da sociedade de consumo?

 

 

 

 

 

z Indústria da Juventude

 

O homem, ao buscar o corpo perfeito, torna-se um produtor e, ao mesmo tempo, consumidor da indústria da juventude, sendo facilmen- te manipulado ou usado para tal fim.

Sobre essa realidade, Ortega Y Gasset afirma que “as modas atu- ais estão pensadas para corpos jovens, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos na indumen- tária” e ainda “não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas o modo adotado pela vida objetiva é o juvenil, e nos força sua adoção. Como com o vestir, acontece com todo o res- to: os usos, prazeres, costumes, modas estão talhadas à medida dos efebos.” (ORTEGA Y GASSET, 1959, p. 294).

Devemos assumir nossas realidades, aproveitando as experiências adquiridas ao longo do tempo, deixando de ser o que querem que se- jamos, mas assumindo o que queremos ser.

Quais as atitudes que devemos ter perante circunstâncias comuns presentes em nosso dia-a-dia, como propagandas de beleza parecidas com estas:

 

 

Essa indústria da juventude combate, de forma implícita, um “ini- migo” denominado velhice, o qual pode estar associado a temores de morte, do aparecimento de doenças, que podem levar a um isolamen- to social. Quando a indústria da juventude refere-se à terceira idade, esse idoso assume características semelhantes aos grupos mais jovens, que têm vitalidade, alegria, prazeres. O termo terceira idade remete a uma continuação e não a um fim, tornando os idosos consumidores potenciais de tal indústria. Sobre tal influência da mídia em relação à velhice, Sfez indica que:

 

 

 

 

z O Massacre do Corpo

 

Em nossa sociedade, o corpo é explorado, além das formas de pro- dução que são evidentes, como o desgaste produzido durante a jor- nada de trabalho, tornando o corpo máquina. Outro fator que cresce assustadoramente, pressuposto do capitalismo, é o massacre do con- sumo, pois, por meio dos ideais vigentes, as pessoas são induzidas a consumir, para não se sentirem excluídas do contexto social.

A moda e a mídia também fazem parte da cultura e são instrumen- tos poderosos de afirmação cultural. Por meio delas, a cultura pode in- fluenciar o modo de agir e ser das pessoas. Pode impor idéias e con-

 

 

ceitos a serem seguidos, mas que, geralmente, servem aos interesses das classes dominantes.

O culto ao corpo está cada dia mais presente nas campanhas pu- blicitárias, relacionando este culto à saúde e bem estar das pessoas, di- vulgando novas e diversas fórmulas para conseguir esses corpos valo- rizados e aceitos socialmente na busca incessante de uma identidade social. De acordo com esse anseio, a moda é utilizada como “arquivo e vitrine do ser/aparecer, sugerindo comportamentos e atitudes, fabri- cando selfs performáticos por meio de sutis recriações dos conceitos de verdade, de bem e de belo”. (VILLAÇA, 1999, p. 57).

 

z Mas o que é belo?

 

“Esse corpo, trabalhado em academias de musculação ou em clíni- cas de cirurgia plástica, deve ser exibido, visto que se tornou um va- lor, no duplo sentido: com altos investimentos de capital e tornando-se ele mesmo um capital, isto é, sendo socialmente valorizado” (GOLDEN- BERG e RAMOS, 2002). Será que essa busca pelo corpo perfeito deixa de ser um desejo de satisfação com o próprio corpo, e passa a ser um dese- jo de aceitação social? E as pessoas que não se enquadram dentro des- ses padrões de beleza, são excluídas do contexto social vigente? E o que dizer dos distúrbios alimentares como a bulimia e anorexia, que na maioria dos casos são decorrentes de uma preocupação exagerada com a estética corporal?

Para concluir a discussão sobre a identidade corporal, citamos um trecho de um estudo, que analisa o esporte com base no treinamen- to corporal:

 

to como maquinismo, natureza cega, ou, o que é pior, como cadáver. O olhar da ciência designa-lhe uma fungibilidade inespecífica, assim como um corpo morto assemelhar-se-á quimicamente, cada vez mais, a outro corpo morto”.

“Ao recair numa lógica cega que não percebe o progresso como produtor também da regressão, mas o toma como algo positivo em si, o esporte acaba por ser expressão e vanguarda da violência, da aceleração da vida em direção à morte”. (VAZ, 1999, p.104)

 

 

Dicionário de Termos

Utopia: qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, funda- mentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeira- mente comprometidas com o bem-estar da coletividade.

Materialidade: tendência para valorizar apenas aquilo que é de ordem ma- terial.

Maquinismo: o conjunto das peças que compõem e fazem funcionar um aparelho, um engenho; mecanismo.

Fungibilidade: que se gasta, que se consome após o uso.

 

 

 

ATIVIDADE

 

 

Assista ao Filme: Um homem chamado cavalo – (A Man Called Horse) Richard Harris – 1970 – EUA

– 114 minutos.

Obs.:Caso você não encontre o filme proposto, procure um outro filme que mostre uma cultura que você não conheça e procure analisar e discutir com os colegas o trato com o corpo que essa cultura estabelece.

Reflita após a discussão: você se sente influenciado em relação às maneiras de “usar” o corpo? Procure pesquisar, junto à disciplina de Filosofia, o conceito de beleza e suas diversas característi-

cas em diferentes culturas.

 

Gincana de habilidades

Conceito: Gincana de participação em grupos, com o objetivo de desenvolvimento de habilidades variadas.

Descrição: Provas de canto, “esquete”, prática esportiva, imitação ou mímica. Montagem e Desenvolvimento: A gincana deve ser dividida em 4 provas.

  • Canto: A equipe ou parte da equipe deve cantar uma música, que pode ser decidida por sor- teio ou escolhida pelo grupo, cujo tema esteja presente ou haja relação com a moda, mídia, cul- tura ou o Isso fica a critério do coordenador.
  • Esquete: Pequena encenação relacionada ao tema estudado, em que os integrantes do grupo se apresentarão através de gestos, mímica ou movimentos, texto falado ou a critério do coordenador.

 

 

  • Prática Esportiva: Apresentar alguma forma de modalidade esportiva procurando, através de adaptações feitas pela própria equipe, transformar as características competitivas em atividade
  • Imitação ou mímica: Representar diversas formas de influência presentes na mídia (comerciais e/ ou propagandas de marketing) em relação trato com o

O coordenador da atividade terá como função “julgar” todas as provas realizadas.

Observação: pode-se incluir outras provas na gincana, de acordo com as possibilidades e o local a ser realizado.

Objetivo: Essa atividade procura demonstrar que temos habilidades diversas, que nos diferenciam e, ao mesmo tempo, podem nos aproximarmos das outras pessoas, mostrando que existem, além da beleza corporal, outras formas de afirmação, comunicação e expressão corporal. Isso faz parte de nos- sa vida e devemos explorá-las ao máximo.

 

 

Após analisar a influência que o capitalismo exerce na produção dos corpos, é fácil perceber que a criação de modismos tem objetivos específicos e que atendem a uma determinada parcela da população. Mas será que você consegue entender como isso se reflete sobre a Cul- tura Corporal, mais especificamente para nós na Educação Física?

Algumas formas de massificação dos movimentos corporais são fa- cilmente percebidas nos esportes e na dança, pois essas atividades po- dem ser vistas como formas de lazer exploradas pelo interesse de gran- des grupos econômicos, tornado-se fortes instrumentos de alienação, distração e consumo fácil das massas. Mas podemos superar isso?

 

z A Dança como Conteúdo Escolar

 

 

A partir do conceito de “Massacre do Cor- po”, visto anteriormente, torna-se necessário ampliar novas perspectivas referentes à consci- ência estética, e a dança, por meio de seus mo- vimentos e de sua expressão corporal, pode contribuir de maneira significativa. “A auto-ex- pressão, a criatividade e o prazer proporciona- dos por estas atividades corporais são ótimas defesas contra a massificação de idéias e va- lores dominantes, uma vez que fortalecem as imagens internas individuais” (ARAÚJO, 1993, p.1). Como a própria autora descreve, a mas- sificação limita a imaginação das pessoas, tor- nando-as apenas reprodutoras de movimentos e gestos específicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Peter Bruegel, A dança do casamento, Óleo sobre tela, 119,4 x 157,7 cm. Detroit Institute of Art Detroit

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Festival de Parintins

A massificação da dança não deve ser nega- da nem marginalizada. “A melhor solução seria partir, constantemente, dessa cultura de massa e construir a cultura elaborada.” (GADOTTI, apud ARAÚ- JO, 1993, p.2).

Analisando a origem e a evolução dos diver- sos tipos de dança, é fácil perceber sua impor- tância histórica e social nos mais diversos mo- mentos históricos da evolução da humanidade, assim como a pintura. Nota-se que:

 

 

“(…) a evolução da dança seguiu o trajeto do templo, da aldeia, da igreja, do salão e do palco. Neste percurso, constituiu-se a dança étnica, folclórica, de salão e teatral. Esse fato nos leva a concluir que, se a princípio tinha conexão com impulsos primitivos do homem, a dança enfraqueceu-se nas civiliza- ções individualistas modernas, tornando-se privilégio de poucos.” (ARAÚJO, 1993, p.2).

 

 

Com isso, algumas formas de expressões denominadas de Danças Folclóricas e Danças Tradicionais estão se perdendo no tempo. Essas danças possuem ricas expressões populares que fazem parte de uma identidade nacional. Essas formas, denominadas de Cultura Popular, são a base para uma forma de cultura mais elaborada denominada Cul- tura Erudita. “A cultura erudita busca renovar-se pelo aproveitamento do bruto ou elaborado do que parece ser a espontaneidade e a vitali- dade populares.” (BOSI, apud ARAÚJO, 1993, p.2).

As danças da Cultura de Massa surgem em decorrência da música, sendo elas mais ritmadas, já que suas letras apresentam pouco signifi- cado e, em muitos casos, denegrindo a imagem da mulher. Vejamos al- guns exemplos no país: dança da tartaruga, dança da manivela, dança do pega-pega, dança das cachorras, dança da garrafa, dança do cava- lo manco, dança da tomada, dança da motinha, dança do maxixi (não confundir com o maxixe, dança urbana que surgiu no Brasil por volta de 1875), e outras. Esses modismos vão e vêm de acordo com interes- ses de gravadoras e dos meios de comunicação.

 

 

ATIVIDADE

 

 

Escolha uma dessas músicas da moda, ao som da qual os jovens dançam em suas festas, e faça uma análise crítica da letra. Exponha suas conclusões, em forma de painel, aos seus colegas.

E afinal de contas, você constrói o seu corpo ou deixa ser construído?

 

 

z Referências Bibliográficas

ANDRADE, C. D. O Corpo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.

ELIAS, N. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

GOLDENBERG, M. R.; SILVA, M. A civilização das formas. In: GOLDENBERG, M. (org.). Nu & vestido. Rio de Janeiro: Record, 2002.

MARCELLINO, N. C. (org ). Repertório de atividades de recreação e lazer. Campinas/SP: Editora Papirus, 2002.

OLIVEIRA, P. S. Introdução à sociologia. São Paulo/SP: Editora Ática, 1993.

ORTEGA Y GASSET, J. A rebelião das massas. Rio de Janeiro/RJ: Editora Ibero Americana, 1959. SFEZ, L. A saúde perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

SIMMEL, G. Filosofia de la moda, cultura feminina y otros ensaios. In: Revista de Iniciação Cientifica da Ffc. Marília: UNESP, 2004.

VAZ, A. F. Treinar o corpo, dominar a natureza: notas para uma análise do esporte com base no treinamento corporal. In.: Cadernos Cedes, ano XIX, no 48, Agosto/99.

VILLAÇA, N. et al. (org.). Que corpo é esse?. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

 

z Documentos Consultados ONLINE

OSÓRIO, A. A Geografia Corporal dos Espaços Abertos: reflexões sobre o corpo carioca. In.: Os Urbanitas – Revista de Antropologia Urbana. Ano 2, vol.2, n.1. Disponível em: <http://www. aguaforte.com/osurbanitas2/andreaosorio2005-a.html>. Acesso em: 26 nov. 2007.

 

 

 

 

Ensino Médio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

226    Dança

 

Educação Física

 

 

14

HIP HOP – MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA OU DE CONSUMO?

  • Cíntia Müller Angulski1, Mario Cerdeira Fidal-

go2, Rodrigo Tramutolo Navarro3.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Colégio Estadual Professor Pedro Macedo – Curitiba – PR 2Colégio Estadual João Ribeiro de Camargo – Colombo – PR 3Colégio Estadual Conselheiro Zacarias – Curitiba – PR

 

  • Quem são esses jovens?
  • Onde estão?
  • Aquela galera de calça caída, ca- miseta larga, com toca ou boné, são todos parecidos, né?
  • Parece que são da mesma família!
  • Por que será que estão sempre jun- tos? Será que têm algum interesse em comum?
  • Dizem que são do Hip Hop!
  • O quê é isso? Vamos descobrir?

Influência da Mídia sobre o Corpo do Adolescente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

227

 

 

z As raízes do Hip Hop

 

Alguns pesquisadores dizem que o Movimento Hip Hop surgiu nos guetos (ghettos) dos Estados Unidos da América, a partir da união de diferentes expressões artísticas, que aos poucos foram incorporadas ao ambiente urbano de Nova Iorque, na passagem dos anos 60 para os anos 70. (AVILA, OLIVEIRA E PEREIRA, 2005; ADÃO, 2006; LEÃO, 2006)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Malcolm X (1925-1965)

 

 

 

 

 

  • Martin Luther King (1929-1968)

Nesse período, os E.U.A. passavam por intensas discussões sobre os direitos humanos. Seguimentos marginalizados da sociedade de No- va Iorque se articularam para fazer valer suas propostas, numa tenta- tiva de diluição de suas inquietações. Surgiram grandes líderes negros como Martin Luther King (1929-1968) e Malcolm X (1925-1965), cada qual com seus princípios ideológicos, procuraram disseminar o direito e a igualdade social entre negros e brancos, em que os últimos pudes- sem respeitar os primeiros. (ADÃO, 2006, p. 74-75). Malcolm X e Martin Luther King, foram duas das grandes referências na luta popular do movimen- to Hip Hop, no que se refere a atitude contra a segregação racial e a violência com a população negra estadunidense. (MAGRO, 2002 e MARTINS, s/d)

A palavra Hip Hop é de origem estadunidense, e significa ‘saltar movimentando os quadris’ (Hip: Saltar; Hop: movimentando os qua- dris). O termo foi criado pelo DJ Afrika Bambaataa, fundador da orga- nização Zulu Nation. Saiba mais no quadro a seguir:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse movimento surgiu a partir de um grupo de pessoas, em sua maioria negras e pobres, que enfrentavam dificuldades diversas como

 

 

a baixa escolarização, os preconceitos raciais, as desigualdades sociais, a falta de empregos dignos, dentre outras. Para eliminar a segregação, muitos grupos de negros se organizaram, posicionando-se como pro- dutores de uma cultura popular de resistência.

 

Os anos 60 para os negros dos E.U.A foram um tempo de muitas batalhas e confrontos com a polícia. Vamos contextualizar o período para entendermos o porquê da indignação desse grupo. Você sabe o que estava acontecendo nos E.U.A. nessa época?

 

 

PESQUISA

 

 

Pesquise sobre o contexto histórico-social e cultural dos E.U.A. na segunda metade do século XX. Cite os acontecimentos históricos que julgar importantes, relacionando-os com as condições de vida da população estadunidense da época. Ainda, pesquise quem foram Martin Luther King, Malcolm X e os Panteras Negras. Qual a relação deles com a luta social e, portanto, com o surgimento do movimen- to Hip Hop?

 

 

 

Foi nesse contexto que o Movimento Hip Hop se ori- ginou, agrupando diversas práticas culturais humanas que tinham um objetivo em comum, fazer críticas a estrutura social estadunidense.

Essas práticas estão associadas à elementos da músi- ca e de expressão corporal, pois existe uma forte relação entre a juventude e a música. Historicamente, isso acon- teceu inicialmente com o jazz, na década de 50, expan- dindo-se e diversificando em estilos, colocando os jovens como produtores musicais, na década de 70, por meio do RAP. (DAYRELL, 2002)

A segunda metade do século XX foi um período de in-

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Ilustração 2: U.S. Departament of defense/Cesar Rodri- guez, S. Air Force U.S.A. Disponível em: <http://www. rand.org/publications/randreview/issues/rr.03.01/global. html>. Acesso em: 19 nov. 2007.

 

tensos conflitos, principalmente articulados por grupos de jovens. “A cultura jovem tornou-se a matriz da revolução cultural no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, nos meios de gozar o lazer e nas artes comerciais, que formavam cada vez mais a atmosfe- ra respirada por homens e mulheres urbanos.” (HOBSBAWM, 1995, p. 323)

Outro acontecimento desse período, que causou muitas revoltas,

 

foi a Guerra do Vietnã (1965-1975). A maioria dos soldados recrutados para a linha de frente era de origem negra e latina.

Enquanto milhares de pessoas morriam no Vietnã, nos subúrbios de Nova Iorque, afro americanos lamentavam a perda de duas grandes lideranças, Malcolm X e Martin Luther King, e exigiam justiça.

Este ambiente influenciou bastante os precursores do Movimen- to Hip Hop. Uma das formas de expressar a indignação foi através do Break. Muitos movimentos preservados ainda hoje, refletem o corpo debilitado dos soldados que retornavam das guerras, ou então a recor- dação de um objeto utilizado no confronto. (MARTINS, s/d)

 

  • DESENHO: O Giro de Cabeça (Head Spin) – simboliza os helicópteros utilizados durante a guerra do Vietnã.

 

 

 

z Você sabe como e quando o movimento Hip Hop chegou ao Brasil ?

No Brasil, a introdução da cultura Hip Hop se deu durante o Regime Militar (1964-1985). Nesse período, ocorreu a proliferação de “bailes black” nas periferias dos grandes centros urbanos, especialmente em São Paulo. Embalados pela música negra estadunidense, mi- lhares de jovens se reúnem nos bailes de final de sema- na, freqüentados principalmente por jovens negros e pobres em sua maioria. (DAYRREL, 2002)

Quando o Movimento Hip Hop começa a ser difun- dido, grandes empresários e algumas esferas do gover- no sentem-se incomodados com a repercussão desse movimento. Um reflexo desse incômodo se deu através da mídia, que se apropriou do Hip Hop massificando

 

 

essa cultura popular, fato que possibilitou sua maior difusão, especial- mente em revistas e jornais. No entanto, se por uma lado essa integra- ção da cultura Hip Hop numa lógica de mercado expandiu seu acesso, por outro plantou sua homogeneização a partir de determinado inte- resses.

Esses interesses, que passaram a ser disseminados pelo Hip Hop apropriado pela cultura de massa, é justamente o oposto do que pre- coniza o Movimento Hip Hop.

Ao ser apropriado pela mídia e transformado em uma cultura de massa, o Movimento Hip Hop foi marginalizado e criminalizado, pois não era interessante permitir que um grupo de pessoas disseminassem um discurso crítico sobre a realidade social.

Inicialmente, o movimento expressava, através de seus elementos, a realidade principalmente da grande periferia. Por ter um caráter de reivindicação social, similar ao movimento negro, ao movimento em defesa dos favelados (MDF) e ao movimento dos trabalhadores ru- rais Sem Terra (MST), o Movimento Hip Hop preocupavam-se com a formação política de seus participantes e da sociedade. Nesse senti- do, a busca pelo conhecimento faz parte de seu compromisso, pois procuravam compreender como se estruturam as relações sociais. Al- guns teóricos consideram o conhecimento como o quinto elemento do Movimento Hip Hop. (LEÃO, 2006) Para saber mais sobre os movimentos so- ciais, leia o Folhas: “Movimentos Sociais”, no Livro Didático Público de Sociologia.

Com a forte influência da mídia, as pessoas que não tinham conta- to mais próximo com esse movimento manifestavam uma certa resis- tência, pois a imagem que passava nos meios de comunicação era a de que o Movimento Hip Hop se constituía por criminosos, bandidos, as- sassinos e usuários de drogas.

Esse tratamento, dado principalmente pela mídia, se estende até os dias atuais, pois convivemos com uma censura que se encarrega de transformar fatos corriqueiros em grandes feitos político-administrati- vos dos governantes, ou de omitir e maquiar fatos desabonadores de sua imagem. “É a mídia transformando a política em espetáculo, usan- do para isso os novos meios tecnológicos e do campo da informática para produzir efeitos considerados desejáveis pelos detentores políti- cos e econômicos do poder.” (PEDROSO, 2001, p. 55)

 

 

 

Qual é a sua impressão sobre essas manchetes?

Elas mostram como foi representativa a entrada de uma cultura po- pular de resistência no espaço social, que tinha como uma de suas características a crítica a uma sociedade considerada injusta, por be- neficiar apenas a determinados grupos sociais, o que demonstra a vi- sibilidade que o Movimento Hip Hop trouxe, causando grande espan- to à mídia na década de 90. (JOVINO, 2004, p. 979).

Não podemos negar que a classe dominante, isto é, os grandes em- presários e detentores do poder social, político e econômico, tem con- dições de monopolizar os meios de produção e, portanto, de comuni- cação. Dessa forma, possuem certa autonomia para direcionar as idéias e os posicionamentos que as pessoas têm sobre a realidade. Pois, atual- mente, sabemos que é pelos Meios de Comunicação Social (MCS), isto é, rádio, TV, jornais e outros, que temos uma referência sobre o mun- do, que conhecemos e visualizamos outras culturas, que temos contato com o que existe, com o que se publica ou com o que se faz.

“Na realidade, cultura e comunicação são dois termos que se in- terpenetram desde o surgimento dos primeiros meios de comunicação social. Apesar da existência de outros agentes mediadores e transmis- sores de cultura, como a Educação ou a Família, é inegável o poder que os media [a mídia] exercem sobre um número elevado de indiví- duos.” (SILVA, s/d, p. 02-03. Grifo nosso). Para saber mais sobre o surgimento dos movimentos sociais, políticos e culturais no Brasil, leia o Folhas: “Mo- vimentos sociais, políticos e culturais na sociedade contemporânea: é proibido proibir?”, no Livro Didático Público de História.

A partir desse cenário, podemos discutir a noção de Indústria Cul- tural. Este termo foi criado pelos pensadores alemães Theodor Ador- no (1870-1941) e Max Horkheimer (1895-1973), da Escola de Frankfurt, para descrever uma espécie inserção no mercado de produtos cultu-

 

rais em série que são consumidos pela sociedade, isto é, uma indústria midiática ligada a um modelo de produção capitalista, que banaliza a cultura historicamente produzida pela humanidade, contribuindo para criar, reproduzir e manter uma ideologia dominante e de consumo.

 

É especialmente por isso que, atualmente, quando se ouve falar em Hip Hop, é comum esta manifestação cultural estar associada a drogas, criminalidade, a marcas de roupa, jóias, entre outros, pois estas são formas de transformar uma cultura popular, e um movimento social de resistência, em mercadoria.

No entanto, com o passar dos anos o próprio Movimento Hip Hop conseguiu encontrar umas ‘brechas’ para difundir seu real interesse, e algumas pessoas começaram a entender, respeitar, escutar o som cria- do por seus integrantes.

Um exemplo disso são as posses, isto é, grupos que congregam ra- ppers, graffiteiros e breakers de uma mesma região. Estes grupos estão envolvidos em atividades artísticas, de ação comunitária e de formação política, comprometidos com a cultura do Hip Hop. Muitos destes gru- pos também estão envolvidos com entidades de movimentos negros, sindicatos, partidos políticos, palestras, apresentações teatrais etc.

A mistura de medo e admiração pelo Hip Hop traduz um movimen- to no qual os negros, especialmente jovens, deixam de se tornar víti- mas, expressando novas formas de existir no mundo, a partir dos es- paços de miséria a que foram historicamente relegados. (JOVINIO, 2004, p. 979-980)

No entanto, com a crescente influência da Indústria Cultural, na atualidade, percebemos que o termo Hip Hop foi associado à diferen- tes contextos, como classificação de estilos de música, de dança, com a criminalidade, entre outros, mas dificilmente é descrito como um mo- vimento que surgiu, num período histórico específico, a partir da união dos elementos: RAP (DJ + MC), Break e Graffiti.

 

 

ATIVIDADE

 

 

Entreviste pessoas ou grupos simpatizantes do Hip Hop, perguntando o que eles entendem por Hip Hop. Registre as informações e, posteriormente, elabore um cartaz relacionando as informações obti-

 

 

 

Já vimos que em alguns espaços existem ainda grupos que defen- dem o movimento Hip Hop como expressão da cultura popular, de- senvolvendo ações para resistir aos apelos da Indústria Cultural. Os integrantes desse grupo repudiam a mercantilização do Hip Hop, isto é, transformá-lo num simples produto para ser vendido por empresas que comercializam roupas, músicas e organizam shows.

Uma das formas de resistir a esse processo se expressa na criação de linguagens próprias. Por exemplo: integrantes do Movimento Hip Hop inventaram o termo “Hip Roupa”, para definir as pessoas que tem o hábito de utilizar roupas de marcas associadas ao Hip Hop, mas que desconhecem o significado deste enquanto movimento social.

Outra forma de resistência está na difusão do Movimento Hip Hop através das Rádios Comunitárias, que divulgam músicas e ações sociais realizadas junto a comunidade, mostrando uma visão muito diferente da que vem sendo trazida pelos grandes meios de comunicação.

Diante dessa realidade, muitos grupos comprometidos com a luta social se recusam a se inserir em determinados espaços da mídia, por acreditar que estes acabam por limitar e até distorcer os sentidos efeti- vos dos movimentos de resistência. Será que seria uma das razões pe- la qual o grupo musical Racionais MC se recusam a aparecer na tele- visão?

Confira o artigo abaixo, escrito em 2004 por Eliana Antonia, intitu- lado “Folha de São Paulo joga o leitor contra os Racionais MC’s”. Em resposta a uma reportagem da Folha de São Paulo, publicada em 28 de março do mesmo ano, a autora questiona a intenção do jornal em descaracterizar o grupo musical de RAP Racionais MC’s.

 

 

 

de imprensa brasileira manipula informações segundo os interesses da classe que representa e da qual é porta-voz.

Vejamos como o assunto é tratado pelo Jornal:

Pela primeira vez, o grupo de rap nacional mais avesso à mídia concordou em ceder um minuto de uma música para a emissora. O feito vai ao ar no próximo domingo, durante o “Fantástico”.

A música “Negro Drama” irá compor a trilha sonora do quadro “Brasil Total”, ancorado por Regina Casé. O quadro, no ar há um ano, deixará de exibir apenas reportagens produzidas por afiliadas ou pro- dutoras independentes distantes dos grandes centros.

Irá se abrir também para as periferias das metrópoles. A primeira, dia 4, será São Paulo. Depois, vi- rão Porto Alegre e Salvador. A proposta é “dar exposição máxima aos que estão de fora”.

Os “Racionais” – como são conhecidos pela juventude moradora das periferias dos grandes centros

– chamaram atenção em 1992, quando se tornaram conhecidos nas favelas paulistanas com as músi- cas Mulheres Vulgares, Beco sem Saída, Racistas Otários e Hey boy.

Em 1994 a imprensa não pode ignorar o sucesso de Um Homem na Estrada, Fim de semana no parque e Mano na porta do bar.

Estes raps eram tocados até mesmo nas estações de rádio comerciais, tal era o interesse dos jo- vens pobres pelas letras contundentes na denúncia do racismo e da violência policial, além das afirma- ções do valor e da importância do povo preto.

A partir de então o grupo passou a fazer shows pelas periferias das zonas sul de norte de São Pau- lo, onde moravam seus integrantes, Mano Brown, Ice Blue, KLJ e Eddy Rock. Em pouco tempo eles já seriam conhecidos em todo o Brasil, como uma importante referencia do Rap militante, responsável e comprometido com causas sociais.

O incômodo causado por estes quatro rapazes negros e pobres foi grande. Em diversos jornais fo- ram publicadas matérias em que eram acusados de incitar os jovens à violência contra a polícia, contra os brancos, o ódio racial, entre outras incoerências semelhantes a esta recente matéria da Folha.

Desde de que surgiram, os Racionais seduzem milhares de jovens de todas as classes sociais, mas principalmente das classes mais pobres com sua postura consciente frente às diversas formas de do- minação utilizadas pela elite na manutenção da atual desigualdade social e nas poucas oportunidades dos negros de se mobilizarem socialmente desde sua chegada ao Brasil, no século XVI.

Parte desta postura coerente e afinada com o povo pobre é traduzida na aversão que o grupo tem à mídia comercial. Nunca se apresentaram na TV Globo, no SBT ou em outras emissoras que colabo- ram com a alienação através de novelas, filmes enlatados, etc.

Justificam esta postura apenas com as letras de suas músicas – e cabe lembrar que música para eles não é apenas um som agradável. Música é muito mais que isto, é uma arma contra a discrimina- ção, contra a opressão e contra a miséria.

Dito isto, passemos à reportagem da Folha.

Nela é feita a acusação de que o grupo, após anos de recusa, teria finalmente se rendido aos lou- ros do mercado, cedendo direitos de uma música para o quadro “Brasil Total”, apresentado por Regi- na Casé, durante o Fantástico.

Para quem lê apenas a manchete, fica a impressão que uma música dos Racionais será executa- da no Fantástico, ou em novelas. Talvez alguém imagine até que eles irão se apresentar no Faustão, ou coisas do tipo.

 

 

Não se trata de nada disto, como pode constatar quem lê a integra da matéria.

Na verdade os Racionais colaboraram com um amigo – Sérgio Vaz, que conversou com Brown e explicou o objetivo do diretor independente Jéferson De, na direção do quadro que teria como enredo um conto do também combativo Ferréz.

O quadro foi ao ar no Domingo, 04 de abril de 2004.

Quem assistiu pôde perceber que a Globo, neste episódio, abriu espaço em sua programação para um assunto interessante para o povão. Mostrou uma ínfima parte de seu cotidiano, sua arte, suas inú- meras formas manifestação, de se fazer ouvir.

Particularmente achei o quadro muito legal. A TV Globo está passando por grave crise financeira, necessitando do dinheiro público, agora gerenciado por um governo mais voltado para a maioria, o que a impele a abrir espaço para as questões dos pobres em geral.

A Globo é boazinha? Não.

Ela dança conforme a música. O que não é o caso dos Racionais MC´s, que tiveram apenas um pequeno trecho da letra de Negro Drama, recitado como uma poesia pela mulher que inspirou a letra

– Dona Vilma.

Alguém poderia dizer que, em função da Dona Vilma cantar uma música dos Racionais num progra- ma da Globo, eles se venderam?

Ou alguém poderia dizer que se eles cedessem mesmo os direitos da música para um quadro pro- duzido por uma produtora independente – de amigos do grupo – eles poderiam ser tachados de mer- cenários?

Acredito que não.

Creio que eles continuam a ser o que sempre foram: homens coerentes, combativos e inteligen-

tes.

Se alguém fez algo que não esta em sua cartilha, foi a TV Globo, que não sem interesses alheios

ao assunto reservou parte do horário nobre para pessoas pobres, negras, amantes da arte e lutadores nesta guerra diária pela melhoria das condições de vida nas periferias.

Embora este seja um grande desejo da Folha de São Paulo, Estadão, TV Globo, etc, ter os Racio- nais cooptados ou mesmo seduzidos pelo poder midiático e pelo dinheiro, mais uma vez eles se frus- traram.

 

 

 

Em uma entrevista concedida ao repórter Sérgio Kalili, para uma edição Especial da Revista Caros Amigos, sobre o Movimento Hip Hop, um dos integrantes do Racionais MC, o rapper Pedro Paulo Soares, o Mano Brown, ao ser interrogado sobre “o que significa aparecer no Faustão, no Gugu, na televisão”, respondeu o seguinte: “(…) significa o começo da derrota. Acho que nós estamos começando a ganhar uma batalha pequena de uma guerra gigante. Quando você começa a sair fora do sistema em que os caras colocaram você, o controle remoto, tu- do tá no domínio dos caras, da televisão, eles têm domínio sobre tudo,

 

 

 

tudo que está acontecendo no mundo da música, tá ligado? Todos os estilos. Quando escapa um do controle, os caras viram a atenção pra- quele lado ali. É o que acontece com a gente. Se a gente voltar pros ca- ras, significa que é uma dissidência que perdeu… aí não existe mais. O Racionais não pode trair, tá ligado? Tem muita gente que conta com a nossa rebeldia.” (CAROS AMIGOS ESPECIAL, 1998, p. 18)

É claro que, não só com o Hip Hop, mas em todos os espaços so- ciais, existem pessoas que se utilizam de nomes de grupos para pro- mover roubos, brigas, assaltos, invasões etc. Mas é importante estarmos atentos para o significado original de um movimento de resistência, para que não nos deixemos enganar pelos ‘equívocos’ da mídia.

 

 

 

 

 

 

 

 

PESQUISA

 

 

Pesquise, em revistas, jornais e na internet, reportagens que abordem outros pontos de vista sobre o Movimento Hip Hop. Escreva um texto comparando os diferentes pontos de vista com a sua opinião sobre o assunto.

 

 

 

z Os elementos do Hip Hop

 

O Hip Hop é considerado um movimento que envolve elementos distintos: o RAP (MC + DJ), o Break e o Graffiti. A união desses ele- mentos configurou, historicamente, um movimento cujo objetivo é cri- ticar uma situação social desfavorável e mobilizar a sociedade para lu- tar por uma mudança principalmente de consciência. Vamos conhecer um pouco mais sobre cada um deles?

RAP: Caracteriza-se por um canto falado, somando-se a este alguns trechos instrumentais de soul-music. A sigla RAP, em inglês, signifi- ca Rhythm and Poetry, em português “Ritmo e Poesia”. Composto pe- lo DJ e pelo MC, o RAP surgiu nos EUA na dedada de 70, influenciado por DJ jamaicanos que deixaram a Ilha do Caribe devido a problemas econômicos.(VARGAS, 2005) Esses jamaicanos fizeram sucesso com seu esti- lo diferenciado de fazer  música,  não  demorando  para  que  sur- gissem os grupos de RAP, que se espalharam por toda a

periferia dos E.U.A., especialmente Nova Iorque.

O som era tocado na rua, através dos sound syste- ms (muito parecido com trios elétricos brasileiros), principalmente porque a população dos guetos não dispunham de condições para freqüentar lugares fechados (elitizados). O RAP cantado nos Estados Unidos da América carregou algumas característi-

 

 

cas dos ritmos Jamaicanos (Reggae). Os cantores jogavam frases no meio das músicas, nas quais eram colocados posicionamentos fortes principalmente em cima dos problemas econômicos.

 

O RAP surgiu “(…) como um gênero musical que articula a tradição ancestral africana com a moderna tecnologia, produzindo um discur- so de denúncia da injustiça e da opressão a partir do seu enraizamento nos guetos negros urbanos”. (DAYRREL, 2002)

 

 

Cada grupo de RAP compõe suas próprias músicas que, de certa forma, são influenciadas em grande parte pelas histórias de vida da- queles que as escrevem. A maioria das letras retratam as condições de miséria, violência e exclusão social a que estão submetidas grande par- te da população. Outras, além da crítica social, também são um apelo à liberdade e esperança por uma sociedade mais justa. Os composito- res atribuem a si mesmos o papel de “porta vozes” da periferia. (DAYR- REL, 2002)

 

DEBATE

 

 

Título da Música: A vida é desafio Autor: Afro-X

Grupo Musical de RAP: Racionais MC’s

 

“(…) VÁRIAS FAMÍLIAS VÁRIOS BARRACOS UMA MINA GRÁVIDA

E O MANO TÁ LÁ TRANCAFIADO

ELE SONHA NA DIRETA COM A LIBERDADE

ELE SONHA EM UM DIA VOLTAR PRA RUA LONGE DA MALDADE NA CIDADE GRANDE É ASSIM

VOCÊ ESPERA TEMPO BOM E O QUE VEM É SÓ TEMPO RUIM NO ESPORTE NO BOX OU NO FUTEBOL ALGUÉM

SONHANDO COM UMA MEDALHA O SEU LUGAR AO SOL PORÉM FAZER O QUE SE O MALUCO NÃO ESTUDOU

500 ANOS DE BRASIL E O BRASIL AQUI NADA MUDOU (…)”

 

O trecho de música acima apresenta vários elementos para pensarmos a realidade social. Nesse sentido, organize na turma um debate para escutar a música e discutir os vários elementos presentes na letra completa, como violência, família, luta de classes, questões de gênero, entre outros. Você po- de também escolher outro RAP para fazer a discussão.

 

 

Atualmente, o RAP incorporou outras lógicas e foi massificado, ou seja, difundido com uma outra ‘roupagem’, sendo criminalizado e ero- tizado especialmente pela mídia. É só perceber as várias músicas que tocam nas rádios nacionais ou traduzir as letras norte americanas, que se auto intitulam RAP, mas fazem apologia ao crime, ao uso de drogas e tratam as mulheres como objeto sexual. Também podemos perceber essa nova ‘roupagem’ quando assistimos alguns filmes e vídeo clip’s que anunciam o RAP, nos quais ficam evidentes o apelo ao corpo ero- tizado, aos carrões, as correntes de prata e de ouro, as mansões etc. Se- rá que podemos escrever uma letra de RAP fugindo dessa lógica?

 

 

ATIVIDADE

 

 

CRIANDO UM RAP!

  • Primeiro passo: Entender como são as batida no RAP. É muito comum as músicas de RAP te- rem tempos compostos por 4 batidas, sendo a segunda e a quarta as mais fortes, se compa- rarmos com a primeira e a terceira). Sugerimos que seja utilizado o próprio corpo para produzir os Como ficam as batidas então? A primeira e a terceira batidas, as mais fracas, podem acontecer com um tapa leve nas pernas; e depois, para representar as batidas mais fortes, po- de-se bater palma ou dar um tapa em uma mesa;
  • Segundo passo: Formar pequenos grupos, que deverão escrever a letra do RAP. Sugerimos que seja proposto uma temática, que pode ser eleita pelo Coloca-se as palavras que se quer dar mais ênfase na segunda e na quarta batidas, completando a frase com a primeira e terceira. Lembre-se que as batidas fracas podem ser formadas por uma, duas ou até mais pa- lavras, de acordo com a Métrica. Outra sugestão é que as últimas palavras, a cada duas fra- ses, terminem em rima, como no exemplo abaixo:

 

EX_________________________________________ Emoção    

(FRACA)            (FORTE)                (FRACA)         (FORTE)

 

 

                                                    _Educação  

(FRACA)              (FORTE)             (FRACA)           (FORTE)

 

 

 

  • Terceiro passo: Apresentação dos grupos, que devem ensaiar o ritmo e a mensagem do RAP antes de apresentar para a turma. Os grupos podem ainda criar coreografias para se expres-

 

 

 

 

  • Ilustração 5: Disponível em: <ht- tp://www.verorg.br/dia– rio/2004/0312/dj_big.jpg> Acesso em: 19 nov. 2007.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Ilustração 6: Disponível em:

<http://pt.wikipedia.org/wiki/MC> Acesso em: 19 nov. 2007.

DJ: É a pessoa responsável pelo som, pela música ritmada, isto é, por criar técnicas eletrônicas nas músicas. O termo DJ, em inglês, sig- nifica Disc Jóquei. Foi Kool Herc um dos responsáveis por levá-lo da Jamaica para o Bronx, nos Estados Unidos da América, através do Sound System (sistema de som). Nas festas, os DJ jamaicanos transmi- tiam mensagens com críticas à sociedade. No final dos anos 60, o que fazia sucesso em Nova Iorque era o Funk, o Soul e outros rítmos Afro- Americanos. “Para os negros, os anos 60 não eram de Rock n’ Roll, nos guetos ouvia-se o Soul, James Brown era o rei! Surgia o Funk, a agres- sividade desse estilo era inquestionável, quer nas suas batidas quer nos seus gritos. Tudo o que os negros passavam era expresso nas suas canções. Contavam idéias de mudança de atitude, valorização da cul- tura negra, revolta contra os opressores… .” (MARTINS, s/d) Kool Herc teve a idéia de usar um Mixer, um aparelho que mistura sons reproduzidos por dois 2 discos de vinil. A partir de então criaram-se muitas técnicas, dentre elas o Scratch (levar o disco para frente e para trás).

 

“O trabalho de um Dj representa a arte de “brincar” com a música, criar novos sons e ritmos em um estilo musical que esteja em moda ou não. Atualmente, é a profissão mais cara e mais cobiçada no mercado de trabalho ligado à música.” (LEÃO, 2006, p. 09)

MC: Significa Mestre de Cerimônias. O termo surgiu nos Estados Unidos da América junto com a cultura Hip Hop. No entanto, assim co- mo o DJ, essa prática tem origem na Jamaica, “(…) onde a população dos guetos, com poucas opções de lazer, ia para as ruas e ouvia músi- cas em sound systems. Enquanto as músicas tocavam, uma espécie de mestre de cerimônia discursava sobre as carências da população, os problemas econômicos e a violência nas favelas.” (VARGAS, 2005) Uma das qualidades que todo(a) MC deve ter é a capacidade de criar letras com- postas ou improvisadas.

No Brasil, atualmente, a prática dos MC parece não mais correspon- der ao que era inicialmente. Muitos praticantes atuam numa outra for- ma de Funk, com conotação sexual e de culto ao corpo. Para saber mais sobre a precarização musical e a dança, leia o Folhas: “Quem dança os seu males…”, p. 193.

 

 

 

BREAK – expressão corporal através da dança: O Break surgiu de uma cultura de periferia. “Esta manifestação juvenil teve origem nos bairros negros e latinos de Nova Iorque, na década de 60. A invenção de novas maneiras de ser jovem na cidade, não demorou a ecoar em outros locais, ao sabor de outras “galeras”. (ALVES e DIAS, 2004, p. 02)

No final da década de 20 do século XIX, com a crise econômica nos E.U.A., inúmeros trabalhadores, dentre eles alguns dançarinos e músi- cos, perderam seus empregos em antigos cabarés, e resolveram ir pa- ra a rua realizar apresentações.

Como você já sabe, durante e após a Guerra do Vietnã, alguns breakers criaram movimentos e coreografias com a intenção de expres- sar situações da guerra, como forma de protesto contra essa barbárie humana. Imitavam, através da dança e expressão corporal, os helicóp- teros, as lutas corporais de soldados que chegavam mutilados e outras situações específicas das batalhas. Estes e outros movimentos são ain- da hoje bastante utilizados pelos B. boys e B. girls. O que você acha de tentar realizar alguns destes movimentos?

Após a guerra do Vietnã, o Break continuou a existir como um mo- vimento de protesto/resistência às situações de opressão ocorridas na sociedade, sendo utilizado também como estratégia para diminuir as brigas que ocorriam entre gangues de rua. Através de competições de- nominadas como “batalhas”, alguns grupos se organizaram com intuito de criar movimentos e coreografias para concorrer com outros grupos, ou gangues. Os vencedores muitas vezes permaneciam nos territórios nos quais as “batalhas” haviam sido travadas.

Não demorou muito e o Break estava no Brasil. Difundido especial- mente na década de 90, incorporou outros elementos próprios da cul- tura local, como os movimentos que identificam a capoeira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Ilustração 7: Dançarino do grupo de break do Hip Hop Nation dan- ça em Filadélfia (Jennifer Midber- ry/ © Philadelphia Daily News/ The Image Works) Disponível em: <http://usinfo.state.gov/jour

nals/itsv/0403/ijsp/music3.htm>. Acesso em: 27 out. 2007.

 

 

Atualmente, este estilo de dança e outras práticas corporais estão subjugadas a lógica do capital, o que resulta na sua mercantilização. Não é por acaso que vemos na mídia, ou em outros espaços sociais, grupos de Break que vendem marcas de roupas, jóias etc. “Embora existam outras relações sociais de produção que não são capitalistas, são estas últimas que condicionam os seus diferentes modos de ser.”, no ocidente. (ÁVILA, OLIVEIRA e PEREIRA, 2005, p. 47)

 

 

DEBATE

 

 

  1. Assista o filme Entre Nessa Dança: Hip Hop no pedaço (You got Ser- ved).

Sinopse do Filme: You Got Served apresenta um competitivo mundo da dança de rua, denominada por ‘street dancing’, na qual grupos dis- putam entre si em troca de dinheiro e reconhecimento. Com talento puro inacreditável, demonstram os movimentos explosivos que desafia a gravidade e giram alto aos rítmos da música urbana. Elgin (Marques Houston) e David (Omari Grandberry) são grandes amigos e líderes do melhor grupo de dança do bairro. Quando uma outra equipe famosa da cidade os desafia, David e Elgin – ao lado de seus companheiros (Jarell Houston, DeMario Thornton e Dreux Frederic) – se vêem obrigados a criar os mais modernos movimentos e passos para conseguirem man- ter-se no topo.

 

  1. Depois de assistir ao filme, organize grupos para discussão do mesmo. Elabore pontos para se- rem discutidos com a turma. Um dos pontos para debate pode ser questionar qual é idéia so- bre o Hip Hop que o filme
  2. Após a discussão, cada grupo deverá escolher pontos que foram discutidos e apresentá-los em forma de dança (Break) ou Pode ainda convidar um grupo de dança ou colegas pa- ra apresentar movimentos básicos do Break.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GRAFFITI – a expressão da arte, o meio de comunicação: Apesar de não existir uma data específica que identifique o surgimento do Graffi- ti, algumas teorias afirmam que ele é o mais antigo dos elementos que compõem o movimento Hip Hop. Trata-se de uma técnica com um es- tilo particular, tanto na forma de desenhar quanto na de escrever.

Alguns historiadores associam a prática de escrever nos muros, pa- redes e rochas com as atividades desenvolvidas pelo homem no perí- odo histórico Paleolítico Superior. Veja o quadro a seguir:

 

 

RAÍZES DO GRAFFITI

O grafitismo remete aos tempos das pinturas rupestres, quando nossos antepassados longínquos marcavam pictoriamente o interior das cavernas. Há vinte mil anos, em Lascaux [complexo de cavernas localizado na Fran- ça], os homens traçavam seus primeiros desenhos nas paredes das ca- vernas. Estas pinturas rupestres eram carregadas de simbologias, e inte- gravam rituais místicos que antecediam as caçadas e tinham a função de representar um resultado frutífero destas expedições por alimento. Projeta- va-se nas paredes, com pedras, pigmentos vegetais e gordura animal, o desejo de se conseguir capturar estas ou aquelas presas. Mas as funções das pinturas rupestres descobertas no sítio arqueológico de Lascaux não se resumiam a representar a subjugação dos animais pelos nossos antepassa- dos. Estas inscrições pictóricas primitivas também se referiam a outros as- pectos da organização social, do modo de vida e da cultura da época. (PEN- NACHIN, 2003, p. 07. Grifo nosso)

 

 

Na década de 70 jovens pobres de Nova Iorque utili- zavam-se dos mais diversos espaços, como muros, placas e trens, ou em qualquer lugar que fosse possível para ex- pressar sua arte, isto é, desenhos com mensagens de pro- testo ou de conscientização.

Os materiais comumente utilizados por graffiteiros são:

spray de tinta, rolinho, pincel, corante e tinta de galão.

Mas cuidado! Muitas pessoas associam a prática do Graffiti com a pichação. Não são a mesma coisa! Esta úl- tima não está comprometida com a crítica social, e pode

 

 

 

 

 

 

 

 

  • Ilustração 9: Disponível em: <http://www.rededasaguas. br/observando/grafite_COP.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2007.

 

ser considerada apenas um ato de vandalismo. Para saber mais sobre a manifestação cultural do Graffiti, leia o Folhas: “Você suporta a ar- te?”, no Livro Didático Público de Arte.

 

Afinal, o que é o Movimento Hip Hop?

 

“Os hip hoppers com seu jeito esquisito de se vestir e de falar, seu estranho bailado, com seu gênero de música popular, urbana, que consiste numa declamação rápida e ritmada de um texto, com alturas aproximadas, têm efetuado diferenças e deslocado as disposições do poder em diversos espaços e instituições.” (JOVINO, 2004, p. 979)

Uma das constatações que podemos fazer é que a realidade acerca do movimento Hip Hop apresenta inúmeras contradições, quando ana- lisamos suas diferentes formas de existir socialmente, desde o seu sur- gimento até os dias atuais. Ou seja, percebemos que este movimento surgiu com um propósito de resistência, mas ao longo dos anos foram dadas novas roupagens a ele, passando a aderir inclusive aos modelos de consumo e de mercado vigentes.

 

Essa enorme variedade de expressões do Hip Hop fazem desta prá- tica um elemento importante a ser considerado pois, através dele, po- demos inventar novas formas de existir, se relacionar e se expressar, conhecendo outros pontos de vista sobre a vida, possibilitando novos olhares para a realidade social.

Por ser uma cultura popular, o Movimento Hip Hop precisa ser en- tendido nas suas contradições, pois, da mesma forma que a cultura do Hip Hop influencia a sociedade, esta também influencia o Hip Hop. “Existe, dentre várias técnicas corporais, a produção cultural do Mo- vimento Hip Hop, que pode ser vista como uma cultura que engen- dra diferentes subculturas.(…) Ocorre tanto um processo de captura da cultura popular pela cultura hegemônica, como um processo de re-sig- nificação da cultura hegemônica em uma cultura popular de resistên- cia” (AVILA, OLIVEIRA e PEREIRA, 2005, p. 50-59)

Por exemplo, assistindo a antigos filmes de jazz, você também po- derá ver claramente as semelhanças entre o Break e as antigas danças de rua dos negros americanos do início do século XX. Sem falar na in- fluência da capoeira nos movimentos do Break brasileiro.

E agora, o que você tem a dizer sobre a imagem do início deste ca- pítulo?

 

ATIVIDADE

 

 

Organize um evento que contemple apresentações dos 4 elementos do Hip Hop. Se conside- rar importante, pode ser garantida a apresentação de outras manifestações corporais que se apro- ximaram do Movimento Hip Hop, como o Street Ball, o Skate, entre outras.

 

 

 

 

z Referências Bibliográficas

 

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AVILA, A. B.; OLIVEIRA, P. D. L. de; PEREIRA, L. G. Hip Hop e cultura:

revelando algumas ambigüidades. In.: DAMIANI I. R. e SILVA, A. M. Práticas Corporais: experiências em Educação Física para outra formação humana. Volume 3. Florianópolis: Nauemblu Ciência & Arte, 2005, p. 47-67.

 

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